Crítica | “Setevidas” – Pitty

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estrelas 3,5

Desde o início do novo milênio, o Brasil viu poucas bandas nacionais alcançarem um nível alto de popularidade. As que conseguiram alcançar o grande público são as famosas bandas “emo”: NX Zero, Fresno e, mais recentemente, Restart. Acho que não preciso comentar sobre a qualidade dessas bandas, fazem um som fraquíssimo, um pseudo-romantismo com a mesma melodia de sempre (ops, falei). Uma das poucas bandas que conseguiram atingir a grande massa e agradar a crítica especializada ao mesmo tempo, foi a Pitty. A baiana e sua banda – que leva o nome da artista – possuem uma qualidade inegável em suas composições. Seu primeiro álbum, o ótimo Admirável Chip Novo, consegue fazer um rock pesado, sem firulas e de alto nível. Entretanto, a sensação que ficou com o prosseguir de sua carreira é que ela não conseguiu retomar a qualidade musical de seu disco de estreia. A cantora embarcou em uma sonoridade pop um tanto regular nos seus últimos álbuns e mais recentemente se dedicou ao Agridoce, um (excelente) projeto paralelo que fez ao lado de Martin, guitarrista de sua banda. Eis que a cantora acaba de lançar Setevidas, álbum que parece ser o melhor desde Admirável Chip Novo, além de ser considerado o “retorno da cantora” que, desde Chiaroscuro, passou por diversos problemas, o que inclui desde mortes de amigos (inclusive sua gata de estimação, presente na capa do disco) até uma ação na justiça relacionada a Joe, seu ex-baixista.

O novo disco conta com a produção de Rafael Ramos, mas possui dedo de várias pessoas importantes, entre eles está Tim Palmer, famoso por produzir álbuns de grandes nomes como Robert Plant e Pearl Jam. Quando se escuta o disco, fica clara a competência de Tim em todo o acabamento do álbum. As músicas são boas, mas toda a produção por trás demonstra ser o verdadeiro destaque do disco: excelentes mixagens, um som bem “clean” com tudo em seu devido lugar, destacando muito bem os arranjos das músicas . Uma outra cartada do novo disco é a volta do clima hardrock de Admirável Chip Novo, ainda que estes sejam bastante diferentes. Enquanto o primeiro é mais hardcore, direto e pesado, o novo é mais sofisticado, cheio de solos de guitarra . Além da excelente produção, outro destaque é a evolução técnica dos membros da banda, que agora conta com um novo integrante, o baixista Guilherme.

Primeiro, os problemas: quando o primeiro single foi anunciado, era difícil botar fé no álbum. A faixa homônima Setevidas é fraquíssima, se apoia em um refrão excessivamente pop e bem chato, ainda que o trabalho de Tim Palmer consiga mascarar bem a faixa. Existem outras faixas muito razoáveis como a cansativa e repetitiva Pequena Morte, entretanto, a faixa homônima é a única realmente fraca do disco. Essas são algumas considerações que precisam ser feitas, mas a principal é essa: a produção é a grande cartada aqui, se o álbum vai ser considerado por alguns como o melhor trabalho da cantora, parte do mérito está em todos que estão por trás do processo de edição e mixagem, ainda que o maior mérito precise ir para a banda, que está espetacular em todas as faixas de Setevidas.

O álbum demonstra uma qualidade visível em quase todas as faixas, a começar com a faixa de abertura Pouco, uma amostra de como é todo o álbum, especialmente pela ótima execução da banda, alinhada com a ótima mixagem feita por Tim Palmer. A competência do grupo é mostrada em vários momentos: Duda mostra o monstro que pode ser na bateria de Deixa Ela Entrar, Martin é um destaque a parte, fazendo solos durante todo o álbum, e Pitty coloca em sua voz a interpretação necessária para cada faixa (todas escritas pela cantora). A sonoridade da banda se torna bastante experimental na faixa Do Lado de Lá, uma das melhores do disco. A canção possui um início bem acústico, no entanto, a partir de sua metade, começa uma sequência sensacional que ousa em mesclar piano, bateria e guitarra de maneira incrível. Um dos maiores acertos também está em A Massa, uma crítica bem direta e cheia de metáforas excelentes, uma das melhores composições da cantora: “A massa é feita pra saciar/ A fome dos que a sabem modelar (…)”.

Olho Calmo é uma daquelas faixas bem melódicas que a cantora costuma fazer, merece ser ressaltada pelos sensacionais solos melancólicos da guitarra de Martin. Boca Aberta tem um arranjo bem estilo Admirável Chip Novo e parece falar do consumo: “E é sempre essa boca aberta/ Tragando tudo pelo caminho (…)”. A faixa de encerramento é Serpente, uma amostra de que a cantora ainda carrega consigo influências de seu projeto Agridoce, a letra parece tratar das mudanças na vida de Pitty. A canção é uma aula de como encerrar um disco, com direito a coral em sintonia com o excelente solo feito por Martin.

Pitty voltou e voltou bem. O novo disco demonstra um comprometimento grande por parte da banda e de todos por trás da produção, mas Setevidas ainda deixa algumas dúvidas. Esse pode ser o melhor disco da cantora se você acha que quanto maior a complexidade de uma música, maior é sua qualidade. O álbum é cheio de firulas (se comparado aos anteriores) e músicas muito bem executadas, mas será que isso realmente faz dele impecável? Já diria a expressão: “As vezes, menos é mais”. A falta de um rock mais simples e direto como o de Admirável Chip Novo é sentida, contudo, não rebaixa os méritos de Setevidas . Seu novo álbum soa claramente como um trabalho pessoal, um álbum sobre as mudanças na vida da cantora. Pitty deu a famosa “volta por cima”, afinal, como diria ela mesma em Serpente: “Chega dessa pele, é hora de trocar”.

Setevidas
Artista: Pitty
País: Brasil
Lançamento: 3 de junho de 2014
Gravadora: Deckdisk
Estilo: Hardrock, Rock Alternativo

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.