Crítica | Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive

estrelas 5,0

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

O cenário é bastante alusivo ao histórico dos filmes de terror: um cemitério numa noite de tempestade. Um monstro ressuscitado após uma descarga elétrica oriunda de um raio. É um clássico da Universal? É uma adaptação de Frankenstein? Não. Essa descrição é a abertura de Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive, uma das melhores da série, com direito a muita ironia e referência ao agente James Bond, da série 007.

O filme começa com enquadramentos nos situando em Forest Green, novo nome para Crystal Lake, local demarcado por memórias desagradáveis. A narrativa nos leva ao carro de Tommy Jarvis (Tom Mathews), personagem dos dois filmes anteriores, sendo que o quinto filme é praticamente ignorado, como se a narrativa fosse ligada diretamente ao final do quarto episódio. Ele está obcecado por Jason e precisa ver se o corpo do psicopata que matou a sua mãe e o aterroriza desde criança está realmente morto enterrado.

Após chegar ao cemitério, abre o túmulo de Jason, enfia uma lança metálica no cadáver do antagonista, mas um raio cai no local e reanima o monstro, situação que ocasiona uma nova sequência de matanças, com direito a uma decapitação tripla e altas doses de ironia em relação á polícia, segmento da sociedade que não serve para nada nos filmes de terror, haja vista que atrapalham mais e ajudam menos.

As pessoas querem esquecer o passado da cidade, mas Tommy procura a polícia e é preso, principalmente depois de identificado. A situação só modifica depois que a polícia percebe que alguns crimes foram cometidos enquanto o personagem esteve detido, o que indica que Jason pode estar de volta, ou então, alguém está interessado em reviver o seu legado.

A equipe de produção trabalhou muito bem nesta continuação. Os envolvidos entrevistaram especialistas em patologia forense para a construção do visual de Jason, interpretado desta vez pelo competente C. J. Graham, talvez o mais assustador da série em termos de postura e dimensões corporais. É um antagonista corpulento, diferente dos desengonçados interpretes dos filmes anteriores. No documentário His Name is Jason, produção que fechará o nosso especial, o ator alega que estudou o personagem desde o segundo filme, tendo em vista o interesse em interpretar da melhor maneira possível. A experiência no exército, segundo aponta o profissional, também ajudou na construção da sua versão para o psicopata Jason.

Conforme aponta Tom McLoughlin, diretor e roteirista do filme, há influências da sua educação religiosa na narrativa, bem como a presença das leituras realizadas ao longo da sua vida intelectual, sendo o estilo gótico de Edgar Allan Poe um dos traços marcantes na concepção da cenografia do filme. Numa determinada cena, uma criança começa a orar quando Jason se aproxima. Ao abrir os olhos, percebe que o antagonista não estava mais presente, numa alusão interessante aos nossos medos infantis, época em que acreditávamos em monstros e outras criaturas assustadoras.

Produzido numa época propícia, o outuno estadunidense, Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive foi realizado a 80 quilômetros de Atlanta, numa região que consegue captar a sensação de isolamento e medo, muito semelhante ao clima do primeiro filme. A floresta e a neblina dão o tom necessário ao filme, além de alguns acordes de cinema noir. Por falar em acordes, o trabalho de som deste filme talvez seja um dos melhores da série, além da excelente montagem, setor que investe em bons raccords para dinamizar a narrativa.

Apesar da final girl ter pouco espaço nesta sequência, Megan (Jennifer Cook) possui uma relação bem interessante com a câmera, pois consegue transcender a beleza e dar dignidade a uma personagem que poderia passar sem vigor caso não fosse interpretada com tamanha sagacidade. O herói da vez é Tommy, um dos raros casos de final boy da série.

A campanha de marketing e os subprodutos oriundos do filme ajudaram no sucesso da produção, um dos poucos casos de boas críticas na história da série. Alice Cooper lançou canções referenciando Jason em seu álbum, sendo He´s Back (The Man Behind the Mask) top das paradas na época, com direito a um videoclipe alusivo aos filmes da saga.

Com 87 dinâmicos minutos de duração, Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive é um dos melhores episódios da série. As doses generosas de ironia encontraram ressonâncias no roteiro de Kevin Williamson para Pânico, filme marco do ressurgimento do terror nos anos 1990, conforme apontou o profissional em entrevistas. O episódio reaqueceu a visão comercial de Jason, depois do fracasso de Sexta-Feira 13 Parte 5 – Um Novo Começo, fato que oportunizou o surgimento de mais uma continuação. Desta vez, Jason voltaria, mas alguém tão poderoso quanto ele demarcaria o seu caminho.

Sexta-Feira 13 Parte 6 – Jason Vive (Friday the 13th Part 6 – Jason Lives, Estados Unidos – 1986)
Direção: Tom McLoughlin
Roteiro: Tom McLoughlin
Elenco: Tom Mathews, Jennifer Cooke, David Kagen, Renée Jones, Kerry Noonan, Darcy DeMoss, Tom Fridley, C.J. Graham
Duração: 87 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.