Crítica | Sete Minutos Depois da Meia-Noite

estrelas 4,5

Qualquer um que já tenha perdido um ente querido ou amigo, seja para uma doença ou outra fatalidade da vida, sabe que tão difícil quanto não ter mais a pessoa no mundo é aceitar o fato de que ela está indo embora ou já se foi. Não é preciso dizer que isso é especialmente difícil para crianças, que ainda não contam com a carga necessária para saber lidar com tais situações. Sete Minutos Depois da Meia-Noite lida exatamente com essa questão, focando no que um jovem garoto faz para encarar a morte e como esse fato acaba desestabilizando seu emocional completamente.

A trama gira em torno de Conor (Lewis MacDougall), um jovem garoto cuja mãe (interpretada por Felicity Jones) está com câncer. Desde os minutos iniciais do longa sabemos o quanto isso o afeta – ele é assolado por pesadelos sobre perdê-la e enxergamos em seu rosto os sintomas da falta de sono a tal ponto que na escola ele sofre bullying de um grupo de garotos de sua turma e mal parece se importar com isso, como se utilizasse essa dor física para diminuir o peso que já carrega sobre as costas. Em uma noite, contudo, exatamente sete minutos após a virada do dia, ele é visitado por um monstro (voz de Liam Neeson), um ser ameaçador em forma de árvore gigante, que decide contar ao menino três histórias e a quarta o jovem deveria contar o seu sonho que tanto teme.

O roteiro de Patrick Ness, que também escrevera o livro no qual o longa é baseado, faz um ótimo trabalho ao apresentar o protagonista e deixar sua condição sabida desde o princípio, criando um imediato vínculo do espectador com o personagem, que passa a entender a dor pela qual o garoto está passando. O texto é certeiro também ao não tratar essa situação com o pesado drama que estamos acostumados em filmes “arranca-lágrimas”, ao passo que a audiência já se vê emocionalmente envolvida sem necessitar dessas táticas baratas. O texto somente dá algumas tropeçadas em seu desfecho, mas algo que facilmente podemos ignorar em função do restante da projeção.

A beleza de Sete Minutos Depois da Meia Noite começa, então, quando ele entra no território da fantasia, ao introduzir o ameaçador, porém carismático monstro dublado por Neeson. Evidente que já sabemos que não se passa de uma construção mental da criança, similar ao que assistimos em O Labirinto do Fauno. Um ponto interessante, deixado em segundo plano pelo filme, é como essa árvore gigante representa a figura do falecido avô de Conor – Ness introduz esse ponto com cuidado, primeiro ao apresentar a criatura logo após o menino assistir King Kong (o original) no velho projetor do avô e depois de fotografias que colocam Neeson como o pai de sua mãe.

As sequências que ilustram as histórias contadas pelo monstro são visualmente deslumbrantes, uma computação gráfica que emula a aquarela, predominando o contraste do preto dos personagens com o ambiente ao seu redor. Há uma semelhança com o conto dos três irmãos de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 em termos visuais. O melhor, contudo, ainda fica no roteiro, que insere tais contos de forma a ensinar uma lição para o protagonista e o próprio espectador – esses ensinamentos, porém, não caem no óbvio e pedem a interpretação, nos imergindo ainda mais, ao passo que nos fazem pensar, nos colocando em um papel ativo dentro da narrativa.

Não posso descartar, também, o papel dos atores dentro dessa construção. Lewis MacDougall simplesmente entra no protagonista e acreditamos em sua situação a todo momento, embora ainda muito novo, ele jamais perde o espectador, sua interpretação é natural e nada forçada. Felicity Jones, por sua vez, entrega tudo de si, nos trazendo os momentos mais dramáticos sem cair no choro forçado – sentimos o amor que ela nutre pelo filho e entendemos que seu maior temor é deixar ele para trás, sem sequer ser necessária uma palavra para tornar isso explícito. Sabiamente o texto confere a ela poucos diálogos, tornando o não-dito muito mais poderoso que as palavras, visto que extraímos tudo das feições da atriz. Sigourney Weaver, por sua vez, solidifica todo o realismo da obra através de um trabalho mais contido, ela é avó rígida, que esconde seus sentimentos, mas que conseguimos percebê-los por trás de sua personalidade mais difícil – embora não tenha muito tempo em tela entendemos a personagem e um momento específico, em meados da projeção, é capaz de tirar lágrimas do espectador somente através da expressão da atriz, uma marca do poder da imagem nesse longa-metragem. Por fim, a potente voz de Liam Neeson consegue fisgar toda nossa atenção, sendo essencial para os contos que escutamos ao longo da obra – ele pouco a pouco nos faz gostar da criatura fantástica criada por Conor, a tal ponto que, no fim, o enxergamos como uma espécie de guia.

Naturalmente, a direção de J.A. Bayona, que nos trouxera o ótimo O Impossível é essencial para que tudo isso se desenvolva. Seus planos utilizam constantes movimentos, favorecendo-os ao invés de cortes mais constantes. Ao mostrar a casa de Conor, do lado de fora, presenciamos uma câmera na mão, de tal forma que a desconfortante instabilidade na imagem resume perfeitamente o que se passa lá dentro, tanto da morada, quanto do protagonista. Ao seu lado temos a cuidadosa direção de fotografia do espanhol, Oscar Faura, esse opta por sutis mudanças de foco, que se estabelecem de forma específica nos pontos que pedem a nossa atenção – há uma grande beleza na forma como ele direciona nosso olhar sem que nossa imersão seja quebrada, trazendo o máximo dos enquadramentos de Bayona. Devo destacar, também, os super-closes empregados pela dupla, que funcionam exatamente como as histórias do monstro: uma visão específica, que se torna um quadro maior conforme progredimos no longa.

Sete Minutos Depois da Meia Noite vem como uma daquelas gratas surpresas, que abrem o ano de 2017 com o pé direito – para os brasileiros, já que o filme estreara em 2016 lá fora. Um filme que lida com a dor de uma família, focando na da criança de forma fluida, sem fazer do excesso de drama uma necessidade. Com deslumbrantes sequências em animação, fortes atuações, roteiro conciso que sabe exatamente aonde quer chegar e uma direção sólida, enaltecendo cada sequência de forma poética e intimista, o filme definitivamente consegue atingir o espectador em cheio, lidando com a dor de forma adulta, ainda que utilize o campo da fantasia para tal, demonstrando, de uma vez por todas, o quão difícil é aceitar a perda.

Sete Minutos Depois da Meia Noite (A Monster Calls) — EUA/ Espanha, 2016
Direção:
 J.A. Bayona
Roteiro: Patrick Ness (baseado em seu próprio livro)
Elenco: Lewis MacDougall, Sigourney Weaver, Felicity Jones, Toby Kebbell, Liam Neeson
Duração: 108 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.