Crítica | Sexta-Feira 13 Parte 5: Um Novo Começo

estrelas 1

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Apesar dos roteiros mirabolantes e da falta de qualidade estética, não há como negar a influência dos filmes da série Sexta-Feira 13 na história dos filmes de terror. Marco da chamada Segunda Era de Ouro do Horror, Jason pode não ser sofisticado como Hannibal Lecter, nem inteligente e sagaz como Freddy Krueger, mas certamente alavancou a cinefilia de uma geração.  Muitos amantes do cinema na atualidade começaram a sua paixão pela sétima arte através das incursões em narrativas deste quilate.

Exibido exaustivamente na televisão brasileira, é possível recordar como Sexta-Feira 13 movia as pessoas. Era uma febre, mesmo que o filme fosse ruim e o estabelecimento da máscara já deixasse claro todo o conjunto da obra: apresentação de personagens (ruins ou às vezes razoáveis), mortes em sequência e a clássica perseguição final envolvendo Jason e uma moça corajosa e casta (a tal final girl citada nos textos anteriores).

Como essa era uma época do início da popularização do VHS no Brasil, muita gente começou a acompanhar aos filmes pela televisão, seja pela distribuição irregular ou pela idade incompatível para assistir no cinema. Resumindo: ao começar a exibição do filme, todos abandonavam as brincadeiras de rua e partiam para se divertir com a matança de jovens numa região isolada. Sexta-Feira 13, sem dúvidas, é uma ótima radiografia de uma parte da geração de cinéfilos formada entre os anos 1980 e 1990.

Desta vez, o foco é uma clínica de internamento isolada. Tommy Jarvis (John Sheperd) cresceu e continua tendo alucinações com Jason, antagonista interpretado de forma robótica por Dick Wieand. Transtornado pelo passado macabro, o rapaz é antissocial e apresenta comportamento agressivo. Logo, uma sequência de assassinatos torna-se a preocupação do local, o que deixa o prefeito no pé do xerife Tucker (Marco St. John), tendo em mira que na concepção do gestor local, cidades pequenas devem ser conhecidas pela segurança. Uma crítica ao processo de violência urbana? Provavelmente não, mas, se fosse, não seria interessante tamanha a falta de qualidade do enredo no geral.

Todos os crimes envolvem pessoas fora dos padrões tradicionais da sociedade: hippies, mulheres sexualmente libertas, usuários de drogas e jovens rebeldes, dizimados em calculados intervalos de sete a oito minutos de filme. É a cartilha clichê do gênero slasher seguida à risca em Sexta-Feira 13 Parte 5: Um Novo Começo. Os habitantes do local começam a acreditar no possível retorno de Jason, o que causa pânico e desconforto.

Mais uma vez o roteiro tornou-se o grande vilão: há solilóquios que deixariam Hamlet envergonhado e em estado depressivo, os ferrões musicais substituem alguns sustos genuínos dos filmes anteriores, além dos erros de continuidade e da montagem com estilo amador, tamanho o uso de fades entre as cenas. Parece uma edição de vídeo do movie maker. Em suma, não há nada que seja digno de salvação neste filme: os atores são lastimáveis, as mortes são extremamente insólitas e a sequência final tediosa.

Pam (Melaine Kinnaman) é a pior final girl da série. Apesar de ser muito bonita, não consegue empregar a emoção necessária para o papel de protagonista. Sua atuação é artificial demais e a cada grito de pavor da personagem, o espectador precisa conter o riso. Os erros de continuidade citados anteriormente incomodam mais do que nunca: casacos que somem e desaparecem durante uma sequência de fuga, além dos corpos expostos que parecem pessoas loucas para soltar uma gargalhada. Resumindo: vergonha alheia.

Ao final, descobrimos que Jason não retornou, mas apenas a sua icônica máscara. O paramédico Roy (Dick Wieand) teve um surto ao ver o filho, um dos personagens internados na clínica isolada, morto após um ataque de fúria e impaciência por parte do zelador do local. Revoltado, o pai sente a dor da morte do filho que renegou (estranho…) e decide colocar a máscara e partir para a vingança contra as pessoas da cidade, muitas delas, sequer envolvidas no fatídico acontecimento.

Diante do exposto, caro leitor, é possível inferir que a tentativa de dar um novo rumo para a série não foi adiante. Os fãs ficaram desapontados e os resultados nas bilheterias foram pífios. Entretanto, isso não significou a extinção da saga do antagonista Jason, personagem que voltaria ainda mais cruel no filme seguinte, Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive.

Sexta-Feira 13 Parte 5: Um Novo Começo (Friday the 13th : A New Beginning, EUA – 1985)
Direção: Danny Steinmann
Roteiro: Danny Steinmann (baseado no argumento de David Cohen e Martin Kitrosser)
Elenco: Melaine Kinnaman, John Sheperd, Shavar Ross, Richard Young, Marco St. John, Juliette Cummins, Carol Lacatell, Vernon Washington, Jerry Pavlon, John Robert Dixon
Duração: 92 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.