Crítica | Sete Homens e um Destino

estrelas 3

Os Sete Samurais, talvez um dos mais sensacionais filmes já feitos, deixou sua marca indelével no mundo do cinema e da cultura popular. Seu filho mais famoso – e dependendo a quem você perguntar, mais famoso ainda que o original – é Sete Homens e um Destino, que literalmente transpõe a ação samurai passada no japão feudal para o faroeste na fronteira entre Texas e México.

Sete Homens e um Destino reúne um elenco estelar (ou, melhor dizendo, que viria a ser estelar) e, apesar de seu fracasso de bilheteria nos EUA – foi muito mais bem sucedido na Europa – acabou se tornando, pela junção do elenco com a trilha sonora inesquecível de Elmer Bernstein (e que virou tema de publicidade do cigarro Marlboro) e pela forma como retrata os pistoleiros do velho oeste em uma das obras do gênero mais amadas pelos americanos em geral, fazendo parte eterna de listas e mais listas de “melhores” da categoria, além de ser um dos filmes mais reprisados da televisão de lá. Isso, claro, levou à criação de três continuações e de uma série de TV, além de um sem-número de outras obras que se apropriam das ideias lá contidas (e também no original, claro!), como até mesmo Vida de Inseto.

Para começar a entender esse fenômeno, há, primeiro, que saber dosar as expectativas. Sete Homens e um Destino pode ser baseado em Os Sete Samurais e sua história realmente segue muito proximamente a obra de Akira Kurosawa, mas o filme está longe de ter o rigor técnico, a qualidade de atuações e o brilhantismo em geral do trabalho de 1954. Além disso, Sete Homens e um Destino é um dos mais clássicos exemplares da tentativa sessentista de se renovar o espírito dos clássicos westerns de outrora, com personagens unidimensionais, heroicos e que nunca ficam desgrenhados não importando a situação.

Se tivermos esses dois aspectos em mente, é perfeitamente possível apreciar a fita como uma obra despretensiosa de aventura. Um pouco mais de duas horas de diálogos cheios de chavões, trilha sonora heroica, vilões vilanescos e, principalmente, um desfile de sensacionais atores que apenas não têm espaço para mostrarem sua latitude, além de posar de bons moços e mostrarem suas habilidades com pistolas e, no caso de um deles, faca.

A história, hoje, é amplamente conhecida. Pobres fazendeiros mexicanos aterrorizados pelo bandoleiro Calvera (o saudoso Eli Wallach) reúnem o pouco que têm para contratar pistoleiros. Chegando em uma cidadezinha texana, eles logo se deparam com Chris (o também saudoso Yul Brynner) e Vin (Steve McQueen, um dos maiores atores de ação que já viveu e, claro, saudosíssimo) que ajudam um descendente de nativos a ser enterrado no cemitério local, apesar do preconceito dos residentes. Essa demonstração de correção moral, claro, leva os fazendeiros a procurar Chris que, com o maior coração de manteiga do mundo, se compromete a reunir um pequeno grupo de seis para resolver o problema. Com isso, outros quatro atores clássicos se juntam ao grupo: Robert Vaughn, Brad Dexter, James Coburn e Charles Bronson.

O sétimo, assim como o “quarto mosqueteiro” da obra de Alexandre Dumas, é Chico (Horst Buchholz), um jovem de cabeça quente que quer de qualquer jeito se juntar ao grupo, nem que para isso tenha que segui-lo ao longe. Com essa configuração, os heróis incontestáveis partem para defender os indefesos camponeses da violência de Calvera.

John Sturges, diretor do sensacional Duelo de Titãs logo no ano anterior, faz uma obra muito mais épica e abrangente, com planos gerais demonstrando a aridez do deserto sendo contrastado com planos médios característicos de cada um dos sete heróis, especialmente Chris e Vin, os líderes natos. São tomadas bonitas, mas, em última análise, burocráticas, daquelas que, mesmo àquela época, já eram batidas e perfeitamente esperadas de um filme do gênero. Sturges, porém, faz bom uso do carisma dos personagens, com especial destaque para a retidão moral e seriedade (refletida no clássico figurino preto, que seria homenageado em Westworld – Onde Ninguém Tem Alma, 13 anos depois) do personagem de Yul Brynner, cuja voz grave só empresta poder a Chris, tornando-o ao mesmo tempo o estrategista, o líder e, para nós, o narrador.

O roteiro, porém, tem dificuldade em dar relevância ao grupo como um todo. Vin é pouco explorado – só os olhos azuis de McQueen ganham destaque – e Chico, o “estagiário de pistoleiro”, é uma espécie de alívio cômico misturado com tentativa de desenvolvimento de personagem. Funciona até certo ponto, pois conseguimos nos relacionar com ele e entender sua urgência, ainda que o roteiro faça questão, em um daqueles momentos expositivos de se revirar os olhos, de explicar em detalhes sua “origem”. Na verdade, o mais interessante de todos é o almofadinha Lee (Robert Vaughn) que perdeu a coragem e foge dos combates. O roteiro ameaça desenvolvê-lo, mas a multitude de personagens e a necessidade de se fazer a narrativa principal caminhar acaba impedindo a realização do potencial.

Mas a grande falha do trabalho de William Roberts que, na verdade, foi apenas o roteirista presente na produção, já que as versões anteriores de Walter Bernstein e de Walter Newman foram usadas por Roberts, mas os créditos só foram para ele, é realmente no terço final, onde o grande clímax deveria ocorrer. A questão é que a fita tem seu clímax efetivo bem antes, logo no primeiro ataque do bando de Calvera ao vilarejo. O que vem em seguida parece, somente, uma tentativa de se alongar a fita, traindo até mesmo a frieza e capacidade estratégica de Chris e de seu grupo, resultando em mortes banais, que desapontam.

Em linhas gerais, porém, Sete Homens e um Destino, apesar de não ser uma obra mais do que apenas interessante, um pálido reflexo do filme que a inspirou, recarrega as baterias do herói-clichê de faroeste e tem uma alma impossivelmente altruísta que, em conjunto com uma trilha excitante e atores hoje inesquecíveis, resultam em pouco mais de duas horas de intenso divertimento.

Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, EUA – 1960)
Direção: John Sturges
Roteiro: William Roberts (baseado em Os Sete Samurais)
Elenco: Yul Brynner, Eli Wallach, Steve McQueen, Charles Bronson, Robert Vaughn, Brad Dexter, James Coburn, Horst Buchholz, Jorge Martínez de Hoyos, Vladimir Sokoloff, Robert J. Wilke
Duração: 128 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.