Crítica | Sense8 – 2ª Temporada

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estrelas 4

Obs: Leia, aqui, as críticas anteriores.

Sense8 desafia definições, desafia até mesmo a forma como entendemos e julgamos uma série. Seus criadores – as irmãs Wachowski e J. Michael Straczynski – criam uma amálgama de personagens que, juntos, representam versões idealizadas e, portanto, carregando um quê de estereótipos, de uma grande parcela da humanidade. O objetivo não é criar algo realista ou que possa ser simplesmente classificado de ficção científica e sim uma espécie de universo próprio em que os protagonistas são aquilo que, em um mundo ideal, gostaríamos que eles fossem.

E isso, certamente, afastou muita gente da série, assim como atraiu também muitos fãs. A promessa de uma série sci-fi não foi exatamente cumprida, mas, em seu lugar, recebemos algo inusitado, diferente e que encanta. A fotografia variada, cada uma característica de cada personagem e/ou de cada país ou cidade em que a série foi filmada, sempre em locação ao redor do mundo, é espetacular, um verdadeiro presente. Cores quentes e de terra para o empobrecido, mas feliz Quênia de Capheus, um cinza azulado para os esconderijos entristecidos, mas cheios de amor de Will e Riley, cores fortes e básicas para a Cidade do México de Lito e branco, com tonalidades de cinza para a prisão solitária de uma Sun que é a representação da contradição: paz de espírito e fúria encapsulada.

Depois de um intervalo acima do normal, de quase dois anos, com apenas um Especial de Natal para amenizar a espera em 2016, que, na prática, funciona como o primeiro episódio da 2ª temporada, a série volta para abordar as vidas mudadas dos oito protagonistas em um mundo conectado por suas mentes privilegiadas, depois que seu grupo “nasce” de Angelica que, ato contínuo, comete suicídio. E é interessante notar que seus showrunners ouviram, de certa forma, as reclamações de quem considerou que houve muito foco nos dramas pessoais de cada um e pouco na misteriosa trama que os une.

De fato, sem a necessidade de apresentar os personagens e de construir sua histórias do zero, as Wachowski e Straczynski conseguem introduzir e trabalhar melhor o lado Arquivo X da série, abordando a origem evolutiva dos Sensates, novos grupos que existem escondidos (ou não) pelo mundo e, claro, o sinistro Sussurros (Whispers) e sua caça ao grupo de Will.

Sim, grupo de Will. Afinal, o policial foragido Will Gorski é o ponto focal de boa parte da 2ª temporada, assim como fora da anterior, já que ele, dentre outras funções, é o catalisador das descobertas aqui em razão de sua conexão inadvertida com Sussurros. Vivendo escondido com Riley e com heroína na veia para suprimir suas habilidades e, por consequência, a possibilidade do vilão achá-los, Will é quem começa a abrir as portas para o contra-ataque de seu grupo, normalmente com a valiosa ajuda de Nomi e de sua namorada Neets.

Logo de início, a história principal é muito bem impulsionada por roteiros que conseguem criar momentos genuinamente tensos, com diversas reviravoltas inesperadas que aprofundam e por vezes confundem a trama. Para os que apreciaram o tom mais novelesco da 1ª temporada, ele continua muito presente, havendo, apenas, a necessária abertura de espaço para um pouco mais de preocupação com o embate entre os Sensates e Sussurros de forma a permitir que este universo fosse ampliado, algo que acontece exponencialmente com a introdução de novos e interessantíssimos personagens, especialmente novos Sensates (ou Homo Sensorium) e novas habilidades ao longo da progressão da história.

Do lado pessoal de cada personagem, a temporada os desenvolve de maneira lógica e cadenciada, estabelecendo novas situações para cada um deles, algumas mais do que esperadas, como nos casos de Lito e de Sun e outras razoavelmente surpreendentes como o que acontece com Capheus. Às vezes, é inevitável, mesmo com apenas 10 episódios, sentir o peso de um desenvolvimento mais arrastado aqui e ali, mas a grande verdade é que Sense8 é uma série que se preocupa menos com a progressão narrativa meteórica e mais com um lado contemplativo, que tenta ampliar a mente do espectador, introduzindo-o a uma miríade de temas, discussões e críticas sócio-econômico-políticas relevantes em um mundo cada vez mais conectado. Há, sem dúvida alguma, um interesse quase utópico dos showrunners em nos apresentar ao mundo ideal de acordo com sua visão, deixando às escâncaras as mazelas que nos impedem de chegar até lá.

Tendo esse propósito em mente, os roteiros muitas vezes rateiam e passam a ser expositivos ao extremo, didáticos até não poder mais e não só nas questões sociais e políticas. Os roteiristas sucumbem à tentação de deixar tudo explicado no “estilo Scooby-Doo“, ou seja, carregando fortemente naqueles momentos em que a história para completamente para que algum personagem (normalmente Nomi ou Will) explique o que está acontecendo em termos pseudo-técnicos. E, no lado do comentário social e político, há um excesso de pregações que acabam cansando o espectador, com frases beirando o brega como “eu me apaixono por pessoas, não por genitálias” e situações que repetem o que acabou de ser dito ou vice-versa.

Isso quer dizer, basicamente, que Sense8, mais ainda nesta 2ª temporada, não é uma série de sutilezas ou de meias palavras. Tudo é expressado verbal ou visualmente até esgotar, quase como se os showrunners terminassem cada sequência com um “entendeu agora, meu caro?”. Se eu considero isso um defeito? Certamente. Mas, como mencionei acima algumas vezes, a série tem diversas outra qualidades, a mais gritante delas sendo sua beleza plástica de contornos genuínos em razão da variedade de locações usadas – fico imaginando, estupefato, a logística disso! – e personagens que, por mais que possam ser clichês ambulantes, são, muito acima disso, cativantes.

Sim, cativantes. Cada um deles tem uma história interessante sendo contada que por vezes se entrelaça com a de outro e sempre converge para a história maior, com belos momentos de esforços conjuntos que parecem gritar “a união faz a força” em letras garrafais de neon. Claro que eles não seriam assim se o elenco não funcionasse bem constantemente. Há uma química perfeita entre eles e, quando falo entre eles, não quero apenas dizer as duplas tradicionais, como Nomi e Neets, Will e Riley e Wolfgang e Kala. Há uma preocupação em se fazer a dança das cadeiras dentro do grupo e cada nova dupla que se estabelece, mesmo que por alguns minutos, acaba realmente se encaixando e fazendo sentido narrativo.

Toby Onwumere, que substituiu Aml Ameen no papel de Capheus é um achado, reunindo uma presença física imponente com um rosto e expressões corporais que exalam alegria e humildade. Doona Bae, como a lutadora coreana Sun, é uma daquelas atrizes que nos faz sofrer por não aparecer na tela tanto quanto gostaríamos, ainda que, nesta 2ª temporada, em razão de alteração radical de seu status quo, ela seja melhor aproveitada. Brian J. Smith e Tuppence Middleton, respectivamente como Will e Riley, formam um casal perfeitamente genuíno e adequadamente falho que tem a função prática de impulsionar a história maior. E assim por diante. Cada um dos atores e atrizes que vivem os Sensates e os coadjuvantes relacionados com suas vidas particulares funcionam bem em conjunto e separadamente se o espectador souber aceitar que o que normalmente é visto como falha em uma série mais comum, é virtude em Sense8.

Esses estereótipos também estão presentes no lado de lá da narrativa. O Sussurros de Terrence Mann é o equivalente ao Marlboro Man de Arquivo X. Misterioso até não poder mais, vilanesco como se estivesse em um filme de James Bond e inteligente como Hannibal Lecter, o homem é o que se espera de um antagonista clássico e, na 2ª temporada, ele ganha um bom destaque que é espertamente usado para lidar com as disputas políticas internas na complexa empresa em que trabalha.

A 2ª temporada de Sense8 representa um avanço em relação à primeira, com maior – mas não completo – equilíbrio entre o lado pessoal de cada personagem e a trama guarda-chuva de viés sci-fi. Ainda não agradará quem não gostou do que veio antes, mas de forma nenhuma desagradará quem soube apreciar a cativante beleza e a estranha eficiência dessa visão de mundo ideal das irmãs Wachowski e de J. Michael Straczynski.

Sense8 – 2ª Temporada (Idem, EUA – 05 de maio de 2017)
Showrunner: J. Michael Straczynski, Lilly Wachowski, Lana Wachowski
Direção: Dan Glass, Lana Wachowski, James McTeigue, Tom Tykwer
Elenco: Brian J. Smith, Doona Bae, Tuppence Middleton, Miguel Ángel Silvestre, Jamie Clayton, Max Riemelt, Tina Desai, Toby Onwumere, Freema Agyeman, Terrence Mann, Naveen Andrews, Daryl Hannah, Anupam Kher, Paul Ogola, Michael X. Sommers, Maximilian Mauff , Erendira Ibarra, Alfonso Herrera
Duração: 600 min (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.