Crítica | Sgt. Fury e Seu Comando Selvagem #5 [Primeira Aparição: Barão Strucker]

estrelas 3,5

Os leitores recentes dos quadrinhos Marvel ou aqueles que somente conhecem as histórias por intermédio dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel, a informação de que Nick Fury, originalmente, tinha pele branca, cabelo, dois olhos e lutou durante a 2ª Guerra Mundial provavelmente parecerá mentira. Mas é verdade.

Sgt_Fury_5Bem antes de Nick Fury ser o destemido diretor da S.H.I.E.L.D. e de usar um tapa-olho (e quase quatro décadas antes de existirem outras duas versões dele, ambas carecas e de pele negra), ele era um sargento do exército americano que, comandando o chamado Comando Selvagem (Howling Commandos ou “Comandos Uivantes”, no original, em razão do berro que marca seus ataques), descia a lenha nos nazistas mais ou menos da mesma maneira impiedosa que o Tenente Aldo Raine massacra os “chucrutes” em Bastardos Inglórios. Estamos falando de 1963, nem vinte anos após o final da 2ª Guerra, quando os mitológicos Stan Lee e Jack Kirby criaram o personagem e seus subordinados na publicação Sgt. Fury e Seu Comando Selvagem focada na guerra e que duraria por impressionantes 167 edições (a partir da 120ª, só republicações) até 1981. Como curiosidade, esse grupo de elite é o que aparece lutando ao lado do Capitão América em Capitão América: O Primeiro Vingador e, depois, ainda que brevemente, na série Agent Carter, além de em Agents of S.H.I.E.L.D. (Trip, um dos agentes, é neto de um dos Comandos).

Nada de super-heróis. Só homens durões comuns empunhando facas, pistolas e metralhadoras, com Nick Fury no comando com seu costumeiro vocabulário desbocado.

Quando vemos o Sargento Fury no 5º número da publicação, ele está mais violento com seu Comando do que nunca. Afinal, na edição anterior, Júnior, um de seus soldados, fora morto pelos nazistas em uma missão de resgate em Berlim. Ele se culpa pelo acontecido e treina seus comandados duramente. Na Alemanha, Hitler já está cansado do Comando Selvagem e quer eliminá-los da face da Terra. Para isso, ele ordena que o Barão Strucker, um aristocrata de piteira, careca, com cicatriz no rosto e monóculo, mestre em armas e comandante do Esquadrão da Morte, destrua Fury.

Mas Strucker, no lugar de simplesmente ordenar um ataque contra o Comando Selvagem, “convida” Fury para um duelo de cavalheiros, no estilo antigo. Desobedecendo ordens, o sargento vai ao encontro do nazista e é derrotado em combate graças à um engodo perpetrado por Strucker que acaba municiando o Comando Nazista de propaganda contra os aliados, com fotos da humilhação de Fury. Rebaixado de seu posto de sargento, Fury, claro, acaba tendo sua vingança em um segundo combate, durante uma missão na Alemanha.

A narrativa, apesar de óbvia, é muito bem construída por Stan Lee, que emprega um bom tempo para estabelecer a dor pela qual Fury passa com a morte de Júnior. Apesar do Barão Strucker ser muito unidimensional, com aquele ar puramente vilanesco, ele não deixa de ser interessante, com a mistura de aristocracia com soldado invencível e vilão de filmes de James Bond (a semelhança física dele com Blofeld é inescapável). Tanto é assim que ele se tornaria um dos mais duradouros super-vilões do Universo Marvel, enfrentando Nick Fury já como diretor da S.H.I.E.L.D., o Capitão América e, claro, os Vingadores.

mosaico strucker

(1) A primeira aparição do Barão Strucker (o careca lutando esgrima); (2) Strucker e Fury duelando pela primeira vez; e (3) Strucker e Fury duelando pela segunda e última vez (nesse número, claro).

É engraçado como Stan Lee mistura inglês e alemão nos balões de fala dos soldados nazistas, o que acaba tendo um efeito de sátira ao que ele escreve. Funciona bem mesmo quando a história é lida com os olhares mais cínicos de hoje em dia. Claro que Strucker tem um inglês perfeito e o choque entre sua pose galante e a retratação mais “animalesca” de Fury é proposital e cria o contraste clichê, mas necessário.

O trabalho de Jack Kirby é detalhado e rico. Sua criação de Strucker é tão icônica que, ao longo das décadas, o personagem quase não sofreu alterações físicas, mantendo a careca, a cicatriz e o monóculo – além de, em determinada época, ter usado a Garra de Satã, que faz referência visual ao uniforme de esgrima que ele usa na primeira vez que aparece na publicação criticada. Mas, além de Strucker, cada quadro de Kirby é muito bem trabalhado, permitindo fluidez à narrativa de Lee que é verborrágica em excesso. Tenho para mim – e talvez isso pareça uma heresia para muitos – que o artista é bem mais eficiente lidando com personagens que são humanos normais do que meta-humanos, algo que fica evidente com os traços mais simplistas empregados por Kirby na mesma época em, por exemplo, Os Vingadores.

A primeira aparição do Barão Strucker é digna e marcante. Um grande começo para um vilão que, se não alcançou o panteão dos vilões Marvel, certamente ficou ali por perto, aguardando uma oportunidade.

Sgt. Fury e Seu Comando Selvagem #5 (Sgt. Fury and His Howling Commandos #5)
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Arte Final: G. Bell
Letras: S. Rosen
Editora (nos EUA): Marvel Comics (janeiro de 1964)
Editora (no Brasil): Editora Paladino (como Sargento Fury, na década de 1970)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.