Crítica | Severina (2017)

SEVERINA PLANO CRITICO CINEMA BRASILEIRO

Felipe Hirsh, diretor de Severina, possuiu um grande mérito: é dono de muitas e coerentes faces. Seja no teatro, no cinema ou na TV, a segurança que o faz conduzir seus projetos é o resultado de linhas de investigação e pesquisa que ele tem desenvolvido ao longo de anos (da organização de uma tetralogia de literatura brasileira para a Feira de Livros de Frankfurt ao trabalho na produção de óperas). Em Severina, fica latente sua maturidade.

Ambientado em uma Argentina escura, fria e de ruas abandonadas (rimando com o estado desabitado e silencioso do protagonista), o filme revela um país fantasma pronto para receber uma assombrada história de amor. É um romance sombrio que propõe uma pitada de obsessão, mas a interpretação doce de Javier Drolas não permite nenhum mergulho no trágico: sua paixão pela misteriosa Severina (seria mesmo esse o nome dela?) parece ser fruto de uma carência qualquer, não de uma mente instável. Isso diminuiu a voltagem do filme, tornando-o morno, mas a atmosfera de mistério sustém a narrativa apesar do ritmo lento das reviravoltas – que são muitas, aliás.

É instigante a história do livreiro que se encanta por uma estranha ladra de livros. A presença dela às vezes parece espiritual, tamanha a facilidade com que consegue escapar dos olhos do protagonista. Ela, vivida por Carla Quevedo, é enigmática e furtiva, sempre insinuando uma vida clandestina, portanto, passível de ser reinventada a todo instante. Nesse quebra-cabeças, o roteiro se sai bem, embora o final não seja empolgante.

Ponto alto para o sempre ótimo Rui Poças que comanda a Fotografia. O tempo passa, mas a luz escura instaura um permanente inverno no filme, de modo que sua atmosfera não se altera, criando uma contínua sensação de melancolia e suspense.

Felipe Hirsh, portanto, comando seu segundo filme, o primeiro solo, mostrando domínio de cinema e apreço pelas boas histórias. Não há deslize, apenas um clima atenuado demais para um enredo tão cativante.

Severina – Brasil, 2017
Direção: Felipe Hirsh.
Roteiro: Felipe Hirsh.
Elenco: Carla Quevedo, Javier Drolas, Alfredo Castro, Alejandro Awada, Daniel Hendler, Mirella Pascual.
Duração: 103 min.

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.