Crítica | Sexta-Feira 13 Parte 8: Jason Ataca Nova Iorque

estrelas 3

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Jason é um personagem bastante experiente. Antes de ir para o inferno e fazer uma viagem ao espaço, visitou Nova Yokr, berço do sentimento cosmopolita da sociedade capitalista na contemporaneidade. Prova cabal de que a Big Apple não pertenceu só a Frank Sinatra, tampouco às pós-modernas mulheres de Sex and the City. Em 1989, os produtores da série não sabiam mais o que inventar e decidiram levar Jason para passear na cidade grande.

O filme começa com o clássico casal de namorados próximo aos arredores de Crystal Lake. Eles estão em um luxuoso barco alternando beijos e mãos que passeiam pelas curvas corporais, quando, de repente, o rapaz começa a contar sobre o passado do local. Assustada, a moça faz algumas carinhas de “me proteja”.

Neste embalo, Jason é apresentado no fundo do lago, imóvel e aguardando o processo de ressuscitação. Em poucos instantes, o rapaz pausa o namoro para colocar a âncora no intuito de fixar o barco. Adivinha o que acontece? Antes de alcançar o solo, a âncora encosta num tubo de energia elétrica e o choque não dizima apenas os possíveis peixes do local, mas desperta o furioso e decrépito Jason (Kane Hodder), antagonista que surge mais molhado e apodrecido do que nunca (um ótimo visual, por sinal).

O casal é assassinado e o filme corta para o navio Lazarus SS. Quem conhece ou acompanha a franquia vai logo se perguntar desde quando Crystal Lake era uma cidade portuária, além da geografia que se formou com tamanha rapidez, haja vista o número de montanhas em torno do local. Há também a dúvida em relação à habilitação de Jason para pilotar um barco. Milagre? Fenômeno natural desconhecido? O roteiro e a ideia de continuidade, nesta sequencia, são aspectos que devem ser desconsiderados caso o espectador tenha interesse em se divertir.

O navio será o novo espaço narrativo deste episódio. Os formandos da High School de Lakeview estão em polvorosa com a comemoração da graduação. Todos os tipos que passearam pela série estão presentes: a mocinha, o rapaz bondoso e atencioso, a vadia, a acompanhante da vadia, o valentão, o negro estereotipado, o diretor malvado e de caráter duvidoso, o louco (equivalente ao Crazy Ralph dos dois primeiros filmes), dentre outros tipos.

Lá para o meio da narrativa, quase todos os jovens do navio foram assassinados e um grupo resolve abandonar o espaço e se jogar em um bote salva-vidas. O bote segue para Nova York, numa promessa de novo rumo para a vida dos sobreviventes. Jason, portanto, não parece ter medo de água, como propõe o roteiro, pois nada em direção ao continente e, com tanta gente circulando, tem em mira apenas o que restou do navio, até que faltam apenas a final girl e o seu namoradinho, todos juntos e misturados no desfecho da produção, nos esgotos da movimentada cidade.

Apesar de ser odiado por muitos fãs da franquia, Sexta-Feira 13 Parte 8: Jason Ataca Nova Iorque possui uma das cenas mais antológicas e divertidas. A luta entre Julius (Vincent Craig Dupree) e Jason, uma espécie de ensaio para Freddy vs. Jason. É claro que o mascarado ganha no final, com apenas um soco que custa a cabeça do adversário, mas a dinamicidade da cena e o clima estabelecido são alguns dos pontos interessantes desse filme pouco interessante.

Outro ponto para reflexão é a apresentação de Nova York. Há um interessante resumo da cidade no final dos anos 1980, um centro urbano tomado em partes por gangues, usuários de drogas e pessoas circulando numa velocidade absurda, sem conseguir dar conta dos acontecimentos, uma espécie de retrato da nossa sociedade atual. Jason e os dois protagonistas circulam desconectados dos que estão nos arredores. As pessoas olham tudo com distanciamento e letargia.

De todos os episódios até então, esse é o mais multicultural. Há negros, hispânicos, asiáticos em contato, numa espécie de reflexo da cultura que não poderia ficar mais de fora dos filmes da franquia, principalmente por se tratar de um dos países com maior fluxo migratório (legal e ilegal) dos nossos tempos. Se o filme falha como realização cinematográfica, ganha pontos por ser uma boa radiografia dos Estados Unidos nos momentos finais da movimentada e polêmica década de 1980.

A produção bem que poderia se chamar O Cosmopolitismo de Jason. O antagonista sai do sossegado ambiente de Crystal Lake, um local que, por incrível que pareça, nunca foi fechado pela polícia, mesmo após tantos assassinatos, para pisar no solo de uma das capitais mais badaladas do planeta, terra dos sonhos de muitos “consumidores e cidadãos” da contemporaneidade. Depois de viajar para o espaço e de ter ido ao inferno, incursões dos dois filmes seguintes, falta ao Jason apenas uma incursão pela era da virtualidade e dos aplicativos.

O filme estreou em 1.683 salas de cinema, mas não emplacou. Naquele momento, a série estava com o desgaste semelhante ao que ocorreu recentemente com Jogos Mortais. Não havia mais nada de interessante a ser contado, nenhum elemento surpresa que fosse convincente, em suma, era hora de parar. Ciente disso, a Paramount vendeu os direitos da franquia para a New Line Cinema. Jason iria parar a sua fúria sangrenta até 1993, quando os produtores decidiram investir em um novo filme.

A produção inicialmente iria se passar em Los Angeles, com Jason em meio a duas gangues rivais. Seria Jason Ataca Los Angeles? Jason vs Romeu e Julieta? Ainda bem que a ideia não foi adiante, mas cabe a reflexão se não teria sido mais divertido que ver Jason indo para o inferno e se tornado um parasita, pontos centrais do roteiro da nona parte da série.

Sexta-Feira 13 Parte 8: Jason Ataca Nova York (Friday the 13th Part VIII: Jason Takes Manhattan, EUA – 1989)
Direção: Rob Hedden
Roteiro: Rob Hedden
Elenco: Todd Caldecott, Tiffany Paulsen, Kane Hodder, Shannon Elizabeth, Polly Blue Eyes, Stephen Lang, Matt Keeslar, Warren Munson, Kelly Hu
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.