Crítica | Sharp Objects: Objetos Cortantes, de Gillian Flynn

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Antes de sua primeira aventura literária e mudança total em sua carreira, Gillian Flynn trabalhou durante dez anos como crítica de TV e cinema para a revista Entertainment Weekly, entre os anos de 1998 e 2008. Foi ainda exercendo essa função que ela escreveu e publicou, pela Shaye Areheart Books, o seu primeiro romance: Sharp Objects: Objetos Cortantes (2006), obra que abriu as portas para a sua carreira literária.

Nessa estreia, Flynn conta a história de Camille Preaker, uma jornalista que vive em Chicago e que recebe uma tarefa-provocação de seu Editor-chefe para que ela fosse investigar um assassinato e um desaparecimento em Wind Gap — por acaso, a cidade natal de Camille, local onde ainda mora a sua mãe Adora, seu padrasto Alan e sua meia-irmã Amma. Mantendo um tom conceitualmente gótico, a autora passa pelo menos metade do livro construindo a visão do que realmente é essa cidade interiorana com sua divisão de bairros nobres e pobres, seu local de criação de porcos, sua polícia e população moralmente protecionista e virtualmente xenófoba e seus lugares macabros — como uma escola abandonada em um local ermo, uma floresta com uma estranha cabana de caça e locais conhecidos para adolescentes e jovens transarem por opção ou forçados; com um ou mais parceiros.

Wind Gap é o tipo de cidade onde o luxo da parte rica encobre a sujeira que rola pelos becos e pelas sombras. Onde o dinheiro compra o silêncio e onde pessoas influentes (de todas as idades) normalmente podem humilhar os outros sem ter qualquer tipo de represália ou vozes contrárias. A velha organização hierárquica de um local aparentemente belo e pacífico onde estranhezas das mais diversas correm soltas. No decorrer da narrativa, Flynn deixa claro que os “absuuuuurdos” que acontecem em Wind Gap são, na verdade, a regra das gerações para inúmeras cidades pelo mundo a fora. De adolescentes com criação repressiva que se tornam precoces em tudo até vícios generalizados que vizinhos e membros mais afastados da comunidade escolhem ignorar — porque “isso faz parte da pessoa e não causa mal a ninguém” — Objetos Cortantes é uma verdadeira estadia angustiante em um lugar repleto de segredos e onde uma jornalista com problemas pessoais graves (alcoolismo, autolesão) é colocada para investigar algo que a cada página que lemos, parece ter ainda menos (sim, menos!) pistas que antes.

Se considerarmos a forma como a autora cria o desenvolvimento e como prepara a revelação do grande mistério, fica claro que sua intenção era mesmo a exposição máxima dos personagens, seus sentimentos, suas dores e alegrias, seus tiques e formas de se mostrarem para o mundo. O livro tem um forte apelo atmosférico, fazendo com que o leitor se sinta aprisionado em todo espaço que Camille visita: um bar onde encontra velhos amigos, a casa da mãe, a própria cidade. Esta ambientação, o medo e até as suspeitas do leitor são fortemente delineados pela autora à medida que cria encontros e expande o que conhecemos dos personagens, tudo isso à guisa de uma real investigação. Como uma espécie de brincadeira cruel, Richard (apelidado de “Kansas City”), o detetive destacado para cuidar do caso, está o tempo inteiro com os pés atrás e é uma mistura de piada, incompetência e ameaça aos olhos dos nativos. Diferente dos comuns romances policiais, Objetos Cortantes é em essência um livro de relações conflituosas em um ambiente soturno. E claro, depois de tanto tempo conhecendo pessoas e percorrendo esse espaço, nos chocamos quando a verdade de fato vem à tona, em uma conclusão mais do que objetiva do caso, nas páginas finais do livro.

Sei que existe um notável desgosto de alguns leitores em relação à forma como quem cometeu os crimes é revelado. A questão todavia, combina perfeitamente com a proposta. Embora certos destinos de personagens fiquem absurdamente soltos no texto (Richard é o pior dos casos) e falte para o espectador um fechamento a contento do drama sob o ponto de vista da cidade — notem que o livro se desenvolveu de maneira intensa em Wind Gap. Era mais que necessária uma finalização pormenorizada da relação de Camille com esse lugar –, mas mesmo aí, as migalhas, deixas e pequenas indicações dadas pela autora servem para atiçar a memória. O que realmente chama a atenção no final, a grande revelação que toma conta do texto sem longas explicações, justificativas ou mesmo análise por parte da jornalista serve muito bem como ingrediente para a finalização da obra. O leitor termina impressionado com o plot twist e é recompensado pelos grandes conflitos familiares e de gerações que se ergueu no volume, especialmente no quesito mãe-e-filhas.

Destacando fortemente a posição das mulheres — fortes e fracas — no cenário da cidade, a forma como enxergam o mundo, são subjugadas ou subjugam, Gillian Flynn escreve em Objetos Cortantes um romance sobre as muitas relações de poder. Isso pode ser visto do ponto de vista íntimo, como cravar palavras na própria pele para poder dominar um sentimento negativo, ou a real dominação sobre outra pessoa, expressa de diversas formas. A despeito de alguns poucos rumos na reta final, o livro é encerrado de maneira sagaz, nos deixando plenamente satisfeitos com o ciclo da protagonista, levando em conta o tempo que escreveu sobre os assassinatos. Um texto que logo mudaria de figura e se tornaria um diário de acerto de contas com o passado, mesmo que nenhuma das partes estivesse buscando ou esperando isso. A prova de que saber explorar bem os segredos das máscaras sociais ainda pode gerar boas histórias.

Sharp Objects: Objetos Cortantes (EUA, 2006)
Editora original: Shaye Areheart Books
Autora: Gillian Flynn
No Brasil: Editoria Intrínseca (fevereiro de 2015)
Tradução: Alexandre Martins
256 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.