Crítica | Sequestro Relâmpago

Encantador ver como há uma renovação considerável no cenário brasileiro de cinema, mesmo em meio às tendências que buscam homogeneizar a maneira de se filmar no nosso país. Filmes sempre limpos, estáticos, que geralmente tentam exprimir afeto a partir de narrativas higienizadas e sem “epiderme”, nas palavras do cineasta Claudio Assis. Da marginalidade, surgem cineastas que buscam uma luz no fim do túnel e inovam, formalmente ou tematicamente, distanciando-se da inclinação que nosso cinema vem vivendo, sendo esses os que se destacam futuramente, justamente por não ser mais do mesmo. O que tem surgido de mais interessante nos últimos anos são filmes de gênero que miram longe da maneira americana de filmar, que resgatam a brasilidade e a aproximam duma temática universal, como foi o caso de As Boas Maneiras, um longa de terror passado durante as festas de São João, e o mais recente Sequestro Relâmpago, filme de crime situado em São Paulo que expõe a cidade como órgão que promove a desigualdade de classes e a única maneira de comprimi-la é via violência.

O artifício do filme é desordenar a paranoia social da sociedade grande mudando as regras do jogo o tempo inteiro. O longa trata de Isabella, uma mulher abastada, que, a caminho da casa do namorado, é sequestrada por dois bandidos, Matheus e Japonês, que alongam o sequestro até as dez da manhã do dia seguinte. Ao invés de explorar a violação da figura feminina, a diretora Tata Amaral opta por expor o amadorismo dos sequestradores e com isso intuir os momentos de alta e baixa tensão entre os três protagonistas. O filme sabe transitar muito bem entre os momentos descontraídos onde os rapazes provocam humor das situações extraordinárias provocadas pelas suas trapalhadas e entre momentos de tensão onde a vida de Isabella está em jogo ou até quando o sequestro está próximo de ser desmanchado.

Isabella está o tempo todo tentando se safar, não apenas com sua astúcia, mas convencendo-os que ela e eles estão do mesmo lado, são a massa trabalhadora explorada pelos 1% que detêm mais da metade do dinheiro do mundo. Com isto estabelecido muitas vezes essa máxima estabelecida por ela chega a ser aceita pelos dois sequestradores, que se aproximam da moça e quase tornam-se amigos, mas a distância social entre ela e os criminosos fala mais alto, retomando o jogo de brutalidade que é perdido muitas vezes ao longo do filme. O filme passa-se quase que inteiramente em uma viagem de carro por São Paulo pelas paisagens mais diversas da cidade, revelando o contraste social incapaz de dar chance a qualquer empatia deles por Isabella. São Paulo é um abismo social onde cada quilômetro rodado revela uma nova injustiça e chega a quase justificar o sequestro

O filme por alguns momentos parece chegar perto de um momento de conciliação, mas a divergência coletiva propagada ao longo do filme só pode ser resolvida na bala.  Incapazes de aproximar-se do status de Isabella, apenas tocar o terror pode ser a resposta para desigualdade cavada por mãos sujas de sangue ao longo dos anos. Se por algumas horas Isabella, Matheus e Japonês puderam sentar-se em um bar para beber e jogar sinuca, foi só para esclarecer o que já estava claro: o trio não pertence ao mesmo mundo e jamais irá. São Paulo é grande demais, mas ainda assim não o suficiente para caber os três e todo nosso histórico de desigualdade.

Sequestro Relâmpago – Brasil, 2018
Direção: Tata Amaral
Roteiro: Tata Amaral, Henrique Pinto, Marton Olympio
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Sidney Santiago, Daniel Rocha, Linn da Quebrada, Projota
Duração: 85 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.