Crítica | Sharknado

estrelas 5

Um filme de tubarão. Um filme de desastre natural. Tudo em um mesmo pacote.

O resultado é Sharknado, que redefine completamente o conceito de filme trash, assim como Shakespeare redefiniu o conceito de teatro.

O que mais eu posso escrever sobre esse filme que já não foi escrito por aí? Se alguém senta em frente à televisão para assistir a alguma coisa que tenha esse título, sabe o que esperar e não vai se importar com qualquer coisa que um crítico chato tenha a dizer.

Mas, para você que viu e se divertiu com Sharknado, saiba que, apesar de eu ser crítico – e, portanto, no imaginário popular, também um chato – eu adorei o resultado final. Não é que Sharknado seja “tão ruim que é bom”. Não, nada disso. Sharknado é uma das melhores comédias nonsense que vi nos últimos anos e tudo feito com um TK85, três barbantes e dois clipes. Somado a isso, a produção tem um elenco completamente decadente, com pérolas como Ian Ziering (de Barrados no Baile – a série original!!!), Tara Reid (que viveu Vicky, uma das personagens menos importantes da série American Pie) e, por incrível que pareça, John Heard que é um costumeiro coadjuvante de dezenas de filmes famosos (Esqueceram de Mim, Quero Ser Grande e Tempo de Despertar, por exemplo),  e que ou (1) estava precisando de uma grana urgente; (2) perdeu uma aposta; (3) foi enganado pelo seu agente; (4) estava bêbado na hora de assinar o contrato ou, como seria o meu caso se estivesse na posiçao dele, não resistiu à proposta apresentada.

Mas o conceito absurdamente surreal do filme não é a graça dele. Pelo menos não a principal. A graça está no fato de que somente tubarões são pegos pelos tornados (cadê as lulas, polvos, baleias e peixes em geral?); eles se mantêm vivos e famintos durante o “voo”, que não é curto; caem de alturas incríveis e continuam vivos e famintos e os humanos são infinitamente mais burros que os peixes, além de completamente insensíveis com as mortes de outros humanos ao seu redor…

Impagável. Simplesmente impagável.

Mas não é só isso! Além de todas as características acima que já tornam Sharknado um clássico instantâneo, há mais. E, agora, entra a parte voltada para os críticos de cinema e de todas as três ou quatro pessoas que se preocupam com aspectos mais técnicos: nada, absolutamente nada em Sharknado é feito com cuidado ou funciona cinematograficamente. É como se alguém tivesse se esmerado na arte do anti-cinema (ou anti-televisão, já que se trata de uma produção para TV do canal Syfy que, em um arroubo de insanidade, um dia, foi responsável pelo sensacional reboot de Battlestar Galactica).

Sabem aquela coisinha chamada comumente de continuidade, que impede que um personagem esteja em uma cena ferido e, na outra, minutos depois, já completamente curado? Isso não existe em Sharknado. E quando eu digo “não existe”, levem essa expressão completamente ao pé da letra. Não existe mesmo continuidade alguma nesse filme. Em um momento tem vento, noutro não tem. Em uma sequência tem água, noutra está tudo seco. Vemos gente fugindo, corta para os protagonistas e volta para onde estavam as pessoas e elas foram teletransportadas para a salvação pela Enterprise. Uma hora o tempo está nublado com nuvens pesadas, outra hora (na verdade no outro segundo) o sol está a pino (e as roupas de todos bem sequinhas).

Mas calma aí que, assim como as facas Ginsu e as meias Vivarina, TEM MAIS! Sharknado faz uso constante de stock footage, que são aquelas imagens de arquivo comumente usadas em diversas produções mais baratas. Assim, o mar que vemos provavelmente é de algum documentário sobre surf ou pescaria (ou sei lá o quê) e os atores aparecem ou em close up ou têm suas imagens sobrepostas às outras. Isso é normal. Acontece nas melhores famílias de filmes B e trash. Mas é exatamente por isso que Sharknado não pode ser chamado de filme B ou mesmo trash. Existe uma técnica por detrás que impede até mesmo essas cenas relativamente simples de funcionarem. A montagem só pode ter sido feita por um chimpanzé com problemas mentais.

Um exemplo clássico dessa técnica de uso de imagens de arquivo seguido de montagens símias se dá com as rêmoras.

Não sabem o que são rêmoras?

São aqueles peixinhos espertos que nadam grudados aos tubarões e outros animais marinhos de grande porte e que se alimentam de restos da comida deixada pelos predadores, além de se beneficiarem de transporte e de proteção gratuita. Já visualizaram?

Pois bem, as rêmoras estão presentes em Sharknado. É só aparecer um tubarão nadando (às vezes eles nadam no filme, quando cansam de voar) que as rêmoras estão juntas. Mas não tem mais nenhum tipo de animal marinho. Só os tubarões e as rêmoras. Não é uma coisa linda essa relação simbiótica e como ela é mostrada no filme de maneira orgânica? Deixei rolar algumas lágrimas nesses momentos.

Os efeitos especiais não são especiais e nem podem ser chamados de efeitos.  Aliás, podem, pois eles têm o efeito imediato de levar qualquer um ao riso histérico, daqueles que causam câimbras estomacais e tornam necessário pausar o filme para evitar que se perca alguma parte importante da história. A destruição do píer de Santa Monica por apenas uma onda e com tubarões voando pela janela como peixes voadores, além da roda gigante saindo dos eixos entrará para os anais das sequências mais hilárias que eu vi na minha vida.

E o que são as cenas de ação? A água parece um ser vivo que só inunda determinados lugares e só derrubam determinadas casas. Os protagonistas fogem do perigo o tempo todo, mas não resistem à tentação de pegar um helicóptero para jogar bombas em tornados, digo sharknados, para acabar com eles. Sim, bombas para matar tornados. Nunca ouviram falar nisso, seus iNgnorantes? E claro, a já clássica cena final de sacrifício deixará qualquer um de queixo caído e gerará aplausos entusiasmados, além de copiosos choros.

Eu podia ficar aqui infinitamente descrevendo as qualidades dessa obra prima, mas eu prefiro sugerir que você, leitor fiel do Plano Crítico, pare tudo o que está fazendo e vá se contorcer de tanto rir assistindo a essa perfeição da televisão. Mas agora! Vejam e deleitem-se. E vejam novamente.

Syfy: aguardamos ansiosamente pelo já anunciado Sharknado 2: The Second One.

Ah, já ia me esquecendo: só dei 5 estrelas, pois fui proibido pela gerência de dar 10 estrelas…

Sharknado (Idem, EUA, 2013)
Diretor: Você quer mesmo saber?
Roteiro: Hã? Como assim?
Elenco: HAUAHAUHAAUAHAUAUAHAUAUAUHAUIAUUAAHUAHAUAHAUAHAUAUAHAUAAUAHAUAUAHU
Duração: Pouco demais.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.