Crítica | Sexta-Feira 13 Parte 2

estrelas 3

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Sexta-Feira 13 foi um sucesso comercial, mas um fracasso no campo da crítica. Esta questão, entretanto, pareceu não fazer diferença alguma no circuito industrial próprio que a série começou a alavancar. Steve Miner, um dos envolvidos na produção do primeiro episódio, resolveu aceitar o convite para assumir a direção da continuação. Inicialmente, os produtores pensaram numa série de filmes desconectados, tendo em mira apenas o nome Sexta-Feira 13.

Conforme aponta David Glover no livro de memórias Sexta-Feira 13: Arquivos de Crystal Lake, a cena final do primeiro filme era uma homenagem a Carrie – A Estranha, mas os envolvidos começaram a pensar na ideia de trazer Jason para vingar a morte de sua dedicada mãe. Diante de curiosa epifania, eis que surge, em 1981, um dos antagonistas mais famosos da história do cinema: Jason Vorhees, um homem desajeitado e ainda não tão sobrenatural, munido de armas brancas afiadas, desafiando a gravidade com assassinatos ainda mais criativos e violentos, além das perseguições implacáveis com as famosas final girls.

Esta continuação estreou dia 01 de maio de 1981 e trouxe o seguinte argumento: Jason retornaria, sem explicações científicas ou de qualquer outra ordem, do mundo dos mortos, para vingar a decapitação da sua mãe. O filme começa com a personagem Alice (Adrienne King), dois meses após os acontecimentos da produção anterior. Por meio de uma montagem alternada, somos guiados por um homem misterioso caminhando em uma rua deserta à noite, captado por um plano-fantasma (enquadramento que foca apenas nas pernas ou pés de determinado personagem). Ele segue rumo a uma casa nesta mesma rua.

Na cena alternada, temos a personagem Alice dormindo e de debatendo com um pesadelo. A cena? Os acontecimentos do final do filme anterior. Ela desperta do pesadelo, fala com a mãe ao telefone e prepara o banho enquanto aguarda a água para o chá esquentar. De repente, abre a geladeira e depara-se com a cabeça em decomposição da mulher assassina. Uma pessoa misteriosa aparece por detrás e a mata com um picador de gelo. Corta! Créditos iniciais abrem o que será o novo reinado do terror, por sinal, uma das aberturas mais longas da história do cinema, com pouco mais de dez minutos de duração!

Logo aprendemos que cinco anos se passaram dos acontecimentos terríveis com os monitores em Crystal Lake. Paul (John Furey) abre uma colônia de férias ao lado do extinto acampamento. Auxiliado pela final girl da vez, Ginny (Amy Steel), o jovem rapaz precisa organizar as questões administrativas e ainda lidar com o comportamento de alguns monitores caricatos: a moça que deseja deitar-se com um recatado rapaz, o casal que só pensa em sexo, o “taradinho” que fica secando uma “saliente” monitora, além de um piadista que, pasmem, não morre até o final da produção, algo novo para o gênero.

Quando a noite cai, todos se reúnem para conversar ao redor de uma fogueira. É o momento que Paul decide contar o que aconteceu naquele local no passado. Já sabemos que o mal ronda o espaço, haja vista que um dos policiais locais percebe um movimento estranho na floresta e segue os rastros, encontrando um final infeliz, momentos antes do anoitecer. Somos apresentados brevemente ao local em que Jason passou parte da sua vida, maquinando a vingança e aguardando os próximos monitores.

O personagem, interpretado por Warrigton Gillette, possui uma aparência curiosa. É magro, alto, utiliza um saco de pano branco na cabeça (a máscara só apareceria futuramente) e, ao ser revelado para o público ao final da trama, na cena de enfrentamento entre vilão e final girl, demonstra algumas deformações no rosto, mas nada que fuja da realidade, do possível dentro dos conceitos literários de estranho e grotesco.

Apesar de não ser um primor, se você comprar a ideia e não ficar estabelecendo uma série de questionamentos sobre verossimilhança, a narrativa deslancha e a diversão é garantida. O ritmo é melhor que a primeira incursão no dia do azar, as atuações estão na média do possível para o roteiro disponibilizado, há cenas tensas e muito bem arquitetadas, como por exemplo, a perseguição numa cabana envolvendo alguém embaixo da cama e alguns ratinhos que aparecem para estragar o esconderijo alheio, além da cena final, com o susto semelhante ao pregado no filme anterior, desta vez, mais trabalhado tecnicamente, em suma, mais intenso.

A contagem de corpos é maior que a anterior, mas ainda razoável para os padrões da série: há jovens empalados durante o sexo, há gargantas jorrando sangue, bem como marteladas, facadas e outras conjugações verbais envolvendo armas brancas. A trilha sonora continua interessante, pois consegue relacionar-se com a cenografia de isolamento e medo.

Ao longo dos seus 87 minutos de duração, Sexta-Feira 13 Parte 2 entrega uma narrativa mais ágil que o primeiro filme, além de seguir um novo caminho. Jason tomou à frente da matança em Crystal Lake, que tornou-se o espaço cênico básico para perseguições e assassinatos criativos. Além de marcar uma geração e abrir as portas para numerosas imitações, a produção trouxe um grande problema para a vida da atriz Adrienne King. Ela foi ameaçada de morte por um psicopata e precisou afastar-se da indústria do cinema para vencer o trauma. Mais um caso da vida imitando a arte.

Jason, como é de se esperar em um especial com 13 críticas, retornou um ano depois para mais uma noite de matança; dessa vez, com o surgimento da famosa máscara de hóquei. Isso, portanto, é questão para o nosso próximo texto, Sexta-Feira 13 Parte 3. Por enquanto, o que acha de conhecer ou rever o segundo episódio da saga?

Sexta-Feira 13 Parte 2 (Friday the 13th Part 2, EUA – 1981)
Direção: Steve Miner
Roteiro: Ron Kurz
Elenco: Amy Steel, Adrienne King, John Furey, Kirsten Baker, Stuart Charno, Marta Kober, Warrigton Gillette, Russel Todd
Duração: 87 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.