Crítica | Seven Seconds – 1ª Temporada

Não há nada fácil, simples e óbvio em Seven Seconds. Nada. A série lida com preconceito racial, brutalidade policial, disparidade social, o problema das drogas, impunidade e laços familiares em uma estrutura fascinante de “vida como ela é” que desarma o espectador, desconstruindo expectativas e erigindo uma narrativa fascinante e imperdível que jamais coloca as questões de forma definitiva ou maniqueísta.

Baseado no longa russo Mayor, de Yuriy Bykov, e desenvolvida por Veena Sud, que nos trouxe a excelente The Killing, a premissa da série é simples e dolorosa: um garoto negro é morto por um policial branco em um parque em New Jersey, deflagrando uma investigação conturbada e o ultraje da população negra. Mas, por simples, não leiam “óbvia”, pois a série foge completamente disso ao colocar a morte do jovem não como resultado de uma ação policial propriamente dita, mas sim como um atropelamento por pura desatenção por um policial preocupado em chegar ao hospital onde sua mulher grávida está. Com o acidente acontecendo nos primeiros segundos do episódio, sem que sejamos apresentados previamente à vítima ou a seu algoz, algo incomum em séries de TV, somos arremessados no meio da questão sem qualquer artifício dramático padrão.

Peter Jablonski, vivido por Beau Knapp, é o policial em processo de transferência para uma nova unidade que, desesperado, chama esses seus novos parceiros logo após o acidente. Quando o líder deles, Mike DiAngelo (David Lyons) decide encobrir a morte, por achar que o atropelamento será encarado como mais um exemplo de brutalidade policial, especialmente porque a vítima é um menino negro, um relutante Peter acaba entrando no perigoso jogo que, aos poucos, vai sendo desvelado por Joe “Fish” Rinaldi (Michael Mosley) e K.J. Harper (Clare-Hope Ashitey), respectivamente o policial e a promotora pública encarregados do caso, o que começa a gerar conflitos familiares entre Latrice (Regina King), Isaiah (Russell Hornsby) e Seth Butler (Zackary Momoh), mãe, pai e tio da vítima.

O que resulta daí é um estudo sério sobre a falência do sistema de justiça para uma enorme parcela da população americana, algo que, claro, é refletido, de uma forma ou de outra, em outros países, inclusive o Brasil. O realismo do dia-a-dia retratado na série é doloroso e revoltante, o que a torna uma obra de difícil degustação. Ao relativizar o comportamento de basicamente todos os personagens, os roteiros extraem uma desconfortável constatação que, apesar de ser óbvia e ululante, raramente é retratada assim: a enorme maioria das pessoas não é nem completamente boa, nem completamente má, mas sim algo ali no meio, difícil de definir. Vejam, por exemplo, como Peter Jablonski é retratado. Apesar da alegria que sente por sua mulher estar grávida, ele passa todos os episódios em dúvida, realmente dividido entre contar a verdade e aceitar o engodo iniciado por Mike. Por outro lado, até Mike, que mais facilmente poderia ser identificado como “vilão”, também tem seu lado humano ressaltado, já que ele mesmo hesita e sofre com o que vê à sua frente, perdido entre ser o policial corrupto que é e o líder de equipe que aspira ser.

Em paralelo, K.J. é a antítese do que esperamos de uma jovem promotora pública. No lugar de uma mulher aguerrida e valente, ela encontrou na garrafa o conforto que precisava por um pecado do passado, entregando-se à bebida e ao sexo casual sem efetivamente colocar sua profissão à frente do frangalho de vida que leva. Tornando ainda mais complexa essa questão, apesar de uma personagem negra, ela foge do estereótipo comum em séries policiais e é apresentada como alguém que vem de uma família abastada, mas cuja relação com ela está estremecida por suas escolhas de vida. Seu parceiro na investigação, o simpático policial Fish, que adora cachorros, é, assim como Mike, o mais fácil de ser visto como o “mocinho” em razão de sua natureza leve, mas certeira, que não se deixa esmorecer por qualquer coisa. Mas mesmo ele tem que lidar com a separação de sua esposa e uma luta pelo direito de ver a filha.

No seio da família Butler, o atropelamento a deixa em frangalhos. O pai, religioso ao extremo, acha que tudo será resolvido pela intervenção divina, enquanto que a mãe começa a desesperar-se pela inação do marido e da polícia. A transformação de Regina King ao longo dos 10 episódios é um trabalho dramático absolutamente impressionante, com um roteiro que coloca a personagem como pivô de algumas decisões irracionais que podem parecer estranhas se quisermos aplicar a lógica, mas que, diante do que ela passou, são perfeitamente compreensíveis. Finalmente, o tio Seth, veterano de guerra e ex-traficante, vive entre dois mundos: o que lhe foi prometido na sua volta à casa, agora marcada por uma desgraça e a que ele pode voltar a ter se se curvar à tentação de voltar às ruas.

A investigação interessa muito menos em Seven Seconds do que a forma como a série mostra os três núcleos que destaquei interagindo internamente e entre si. O resultado de todo o trabalho tem um fim só e ele é telegrafado desde o começo como uma inevitabilidade e Veena Sud não foge dele de forma alguma, o que só adiciona veracidade e realismo à narrativa. No entanto, no terço final da série, há um foco muito grande no julgamento dos policiais, o que acaba sugando o tempo dedicado aos núcleos e dispersando a atenção com momentos menso inspirados de tensão. Essa alteração na narrativa faz a temporada sofrer um pouco em ritmo, mas não retira sua urgência ou sua importância.

Seven Seconds conta uma história fechada, com começo, meio e fim bem definidos. Havia uma ideia de continuar a série em formato de antologia, mas o Netflix cancelou o projeto, infelizmente. De toda forma, a temporada continua altamente recomendada como uma série policial dura, pesada, que não economiza em esfregar a realidade em nossa cara. É difícil, mas ao mesmo tempo recompensador assisti-la.

Seven Seconds (EUA – 23 de fevereiro de 2018)
Desenvolvimento e showrunner: Veena Sud (baseado no longa Mayor, de Yuriy Bykov)
Direção: Gavin O’Connor, Jonathan Demme, Jon Amiel, Tanya Hamilton, Coky Giedroyc, Ernest Dickerson, Ed Bianchi, Dan Attias, Victoria Mahoney, Ed Bianchi
Roteiro: Veena Sud, J. David Shanks, Dan Nowak, Shalisha Francis, Francesca Sloane, Rhett Rossi, Evangeline Ordaz, John Lopez
Elenco: Clare-Hope Ashitey, Beau Knapp, Michael Mosley, David Lyons, Russell Hornsby, Raúl Castillo, Patrick Murney, Zackary Momoh, Michelle Veintimilla, Regina King, Corey Champagne, Nadia Alexander, Coley Mustafa Speaks, Adriana DeMeo, Jeremy Davidson
Duração: 54 a 80 min. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.