Crítica | Sétimo Céu (1927)

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estrelas 3

Entre 1922 e 1924, esteve em cartaz na Broadway a peça Seventh Heaven, escrita pro Austin Strong e produzida por John Golden. O grande sucesso de público e o largo período de cartaz da obra chamou a atenção da Fox para fazer uma adaptação cinematográfica, que acabou acontecendo em 1927, sendo entregue a direção a Frank Borzage e os papéis principais a Janet Gaynor e Charles Farrell, par que lograria um grande sucesso nas telas e fariam mais 10 outros filmes juntos, alguns destes também dirigidos por Borzage.

Embora fosse muda, a adaptação não era silenciosa. Uma trilha sonora especialmente composta e gravada para o filme + efeitos sonoros como sons de bomba, sinos, batidas na porta, barulhos de relógio e outros pequenos sons do cenário podem ser ouvidos ao longo da projeção. Do teatro, a clara divisão em atos também pode ser percebida no longa, que conta a história de Diane (Janet Gaynor), uma jovem que sofre nas mãos da irmã mais velha e alcoólatra e que em uma das muitas surras que leva da megera, acaba encontrando Chico (Charles Farrell), um jovem limpador dos esgotos de Paris, às vésperas da I Guerra Mundial.

Os dramas individuais funcionam muitíssimo bem na primeira hora do filme. Há tragédia, trabalho, companheirismo e humor na vida dos protagonistas e o roteiro é cuidadoso ao criar condições para cada um até que se encontrem. Se tivéssemos que destacar um ponto menor do texto neste momento, seria a desnecessária inclusão da visita dos tios de Diana e Nana (Gladys Brockwell); e, do outro lado, a estranha mudança de relação entre Chico e Gobin, o lavador de rua. O restante consegue convencer o espectador pela sinceridade da exposição e simpática interpretação de Farrell, que é o grande destaque da primeira metade da fita.

SPOILERS!

Alguns conceitos, além dos sociais, parecem estar “no lugar errado” para um filme hollywoodiano de 1927, mas em pouco tempo perceberemos o motivo. Chico declara-se ateu e revela que já deu duas chances a Deus, com diferentes pedidos e compras de velas, mas nunca foi atendido. A chegada de um padre e a entrega de medalhinhas religiosas ameaçam vir acompanhadas de um sermão à la “provação de Jó” ou “tudo é um propósito divino“, mas não. As medalhas, inclusive, são utilizadas como símbolo de união, memória e felicidade, desviando-se de seu propósito religioso. Mas o contraponto cristão vem no final, quando, após a narrativamente fraca, chateante, longa e questionável sequência da Guerra, roteiro desafia o bom senso e faz uma espécie de mágica/milagre com Chico, trazendo-o de volta para casa mesmo depois que o vemos morrer em batalha. O discurso do “agora que estou cego eu posso ver. Eu acredito!” é ainda pior do que se houvesse um sermão do padre lá na primeira parte.

Enquanto a relação de Diana e Chico se desenvolve, a direção de Borzage procura nos mostrar a beleza em toda aquela simplicidade. A ideia do “sétimo céu” do título e a vida que o casal tem juntos até a eclosão da guerra é um período delicioso, infelizmente quebrado por uma notícia abrupta de que Chico e Gobin precisam ir para o campo de batalha em pouco tempo. Se ao menos o roteiro tivesse tido a decência de introduzir para o espectador essa possibilidade, a convocação viria como parte de algo já aludido e não iria parecer estranhamente encaixado como foi aqui. Mas a chegada da guerra traz ainda outros males à fita, porque se estende ad infinitum e exceto a deixa para o final do “milagre divino”, não serve para absolutamente nada dentro do enredo. De alguma forma pode ser válido pelo trabalho de direção, que mostra bem a destruição e deslocamento de soldados e veículos, embora nem isso funcione o tempo inteiro.

O enredo parece querer voltar para os trilhos ao final, mas como apontei, é boicotado pela mensagem moral mista de magia, cristianismo e melodrama, do qual se salvam apenas as interpretações dos atores e os belos planos do diretor.

Vencedor de 3 Oscars (Melhor Atriz, para Janet Gaynor, por suas interpretações em Aurora, O Anjo das Ruas e aqui em O Sétimo Céu; Melhor Diretor em Filme Dramático e o jamais merecido Melhor Roteiro Adaptado), ainda indicado para outras duas categorias (Melhor Filme — não merecido — e Direção de Arte), O Sétimo Céu foi um enorme sucesso de bilheteria e deu à Fox bastante moral diante dos outros estúdios. Mesmo que não chegue a ser arrebatador, o filme vale ser visto pela sua excelente primeira hora. Depois disso, é possível até suportar os 58 minutos finais.

Sétimo Céu (7th Heaven) — EUA, 1927
Direção: Frank Borzage
Roteiro: Austin Strong, Benjamin Glazer, Katherine Hilliker, H.H. Caldwell, Bernard Vorhaus
Elenco: Janet Gaynor, Charles Farrell, Albert Gran, David Butler, Marie Mosquini, Gladys Brockwell, Emile Chautard, Ben Bard, George E. Stone
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.