Crítica | Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake, de David Grove

O cinema é, por excelência, a arte da memória. Há alguns anos, os registros de bastidores que no meio acadêmico, recebem o nome de “crítica genética” (ambiente que no Brasil tem a pesquisadora Cecília Salles como uma ilustre representante), ganhou um impulso com uma série de publicações dedicadas ao resgate da memória de determinados filmes. Independente da qualidade estética ou da importância para a evolução enquanto linguagem cinematográfica, os materiais em questão nos demonstram que algumas obras insistem em se fazer viva na memória coletiva.

No Brasil, a editora Darkside Book tem investido pesado neste segmento. Há a distribuição de clássicos da literatura que foram traduzidos para o cinema, tais como Psicose, Tubarão, Coração Satânico, etc. Intitulada “Dissecando”, uma das coleções da editora direciona-se para o processo tradução e circulação brasileira de livros que já fazem a festa dos fãs nos Estados Unidos. Começou com O Massacre da Serra Elétrica, depois veio Sexta-Feira 13 e recentemente foi anunciado o resgate memorialístico da franquia A Hora do Pesadelo.

No caso da saga em questão, o livro Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake, de David Groove, começa de maneira bastante apropriada: um elucidativo prefácio de Tom Savini, maquiador e responsável pelo visual do personagem Jason, no primeiro filme da série, ícone que surge apenas no espaço onírico ou em flashbacks. Para os que acreditam ser um retrato da série de maneira mais geral, atenção: há duas capas disponíveis. Uma simples que remete ao pôster do primeiro filme (Classic Edition) e a outra, com capa dura (Limited Edition), ilustrada pela famosa máscara. No entanto, o livro é uma análise profunda da história de Sexta-Feira 13, de 1980, não um compêndio dos doze filmes de toda a série, algo que foi realizado apenas no Crystal Lake Memories, inédito no Brasil.

David Groove sabe bastante do gênero que radiografa. Em Jamie Lee Curtis: Scream Queen, também inédito por aqui, o autor traça a biografia de uma das musas do subgênero slasher e por tabela, contempla filmes de terror da época, em especial, Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter.  Através de 300 fotografias, detalhes do roteiro, precisão cirúrgica no resgate das planilhas de filmagens e entrevista com quase todos os membros envolvidos na produção, Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake é uma bela homenagem ao filme de baixo orçamento que acidentalmente se tornou um clássico do terror dos anos 1980 e possui relevância industrial e memorialística ainda na contemporaneidade.

Através das 320 páginas diagramadas com qualidade editorial incrível e tradução cuidadosa de João Marques Almeida, o material revelador resgata o processo de criação, produção e filmagem, curiosidades de bastidores, os efeitos da produção na mídia e o embate com a crítica, bem como o destino de cada ator envolvido. Entre os melhores depoimentos, temos Sean S. Cunningham, Betsy Palmer e Adrienne King, além das participações especiais do mestre Wes Craven e Robert Englud, o eterno Freddy Krueger.

Dentro do sistema industrial, um filme que custa apenas U$550 mil e rende U$39,7 milhões é um fenômeno. Foi este o caso de Sexta-Feira 13, uma história que salvas as devidas proporções, flerta com Psicose, clássico absoluto de Alfred Hitchcock, do enredo aos sons da trilha de Harry Manfredini, compositor que emulou o estilo de Bernard Herrman ao longo de toda a franquia.

Como aponta a crítica genética, uma obra é resultado de um trabalho que passa por transformações progressivas. O interesse deste campo de pesquisa, no entanto, é voltado para o processo criativo artístico, numa espécie de indagação sobre a obra desde a sua gênese até o material final que é ofertado ao público. A crítica genética é comumente estudada na literatura e tem como objeto de estudo o manuscrito, espaço onde o autor deixa as suas “pegadas”.

Os cadernos de anotações, os diários de experiência e correspondências também são materiais de bastante valor dentro deste processo. É desta forma que David Grove, através das primeiras redações, rascunhos, notas, entrevistas e afins buscou compreender como os mecanismos de produção engendraram a obra final, clássico do subgênero slasher que até hoje é parte da cultura pop. Em seu livro, o escritor/pesquisador elucida os caminhos seguidos pelos envolvidos na produção e interpreta o nascimento da obra em questão, o filme Sexta-Feira 13, dirigido por Sean. S Cunningham, inspirado no sucesso do antagonista antecessor, Michael Myers, bem como nos filmes do subgênero italiano giallo, em especial, as produções de Mario Bava.

Repleto de informações curiosas e detalhes interessantes sobre como fazer uma produção de baixo orçamento, o livro também traz camadas de análise social relevantes para compreensão do slasher enquanto estilo cinematográfico. Sabemos, por exemplo, que o maquiador Tom Savini foi repórter de guerra no Vietnã e que as imagens de horror assistidas durante os conflitos escoaram na produção cinematográfica, como se as imagens do cinema fossem uma espécie de sessão terapêutica. Interessante, instigante e obrigatório para os que acompanham a série desde o seu surgimento, bem como para os simpatizantes da história e linguagem do cinema.

Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake (On Location in Blairstown: The Making of Friday the 13th, EUA)
Autor: David Grove
Tradução: João Marques de Almeida
Data original de publicação: 2013
Editora no Brasil: Darkside Books (Coleção Dissecando)
Data de publicação no Brasil: 2015 (edição nacional atual)
Páginas: 320 (edição nacional atual)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.