Crítica | Sex and The City (A Série Completa)

estrelas 5,0

Antes da popularização do formato narrativo televisivo que conhecemos através de abundantes séries disponíveis para consumo, as opções eram pouco numerosas: Sex and The City, assim como Friends, foi uma das séries a despontar e alcançar estrondoso sucesso no final dos anos 1990, com seis temporadas e muitas discussões sobre empoderamento feminimo em perspectivas múltiplas: no mercado de trabalho, nos relacionamentos familiares, nos relacionamentos sexuais e amorosos, bem como em outras esferas da sociedade.

Criada por Darren Star e Karen Kirkpatrick, a série foi exibida entre 06 de junho de 1998 e 22 de fevereiro de 2004, com o total de 96 episódios. Baseada no livro homônimo de Candace Busnell, uma narrativa literária com quatro histórias paralelas, mas tendo Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) como personagem hegemônica, Sex and The City nos mostra as mulheres ostentando os crachás das suas conquistas diante dos cotidianos embates dentro da teia de complexidades que sustenta as relações entre homens e mulheres no mundo contemporâneo.

Carrie Bradshaw é uma colunista do jornal New York Star. Em sua escrita ela questiona as relações interpessoais e sexuais, relacionando-as com a sua própria história e com a realidade das amigas com quem divide o seu tempo, pessoas inseparáveis que ocupam o lugar de membros familiares: Samantha (Kim Catrall), Miranda (Cynthia Nixon) e Charllote (Kristin Davis). Carrie, ao ocupar o posto de narradora, desenvolve cada episódio com base no que aborda em suas publicações, trazendo à tona os temas que fazem parte da agenda feminina contemporânea.

Sex and The City é uma sitcom (situation comedy) típica, ao abordar histórias curtas centradas na vida e na intimidade de um determinado grupo ou família. O quarteto faz parte da cultura do estar junto, pois são quase inseparáveis e cultivam a obrigação de compartilhar todos os acontecimentos das suas existências.

No que tange aos aspectos estruturais, a série nos remete ao gênero crônica literária, uma vez que trata de assuntos corriqueiros, geralmente de forma irônica e cômica, com uma “mensagem” ao final. Os episódios entre 20 e 30 minutos usam bastante a montagem alternada e o raccord, tendo em mira dinamizar a narrativa. A trilha sonora durante as seis temporadas trafegou entre o pop e o erudito, relacionando-se bem com cada momento representado, tendo também o jazz como um elemento bastante presente. O design de produção consegue captar a atmosfera de cada personagem, principalmente a cidade do título. Nova York surge como o espaço ideal para as neuroses e inseguranças cotidianas de personagens envolvidas na seara do amor e do sexo.

Durante a série, o local ocupa a posição de Cidade-Cinema, um interessante conceito contemporâneo dos estudos acadêmicos que aponta determinadas cidades como a carne de uma trama e um gigantesco personagem da mesma.  Sendo assim, Nova York está para Sex and The City, tal como Gotham City está para Batman, Springfield para os Simpsons etc.

No que diz respeito aos personagens, a série é um bom exemplo de como representar estes seres que pelos ditames dos manuais de roteiro, devem evoluir na narrativa. Carrie é um personagem que evolui bem, tal como a sua coluna, ao passo que a série avança. Ela se envolve com vários homens, mas o seu interesse é Mr. Big (Chris Noth), um homem desafiador, machista, difícil e temperamental. Imperfeita como qualquer ser humano, o que a torna ainda mais crível e interessante para os temas abordados pela série, Carrie representa com simplicidade a mulher do mundo contemporâneo, um ser que ainda precisa lidar com obstáculos da “Era Jane Austen”.

Em Sex and The City, o poder feminino é colocado em constante rede de questionamentos e momentos de instabilidade. Apesar de olhar para as mulheres de gerações anteriores com piedade, Carrie e as suas amigas ainda perpetuam alguns estereótipos comuns ao feminino. Membros de uma fatia da emancipação feminina, Carrie e as suas amigas usam a moda e o consumo como parte integrante das suas existências, tanto como recurso de legitimação das suas escolhas, bem como para os momentos de fugacidade diante de incertezas. Em suma, uma série feminina e feminista, mesmo que em alguns momentos derrape na contradição e trafegue na contramão dos discursos que propõe. 

Sex and The City – A Série Completa (EUA, 1998-2004)
Criadores: Darren Star e Karen Kirkpatrick.
Direção e Roteiro: vários.
Elenco: Sarah Jessica Parker, Kim Catrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon, Chris Noth, David Eigenberg, Willie Garson, John Corbett.
Duração: 20-30 min (cada episódio).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.