Crítica | Shame

estrelas 3

Para qualquer cinéfilo mais empolgado, o tema central de Shame, adicionado à sua fama, prêmios e recepção por parte da crítica e do público são indícios de sobra para se esperar um bom filme. Uma história com flerte, beleza, corpos nus e sexo, protagonizada por bons e belos atores e nas mãos de um bom diretor torna o lançamento um ponto de alta expectativa para qualquer um. O caso é que em Shame, todos esses ingredientes estão presentes mas o resultado final passa longe de ser uma obra-prima como alguns teimam em definir, e nem de longe merece os aplausos embasbacados de espectadores receptivos às (com)pulsões sexuais de Brandon Sullivan, personagem de Michael Fassbender na fita.

Shame é um filme para adultos. É necessário ressaltar essa característica porque uma gorda parcela dos romances ou dramas sexuais recentes são de ordem adolescente, jovem ou jovem adulta, com questões pessoais e atitudes longe da maioria dos espectadores que trabalham, mantêm um ou vários relacionamentos e possuem plena independência de ações. Não há pais dominadores, influência direta e definitiva da família ou preocupações com o vestibular, faculdade, e os “primeiros tudo” da vida de um cidadão. Brandon Sullivan é um protagonista maduro, bem-sucedido profissionalmente e solitário. Seu mundo divide-se em parcelas de tédio e angústia imensas, algo que percebemos não só por suas ações mas pela forma do filme, com planos e ângulos que indicam um homem acuado e perdido em seu próprio espaço.

Ao fazer uso dessa forma imagético-dramática para indicar uma característica psicológica do protagonista, o diretor Steve McQueen reafirma sua qualidade atrás das câmeras, embora muitas vezes esse virtuosismo ganhe ares de mal gosto, como é o caso da sequência do ménage à trois, na reta final da obra. Seja pela exposição injustificada do sexo na maior parte das vezes, seja pela saturação do espectador àquele fetiche o fato é que da metade do filme para frente nós nos colocamos numa posição de “indiferentes que reconhecem o que é sexy”, uma vez que a apelação começa a fazer parte da obra e minimiza todos os ganhos obtidos até ali. Mesmo se tratando da história de um homem para quem o sexo é um vício (portanto, o sexo deve ser a matéria-prima do filme), chega um momento em que o ato perde o valor dramático, simbólico e psicanalítico, deixando de ser a sublimação do protagonista para ser objeto de tara do diretor e possivelmente do espectador.

O que era para ser um drama que discute de maneira quase inédita a heterossexualidade masculina (sim, é importante ressaltarmos também esse aspecto e lembrarmos que, embora haja uma experiência homossexual, o protagonista não possui uma pulsão invertida — para usar a nomenclatura freudiana dos Três Ensaios), se tornou em um desfile de poucos momentos bons, e isso graças à já citada super-exposição de um tema, ao mal uso da bela trilha sonora e do roteiro que o diretor assina com Abi Morgan. Fora o que já foi citado, não há, propriamente dito, uma história no filme. O que depreendemos do que se poderia chamar de ‘história’ vem das atuações divinas de Fassbender e Carey Mulligan, aliás, os únicos que realmente atuam bem no filme. Não há uma discussão sobre o vício, não há uma linha minimamente firme para o espectador tomar como ponto de partida e “julgar” um contexto. E como é sempre possível piorar, o final em falso quase nos permite taxar o desfecho de moralista: abalado após a tentativa de suicídio da irmã, o homem viciado em sexo provavelmente não irá atrás de uma mulher por quem se sente atraído, embora isso ninguém possa afirmar, apenas deixar falar a voz do subjetivo.

A diferença de personalidade entre os irmãos nos mostra duas visões compulsivas do mundo à sua volta e, especialmente, do sexo. O racional-impessoal e o emotivo/passional são duas das formas mais comuns de ver os relacionamentos em nossa sociedade do amor líquido e da fragilidade dos laços humanos, como bem definiu o sociólogo Zigmunt Bauman. Levando em consideração que “nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência”, podemos entender melhor e fielmente os protagonistas se buscarmos neles essas condições existenciais. Brandon prima pelo constante movimento de suas relações, não vê sentido em compromissos longos, é dotado de um desapego doloroso, alcança sua satisfação mecânica em um sexo sem sentimento algum. Sissy dota seus relacionamentos de importância maior do que eles merecem ou prometem ter, não se conforma com o abandono, sempre depende do outro para se manter segura e salva de si mesma. A junção dessas duas personalidades somadas às construções dos atores, fazem de Brandon e Sissy os tesouros do filme, mesmo que suas ações e forças independam, na atmosfera que criam em pequenos espaços, do roteiro.

Para quem esperava uma verdadeira glória ao término da sessão de Shame, não consegue esconder certa frustração de ter esperado para ter diante de si um filme sem picos, anticlimático, esteticamente magistral e praticamente sem roteiro. A junção desses fatores pode ser vista por muitos como virtude e, de fato, elas envernizam os defeitos e os deixam aprazíveis a alguns olhos. Se Steve McQueen estava acostumado com experimentações minimalistas nas artes visuais e as queria empregar a todo custo, sua tentativa em Shame perde para Hunger (2008), seu longa de estreia. O resultado final é menos do que ele pensou e mais do que ele não queria fazer, embora a soma de todos os fatores não nos permita condenar ou negar a importância de Shame como produto do nosso tempo, portanto, digno e necessário de ser visto e discutido.

Shame (UK, 2011)
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Abi Morgan e Steve McQueen
Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge
Duração: 101min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.