Crítica | Sexta-Feira 13 (2009)

estrelas 3

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Quando a refilmagem da franquia Sexta-Feira 13 estreou no dia 13 de fevereiro de 2009, outros clássicos do terror já tinham ganhando as suas versões contemporâneas. Marcus Nispel, cineasta alemão oriundo do campo da publicidade e do videoclipe, tornou-se um expert no assunto ao assumir O Massacre da Serra Elétrica e esse novo rumo ao antagonista Jason. Ciente da responsabilidade de estar diante de um “ritual”, os envolvidos na produção não perdem a mão, muito pelo contrário, conseguem imprimir identidade ao filme, sem deixar para trás o clima anos 1980-1990.

O filme começa com uma referência direta ao embate entre a mãe de Jason e a última sobrevivente do massacre que dizimou os monitores de Crystal Lake. O antagonista assiste a tudo da mata e, tomado pelo desejo de vingança, estraçalha qualquer pessoa que se aproximar do acampamento. Esse é o preâmbulo. A narrativa avança alguns anos e, agora, um grupo de jovens em busca de diversão acampa no local, entre eles Whitney (Amanda Righetti), personagem importante para o próximo ato.

Engraçado que a sensação de curta-metragem toma o espectador de início. Em quinze minutos de filme, todos (quer dizer…) os personagens apresentados são mortos. A narrativa abre um novo ambiente, alguns meses depois, com Clay (Jared Padalecki) em busca de sua irmã Whitney. Um grupo de jovens liderados por Trent (Travis Van Winkle) surge para servir de cobaia para a nova experiência de Jason, inicialmente com o saco branco no rosto, mas que logo arranja uma forma de colocar a sua famosa e icônica máscara de hóquei.

No que tange os aspectos técnicos, a nova versão de Sexta-Feira 13 oferece uma câmera com olhar turbinado. No primeiro episódio da série, lançado em 1980, o corte final possui 558 planos para 95 minutos de filme. Nesta refilmagem, produzida sob o comando de um profissional oriundo do campo do videoclipe, há 1.741 planos para 97 minutos de produção. Haja dinamicidade: Jason agora é um caçador e, além de correr, possui um esconderijo subterrâneo cheio de saídas que facilitam o seu acesso ao espaço de Crystal Lake.

A trilha sonora é bem incisiva e atualizada. Há referências ao trabalho de Harry Manfredini; entretanto, a produção dá um novo toque nesta refilmagem. A montagem eficiente acelera o processo de evolução da narrativa e a direção de fotografia aproveita bem a cenografia para oferecer imagens sofisticadas que vão além dos sustos, mortes e perseguições.

Há certa influência de Jogos Mortais na produção. Não é toda vítima que Jason mata instantaneamente. Os roteiristas decidiram incluir uma visão mais humanizada do personagem, ao apresentar o espaço onde o personagem utiliza como seus aposentos. Tal tentativa de humanização ocorreu apenas no segundo filme da série, mas não foi aprofundado como nesta versão anos 2000.

Conforme aponta o diretor, responsável por dirigir uma média de 200 videoclipes e mais de 250 comerciais, era preciso respeitar a premissa, mas surpreender o público de alguma forma. Há alguns ingredientes que demarcam a linguagem deste tipo de produção: as moças sensuais com os seios à mostra, os rapazes usuários de drogas, os gaiatos de plantão (um dos preferidos de Jason), bem como o espaço cênico distante, abandonado e palco ideal para a performance do antagonista e de suas armas brancas afiadas.

O cineasta declarou que decidiu não apostar numa final girl para a refilmagem. Durante o processo de pré-produção, Nispel alega ter recebido um livro intitulado Mulheres, Motoserras e os Homens que Fazem Filmes com Elas. Na obra, há uma análise da presença da mulher no cinema, sendo o gênero terror o espaço de maior empoderamento para a mulher na história da Sétima Arte. Apesar de considerar a abordagem valiosa, preferiu mudar os padrões, numa tentativa de dar um novo rumo, tendo em vista que as pessoas já esperavam o clássico embate entre o vilão e uma mulher corajosa nos últimos minutos de filme.

Com 97 minutos de duração, Sexa-Feira 13 é um filme dinâmico e cheio de estilo. Não há o que cobrar no que diz respeito ao roteiro porque, ao sentarmos para assistir a este tipo de filme, já sabemos exatamente o que esperar: um psicopata mascarado dizimando meio mundo de jovens em um local abandonado. Aqui, há uma tentativa de esboçar um perfil mais complexo para Jason, bem como retratar alguns personagens com mais profundidade, diferente dos episódios anteriores da franquia.

O final deixou espaço para a tal cena obrigatória: seria um sonho ou realidade? Ainda há chances para uma continuação? Em Hollywood, nunca se sabe, mas uma coisa é certa: se fosse de interesse dos produtores, uma sequência já teria sido engatada pelo menos um ou dois anos depois; afinal, já se passaram seis anos que esta refilmagem estreou. O filme foi sucesso de bilheteria e um marco histórico na estreia de um filme de terror, pois faturou mais de US$40 milhões apenas no final de semana de lançamento.

Resta aos fãs esperar para ver e, por enquanto, assistir ao documentário His Name is Jason – 30 anos de Sexta-Feira 13, produção que mergulha na memória da série e oferece curiosidades de bastidores, além de fazer uma radiografia do personagem Jason e da sua travessia entre os anos 1980 e 2000.

Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, EUA – 2009)
Direção: Marcus Nispel
Roteiro: Damiam Shannon, Mark Swift, com base em argumento de Mark Wheaton
Elenco: Jared Padalecki, Danielle Panabaker, Amanda Righetti, Travis Van Winkle, Aaron Yoo, Darek Mears, Julianna Guill, Jonathan Sadowski, Nick Mennell, Chris Coppola, Richard Burgi, Willa Ford
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.