Crítica | Sexo, Pregações e Política

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estrelas 3,5

Como nos diz a sinopse deste documentário, o Brasil cria e vende uma imagem de sociedade onde a sexualidade é liberada e a diversidade respeitada. No entanto, este mesmo Brasil se revela um país conservador onde mulheres morrem em decorrência da proibição do aborto e onde há mais assassinatos de homossexuais e transexuais no mundo.

Dirigido por Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez, Sexo, Pregações e Política (2016) procura passar rapidamente pelo dilema das vítimas de preconceito; o respaldo — ou falta dele — como cidadãos, para terem seus direitos civis/humanos garantidos e o desgaste imenso junto à esfera política. Com isso em pauta, a obra propõe um olhar afiado sobre o paradoxo da liberdade sexual. Se por um lado, falamos de um Brasil que em tese discute abertamente sobre sexo, possui músicas sensualíssimas (ou até “proibidonas”, por um motivo bem específico) e possui muitos exemplos abertos dos grupos mal vistos socialmente, por outro, existem indivíduos lutando para que todos voltem ao espaço de silêncio e certas conquistas obtidas até aqui sejam revogadas.

Em certa medida, o documentário é uma sessão de tortura moral, ética e humana. Ver uma sala do Congresso destinada a uma sessão de culto; deputado-pastor falando em uma pregação que o homossexualismo [sic] é o passo anterior à pedofilia e à zoofilia (sim, ele fala isso mesmo, o vídeo da pregação é exibido no documentário); deputado-pastor falando que mesmo em caso de estupro ele faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que a mulher não abortasse o bebê… tudo isso vai enervando o espectador a tal ponto, que fica difícil ver as cenas sem pensar em vários impropérios ou ter muita vontade de gritar no cinema.

A linha investigativa da obra parte do assassinato de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos, que após um abordo mal-sucedido em uma clínica clandestina, teve o seu corpo queimado por uma quadrilha, que queria encobrir os rastros. A fita começa com perguntas para figurinhas intolerantes carimbadas e bastante conhecidas dos brasileiros, como o pastor-deputado Marco Feliciano ou o deputado (cristão!) Jair Bolsonaro, mais os filhos e amigos dele que têm a pachorra de perguntar para o diretor Michael Gimenez se ele “dá ré no quibe”. Esse é o nível da participação de deputados-pastores na fita, sem contar o trecho com a entrevista de Silas Malafaia e sua ideia de “destruir o argumento logo na saída“, outra coisa aterradora.

Com tanta bomba para dar entrevista e com um tema tão denso em mãos, os diretores poderiam avançar muito mais com este filme, instigar algumas discussões, levar adiante o debate. Em dado momento, há um incoerente desvio temático, focando unicamente em questões de política de Estado, afastadas da violência contra a mulher e contra as liberdades individuais e livre exercício da sexualidade. Na reta final, o tema volta a ser tratado como deveria, mas o desvio tem seu preço negativo.

Sexo, Pregações e Política é apenas uma parte da ação da bancada evangélica no Congresso Nacional e o que ela tem feito para tornar a Constituição um espaço sacro. A laicidade do Estado é vista como uma piada de mal gosto em todo o trajeto, e não temos muita certeza se estamos vendo uma farsa de Dias Gomes travestida de documentário ou um pequeno pedaço da triste realidade sociopolítica do Brasil, onde discussões de peso, com influência na vida de milhões de cidadãos, são tomadas a partir de princípios religiosos, sem consulta popular e com base em uma fé que não é a de todos, mas que no Brasil dos últimos anos (este documentário é de 2016!) serve como parâmetro para a todos governar. O horror. O horror!

Sexo, Pregações e Política (Brasil, 2016)
Direção: Aude Chevalier-Beaumel, Michael Gimenez
Roteiro: Aude Chevalier-Beaumel, Michael Gimenez
Duração: 72 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.