Crítica | Sharp Objects – 1X08: Milk

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O ótimo final de Sharp Objects selou a qualidade da série com um baita ponto final no desenvolvimento dos personagens e, enfim, com a revelação de quem era o assassino (nesse caso, a assassina) das duas garotas em Wind Gap — aqui já se sabia que Adora tinha matado a filha envenenada, resultado de sua Síndrome de Münchhausen por Procuração. Em praticamente tudo nesta adaptação, a versão de Marti Noxon e seu time de roteiristas se saiu muitíssimo bem, às vezes ganhando maior vigor ou mesmo destaque se compararmos a momentos idênticos no livro. Por isso que é uma pena observarmos, logo no capítulo final da série, algumas permissões nada interessantes por parte da produção.

Milk funciona muito mais do que apenas uma revelação. O episódio elenca uma angustiante sequência de cenas de Adora, perturbada, envenenando Camille e tendo mais uma vez a passividade de Alan no processo. Nesta reta final, porém, como algumas mudanças foram feitas em relação ao original — não só aqui, vale dizer — ficamos esperando, sem que tenha vindo, uma participação mais intensa de Alan em todo o processo. Se no livro o leitor consegue aceitar a posição passiva dele diante da justificativa de histórico familiar que Gillian Flynn cria, na série, o personagem conta com um mar de suspeitas e destaques de luxo musical para, no fim, a showrunner não utilizar esse destaque, o que nos faz perguntar: se era para não ter nada além de uma infame e passiva cumplicidade, por quê não deu ao homem a posição secundária e com a mesma justificativa familiar que no livro? Assim, era mais fácil comprar a postura.

Curioso é que também se liga a Alan a única cena realmente inútil de Milk, quando ele entra na barbearia troca farpas aveludas com Vickery. Alguns espectadores podem ver uma utilidade de “aceitação policial” ali, mas levando em consideração que não foi por parte de Vickery a ideia de fazer a busca na cada dos Preaker e sim por convencimento do Editor de Camille, Frank Curry (Miguel Sandoval está incrível nesse papel de chefe e ao mesmo tempo figura paterna/cuidadora de Camille), voltamos à estaca zero: a cena não serve para nada, porque nada mais havia para construir, apenas encerrar. Outro deslocamento dramático se dá logo no começo, abrindo com um tom que realmente me deixou decepcionado. Primeiro, porque estamos falando de uma equipe que entregou uma série sólida e muitíssimo bem feita, certamente uma das melhores do ano. Daí, passando de Falling para Milk, em vez de uma continuação com base no cliffhanger imensamente poderoso, temos praticamente um novo começo, com Camille chegando em casa, quebrando gratuitamente um clima perfeitamente gerado no episódio anterior.

Pela primeira vez na série me pareceu que o tempo não foi utilizado em toda a sua potência, fazendo o episódio parecer lento em diversos pontos (dos flashbacks, inclusive, o que mais dialoga com o que a série precisava neste último suspiro é o de Camille colocando o dedo no ventilador e se cortando. Pela primeira vez sentindo na pele, propositalmente, um objeto cortante. Para mim, este foi o seu primeiro gatilho, algo que ela era lembrada o tempo inteiro, já que ventilador é o que não falta na casa e na cidade toda). Claro que o peso do tempo não tão bem utilizado quase se dissipa diante das atuações absurdamente grandiosas (Eliza Scanlen, cujo único trabalho relevante no currículo são 15 episódios da novela australiana Home and Away, ganha aqui a oportunidade de brilhar e fazer um papel cheio de peculiaridades, conceitualmente bem difícil para uma atriz com pouca experiência de tela) e do trabalho de direção aplaudível de Jean-Marc Vallée, mas existem coisas impossíveis ser ignoradas, especialmente quando se trata de um elemento destoante em uma temporada tão bem pensada como esta.

O título Milk, aqui, foi uma excelente escolha. Ele tanto alude aos dentes de leite que fazem parte da decoração do chão na casa de Amma, quanto a relação materna entre Adora e suas filhas, dada pela “alimentação” com venenos. Toda a relação familiar e cuidado aqui fazem do episódio o mais caloroso e ao mesmo tempo aterrador da temporada, pois que o inimigo da vez está onde se busca abrigo: dentro de casa. Como vocês sabem, eu tenho duas pendências com a finalização da obra original, uma com a separação de Camille com Wind Gap e outra em relação ao sumiço de Richard. Aqui, pelo menos, a questão do detetive se resolve a contento. Sei que alguns devem implicar com aquela cena no hospital, mas como eu já vinha de uma decepção literária nesta seara, aquele diálogo me pareceu não só na medida para acabar com a relação, como bastante coerente com o comportamento do profissional e de Camille, algo que não escapa à língua ferina de Amma.

Já a relação com Wind Gap se mostrou a mesma. Claro que ainda prefiro a versão dessa adaptação, porque mostra a mudança de Amma para a casa de Camille e tudo, mas ainda assim, falta algo. Eu só gostaria que o verdadeiro final fosse melhor arrojado, ressaltando a relação entre Amma e a nova amiga, que ela também acaba matando — simplesmente amo a forma como isso é exposto no livro –, mas por outro lado, achei poderosa e incrível a maneira como o roteiro revelou a coisa toda para o público, sendo a última fala da série, deixando o final aberto e mostrando algumas cenas durante e pós-créditos que rememoram o assassinato das meninas em Wind Gap e da nova amiga da irmã de Camille. Mesmo preferindo a versão de encerramento de assassinatos na literatura, não me decepcionei com a finalização do mistério na série. Mesmo tropeçando um pouco no final, Sharp Objects é uma verdadeira revelação. Uma das melhores coisas dessa temporada.

Sharp Objects – 1X08: Milk (EUA, 26 de agosto de 2018)
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Gillian Flynn, Marti Noxon (baseado na obra de Gillian Flynn)
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Chris Messina, Eliza Scanlen, Matt Craven, Henry Czerny, Taylor John Smith, Madison Davenport, Miguel Sandoval, Sophia Lillis, Lulu Wilson, Elizabeth Perkins, Beth Broderick, Catherine Carlen, Loretta Fox, D.B. Sweeney, Jennifer Aspen, Barbara Eve Harris
Duração: 52 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.