Crítica | Sexta-Feira 13 Parte 4: O Capítulo Final

estrelas 3

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Mesmo que os críticos detonassem cada episódio da saga, os fãs e curiosos estavam nas filas dos cinemas para conferir a matança em sequência proposta em Sexta-Feira 13 Parte 4: Capítulo Final. Lançado em mais de 1.500 salas em 1984, o filme foi outro estouro de bilheteria, adentrando no patamar das franquias mais bem sucedidas financeiramente na história da Paramount. Os produtores voltam ao cenário do terceiro filme, apresentam Jason aparentemente morto, para, logo depois, promover o ritual de ressurreição.

O padrão continua similar: cena chocante de morte, seguida de apresentação de personagens rasos e prontos para o abate, para, logo adiante, a famosa sequência de perseguição envolvendo a final girl e o antagonista, com direito a janelas e portas destroçadas, além dos triviais gritos e sustos. Considero, por sinal, o melhor final da série. Há emoção e entrega na interpretação de Kimberly Beck e Corey Feldman, irmãos que se juntam para destruir o famigerado Jason. O foco de Jason é fugir do hospital para continuar a matança nos arredores de Crystal Lake.

Entre os problemas de continuidade que acometeram o episódio anterior, temos a persistência em demorar demais estabelecendo perfis pouco interessantes. O roteiro não possui personagens que se sustentem assim. Jason, interpretado por Ted White, é alto e assustador, mas traz unhas negras enormes e características bem diferentes do assassino da noite anterior, ou seja, o sábado 14, que agora, seria domingo 15. A indagação fica no ar: qual o problema em ser um filme de terror preocupado com a continuidade?

A cenografia, no entanto, é interessante. Mesmo que a questão do isolamento tenha alcançado o status clichê, há um trabalho digno no espaço fílmico, como, por exemplo, a casa da família de Tommy Jarvis, toda construída em madeira e vidro, ambiente perfeito para Jason causar a boa e velha destruição. A trilha sonora melhorou bastante, tendo em mira o fiasco do terceiro filme.

É claro que em algum momento a série Sexta-Feira 13 iria se estabilizar e torna-se mais do mesmo, assim como aconteceu com as franquias contemporâneas Premonição e Jogos Mortais. O estabelecimento do lugar comum foi a marcante máscara de hóquei. Agora, os espectadores sabiam exatamente o que iriam encontrar: um bando de jovens num local isolado sendo dizimados pelas armas mais afiadas, com direito a sexo, drogas e uma final girl que luta constantemente com o vilão para manter-se viva.

Esse embate, por sinal, interessou aos estudos de gênero e foi (e ainda é) discutido academicamente. Segundo a feminista Carol Clover, há nos filmes da série Sexta-Feira 13 uma tensão que nos remete às relações sociais cotidianas entre homens e mulheres. Para a estudiosa, os momentos finais destes filmes são bastante emblemáticos. A mocinha toma o lugar socialmente conhecido como o do homem e desfere um golpe que lhe faz um corte que nos remete à constituição vaginal.

Estranho, não? Inicialmente considerei complexo e algo no terreno da super interpretação, mas depois comprei tranquilamente a ideia. A mulher, ao empunhar uma arma fálica (machado, faca), desfere um golpe no antagonista (um corte no peito, na testa). Simples. É a mulher deixando a marca feminina no corpo do algoz masculino. É algo no terreno da estética da recepção e da subjetividade, uma das possíveis interpretações, o que não significa que os produtores tenham pensando nisso na elaboração do roteiro.

Com a promessa de capítulo final, a série tentou investir em novidades no episódio seguinte, mas a recepção foi péssima e o Jason real, mascarado, armado e mortal voltaria mais adiante. Vale, portanto, conferir o quarto e dinâmico episódio da série que marcou os anos 1980 e 1990 e conseguiu chegar até a contemporaneidade com toda força na memória do cinema, mesmo que cheio de reserva para alguns.

Sexta-Feira 13 Parte 4: O Capítulo Final (Friday the 13th: The Final Chapter, EUA – 1984)
Direção: Joseph Zito
Roteiro:  Barney Cohen, Bruce Hiderni Sakow
Elenco: Kimberly Beck, Peter Barton, Corey Feldman, Erich Anderson, Ted White, Crispin Glover, Alan Hayes, Barbara Howard, Lawrence Monoson, Joan Freeman, Judie Aronson, Camilla More
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.