Crítica | Shadowhunters 1X06: Of Men and Angels

Of Men and Angels shadowhunters

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Shadowhunters, aqui.

As coisas boas de Of Men and Angels, até agora o único episódio bom de Shadowhunters (já não era sem tempo!) começam do título, que dá a entender a própria constituição desses seres — metade anjo, metade homens. E é muito importante que o espectador tenha isso em mente durante todo o episódio, porque sua linha dramática central é erguida sobre essa dualidade, como se as metades dos Shadowhunters estivessem o tempo inteiro em forte luta, contradizendo-se, acalmando-se e tentando fazer as coisas certas mesmo sob a cegueira de emoções que não conseguem controlar. E assim como nos livros, o episódio faz com que esta perspectiva polarize tudo, o tempo inteiro, tornando difícil a classificação exata de alguém como “certinho” e alguém como “rebelde”, já que todos estão apaixonadamente perigosos, voltados para agendas pessoais, algumas vezes pouco lógicas ou compreensíveis. Em algum momentos, todos experimentam um pouco dos dois lados.

Livre do take de Chernobyl e focado na proposta de mostrar exatamente o que o título do capítulo diz, é impressionante como o roteiro de Of Men and Angels, assinado por Y. Shireen Razack ao mesmo tempo que captura o caráter dual da existência aplicada a todos os seres (todos temos pelo menos dois lados em luta durante todo o tempo), consegue nos passar a ironia, as politicagens, a falsa diplomacia e a difícil relação entre gerações, grupos e famílias de Shadowhunters. A ação é objetiva e traz poucas falhas ao longo da projeção, estas mais ligadas à continuidade e algumas atuações do que sua composição interna, com exceção da luta final entre o jovem Valentine e os jovens Luke e Jocelyn, que causa uma certa estranheza por ter coreografia pobre e não ser bem dirigida.

Marcado por muitas escolhas corretas tanto do roteiro quanto da direção, o episódio revela, sozinho, muito mais do que os 5 episódios anteriores somados, além de conseguir uma qualidade narrativa inédita na série. Olhando com atenção vemos que não se trata de um processo complicado para o escritor pegar os dramas individuais de uma história com esse potencial e transformar em uma caçada por um precioso objeto. Se entre os episódios 1 e 5 isso girou entre enrolações desnecessárias e algumas apresentações de personagens, este episódio 6 partiu do princípio de que tudo o que havia em cena deveria ser considerado pelo espectador como ponto de referência e por isso mesmo, não recorreu ao didatismo para fazer a história avançar, respeitando a nossa inteligência. Até a introdução de outros dois Lightwood na história é feita de maneira enxuta e sem floreios.

E vejam que estamos falando de um episódio com um longo flashback. Qualquer cinéfilo ou seriador sabe muito bem que flashbacks podem ser um grande problema se não tiverem um bom ponto de partida, uma boa relação final com a história contada e, principalmente, se não for marcado por um forte laço conceitual com o presente que ele normalmente pretende explicar ou problematizar. A apresentação da história de “como tudo começou” serviu para exorcizar um eterno impasse armado sem ter, em tela, algo que lhe trouxesse razão de existir. O diretor Oz Scott recuperou o tempo perdido modulando o ímpeto de cada um dos blocos cênicos (contanto com a ajuda quase divina da montagem) e sabendo equilibrar internamente momentos de docilidade, amor ou amizade — destaque para Magnus e Alec, que dividem uma cena muito bem dirigida, musicalizada, fotografada e com interpretações sutis, mas no tom certo, dos atores Matthew Daddario e Harry Shum Jr. — com violência, arrependimento, resignação, ódio e desespero.

É animador ver um material tão interessante (algo que venho falando dese The Mortal Cup) trabalhado como se deveria, sem subtramas filler e com andamento que não se prende a nenhuma necessidade didática ou repetições. A possibilidade do casamento dos irmãos Lightwood como forma de aliança política e benefício para o nome da família (levanta a mão quem sentiu a raiva brotar no coração nesse momento), a boa colocação de Luke e Simon na história, cada um guiando muito bem ações menores mas de grande importância para sua relação com Clary e, finalmente, o primeiro grande salto para o encontro do cálice… Quantos e bons pontos altos fizeram Of Men and Angels valer a pena! Que este nível seja mantido até o final da temporada!

Shadowhunters 1X06: Of Men and Angels (EUA, 2016)
Direção: Oz Scott
Roteiro: Y. Shireen Razack
Elenco: Katherine McNamara, Dominic Sherwood, Alberto Rosende, Matthew Daddario, Emeraude Toubia, Isaiah Mustafa, Harry Shum Jr., Maxim Roy, Nicola Correia-Damude, Paulino Nunes, Susanna Fournier, Owen Roth, Nykeem Provo
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.