Crítica | Sexta-Feira 13 (1980)

estrelas 3

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Muitos cinéfilos contemporâneos são tributários de filmes como Sexta-Feira 13, série que encabeçou várias sessões de cineclube nos idos dos anos 1980 e 1990. Um dos clássicos do sub-gênero slasher movie, a produção marcou várias gerações e ficou eternamente registrada na memória do cinema graças ao vilão (ou anti-herói) Jason e a sua máscara icônica.  Antes, porém, do surgimento do filho vingativo, houve esta primeira incursão no “dia do azar”.

O filme começa em 13 de agosto de 1958. O acampamento Crystal Lake é tomado pelo medo após o assassinato de dois monitores que se relacionavam sexualmente ao invés de tomar conta das crianças. O local é fechado e, vinte anos depois, um jovem empresário decide reabri-lo. Os moradores da área consideram o espaço como ambiente amaldiçoado: em 1957, uma criança morreu afogada, em 1958 dois monitores foram assassinados, além de incêndios e água comprometida por causa de uma misteriosa sabotagem.

A trama se aproxima muito do mote de E Não Sobrou Nenhum, romance de Agatha Christie. Um grupo de personagens encontra-se presos em um local isolado e são mortos um a um. As semelhanças acabam neste argumento, pois o roteiro de Victor Miller segue um direcionamento mais sangrento e explícito. Com bastante criatividade, os corpos são espalhados pelos cenários para ornamentação da clássica perseguição final, com direito a cadáveres pendurados em árvores, jogados pela janela ou afixados com flechas atrás de portas em estratégias hoje clichês graças à repetição à exaustão ao longo dos anos 1980, 1990 e chegariam, inclusive, a contemporaneidade (basta lembrar-se dos finais de Lenda Urbana e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, dentre outros).

Sexta-Feira 13 pode não ter sido um primor, mas possui uma equipe competente. Bill Freda assinou a montagem e Harry Manfredini ganhou fama mundial com a sua clássica trilha sonora, uma homenagem escancarada ao sofisticado Psicose, de Alfred Hitchcock, profissionais que ganharam muito com a colaboração do engenheiro de som Richard Murphy, responsável por captar os ruídos e sons da floresta para o processo de mixagem do produto final. As performances não são arrasadoras, tendo em vista que a maioria do elenco estava no começo de carreira, ainda experimentando a linguagem cinematográfica, mas também não ficam devendo nada ao roteiro pouco exigente.

A maquiagem do filme é o ponto mais alto da parte técnica. Tom Savini, considerado o mago dos efeitos especiais, assinou contrato e trouxe a sua experiência iniciada em Despertar dos Mortos, de George A. Romero, para as cenas de assassinatos criativos de Sexta-Feira 13. Aliado ao trabalho de maquiagem está o espaço narrativo, muito bem utilizado pela câmera que enquadra com competência o cenário de isolamento, buscando provocar medo e a sensação de insegurança.

O roteiro não é formidável, mas o final com a mulher assassina era um grande contraste para o que vinha sendo produzido no gênero. A fórmula, por sinal, seria copiada depois em produções inferiores, como por exemplo, Feliz Aniversário para Mim e Acampamento Sinistro. Segundo os envolvidos no projeto, a Sra. Vorhees foi criada com base na personagem sádica de Jessica Walter em Perversa Paixão, de Clint Eastwood, além da relação às avessas com o enredo de Psicose, com direito a uma mãe assassina “guiada” pelo filho.

Os personagens do filme representam os arquétipos típicos dos anos 1980, com dois casos bem emblemáticos: Alice é a final girl carregada de pureza e Ned é o “palhaço” que adora uma piada boba e se torna, sem piedade, uma das vítimas do banho de sangue proposto pela narrativa. O casal que se relaciona sexualmente e morre logo depois também está presente, um dos marcos dos filmes deste segmento. Por sinal, Alice inicialmente parece muito com Laurie Strode, de Halloween, mas ganha os seus contornos próprios ao longo do filme. Há também o alívio cômico, representado em Sexta-Feira 13 por meio do policial Dorf, um bobalhão que aparece para nos fazer rir e demonstrar a situação de fragilidade dos jovens; afinal, o representante da lei é a única e última amostra de segurança, antes da noite de sangue e horror que se aproxima.

Ainda no terreno das referências, há a assumida inspiração de Carrie – A Estranha, de Brian de Palma. O susto final imortalizado pela mão que saia da terra e indicava que o reinado de horror não estava acabado ganhou sua versão própria com o surgimento de Jason ao atacar Alice, numa cena de sonho que alavancou as produções posteriores.  Alguns críticos consideram que há uma aproximação com A Mansão da Morte, de 1971, dirigido por Mário Bava, entretanto, segundo os envolvidos no projeto, eles sequer tinham assistido ao filme do mestre do terror italiano antes do lançamento de Sexta-Feira 13.

Orçado em US$ 550 mil, percebemos a proximidade com a saga de Michael Myers, mas diferente do assassino de babás e seu perfil mais adornado de estilo, Sexta-Feira 13 apelava para as mortes explícitas, o que tornou o filme apenas inspirado em Halloween, mas dono de um caminho próprio. Muitos historiadores do cinema acusam estes filmes de utilizarem os medos sociais e questões políticas como desculpas para a exibição de cenas sangrentas e perversas, mas não há como negar as ressonâncias dos acontecimentos do Vietnã nestas narrativas.

O diretor de fotografia Barry Adams e o maquiador Tom Savini trabalharam para as Forças Armadas dos Estados Unidos e estiveram no conflito como fotógrafos de guerra. Segundo estes profissionais, em relatos no livro de memórias Sexta-Feira 13: Arquivos de Crystal Lake, de David Grove, estas imagens registradas na terrível guerra marcaram as suas carreiras e estiveram presentes constantemente em seus respectivos trabalhos.

É preciso ressaltar, portanto, que não há nada de excepcional em Sexta-Feira 13. A narrativa é irregular, às vezes monótona; entretanto, não há como negar o seu protagonismo na seara do gênero slasher: o filme inspirou várias imitações mais “baratas”, rendeu continuações até a contemporaneidade e lançou um dos vilões mais icônicos da história do cinema. Mesmo que uma pessoa nunca tenha sequer assistido a algum dos episódios da série, é praticamente impossível não reconhecer o “mal” através de um homem que empunha um facão, ornado de uma máscara de hóquei.

Lançado em 1.127 salas de cinema no dia 9 de maio de 1980, Sexta-Feira 13 foi um sucesso imediato e alcançou incríveis U$5,8 milhões só no final de semana de lançamento. Ganhou 10 continuações, uma refilmagem, um documentário intitulado His Name is Jason e um imenso legado na cultura pop: games, quadrinhos, série de TV e um livro de memórias.

Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, EUA – 1980)
Direção: Sean S. Cunningham
Roteiro: Victor Miller
Elenco:  Adrienne King, Kevin Bacon, Ari Lehman, Betsy Palmer, Jeaninne Taylor, Robbi Morgan, Harry Crosby, Mark Nelson, Laurie Bartram
Duração: 95 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.