Crítica | Sharp Objects – 1X06: Cherry

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Uma das coisas mais opressivas para qualquer pessoa é ter a clara noção de que toda a sua vida repete um inconveniente ciclo de desgraças, do qual aparentemente ela não consegue fugir. Inicialmente em Sharp Objects isso foi pautado muito lentamente, mais como princípio de motivação do que como temática. Contudo, à medida que a minissérie se aproxima do final, mais e mais indicações dessa natureza aparecem, agora tendo uma gama de simbolismos cíclicos que, para leitores mais safos, certamente indicam a culpa de algumas pessoas e a manutenção de uma postura — como se nada tivessem feito de errado — por parte de outras. Em Cherry, o gatilho vem a partir de uma torta de cereja que Camille devora no café da manhã, ato que, diante de uma infame deixa de Adora, faz com que a jornalista volte para a adolescência e se lembre de como fruto já foi simbolicamente muito amargo para ela.

Diz-se que, a esta altura, o flashbacks de Camille (especialmente os do passado) não acrescentam mais nada à série. Bobagem. Exceto em Dirt, onde a repetição e o mal-uso desse recurso atrapalhou o andamento do episódio, não tivemos na temporada nenhuma outra ocorrência de “uso vazio” desse olhar tortuoso, picotado, alternado e viciado de Camille para a cidade onde está. Em boa parte do tempo tomamos o seu olhar como perspectiva e percebemos que essa base estética de Jean-Marc Vallée tem apresentado os melhores resultados. Entre a alucinação, a verdade e até mesmo um flerte de contexto do diretor para o que pode acontecer com este ou aquele personagem, os flashbacks também servem para nos mostrar a luta de Camille e talvez nos fazer pensar algumas coisas por vias paralelas, fator que deságua aqui no abuso de poder de Richard ao fuçar o passado de Camille, usando para si mesmo a desculpa de que isso faz parte da investigação.

O curioso é que essa postura quase stalker do Detetive tem uma razão de ser. O roteiro Dawn Kamoche brinca o tempo inteiro com a ambiguidade das ações dos indivíduos, partindo dos cidadãos acima de qualquer suspeita até aos que normalmente se espera que tenham cometido os assassinatos. Ainda sobra tempo para uma adição sobre o passado de Adora e sua relação com a mãe (a misteriosa avó de Camille), algo que no livro tem uma maior exploração e que aqui ganhou uma exibição situacional apenas, o que não é necessariamente ruim mas com certeza deixou uma porção de possibilidades de fora, o que provavelmente deverá ser suprido pelos roteiros dos episódios seguintes, com outros mergulhos familiares na vida dos Preaker e nos braços narrativos que trazem para o centro das suspeitas dois homens de diferentes idades e algumas mulheres que admitimos não conhecer muito bem.

Da mesma forma que Gillian Flynn não se furtou em representar mulheres em diferentes aspectos comportamentais — parece que existe um certo pé atrás de autores quando se trata de representar qualquer tipo de minoria ou grupos historicamente oprimidos fazendo cosias ruins ou cometendo crimes, como se maldade e criminalidade não pudessem ser cometidas por qualquer tipo de pessoa! –, Kamoche manteve essa profusão de posturas dotadas de distintas motivações, sustentando Sharp Objects como a melhor série de desenvolvimento dramático de personagens dessa safra.

E quanto a isso, não podemos deixar de falar da excelente sequência da festa de colegiais (eu sei, a expressão é anacrônica, mas é proposital), onde os laços entre Camille e Amma vão aos poucos sendo cimentados e mesmo em contrariedade da irmã mais velha, acabam se atando de verdade. Minha única preocupação aqui é que com tão pouca motivação imediata para que isso se justificasse em tela, espectadores que não leram o livro talvez tenham mais dificuldade em comprar essa união entre as irmãs, dada as provocações anteriores entre elas. Me digam, por favor, se tiveram problemas com isso. Em apenas duas semanas chegaremos ao final da série. O ritmo de revelação está incrivelmente similar ao da história original. A grande bomba está chegando.

Sharp Objects – 1X06: Cherry (EUA, 12 de agosto de 2018)
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Dawn Kamoche (baseado na obra de Gillian Flynn)
Elenco: Amy Adams, Gregory H. Alpert, Betsy Baker, Kaegan Baron, Guy Boyd, April Brinson, Violet Brinson, Evan Castelloe, Will Chase, Patricia Clarkson, Matt Craven, Henry Czerny, Madison Davenport, Cole Doman, Jade Duncan
Duração: 52 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.