Crítica | Sherlock – 4X01: The Six Thatchers

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estrelas 3,5

Spoilers!

Sherlock definitivamente não é uma série fácil de ser acompanhada, não pela sua indiscutível qualidade, mas pela grande espera que os fãs precisam aturar entre uma temporada e outra, algo que fora deixado especialmente difícil após o impactante cliffhanger de His Last Vow. Felizmente, no meio tempo, há um ano atrás tivemos o episódio especial de Natal, The Abominable Bride, que, apesar de se passar grande parte no século XIX, acrescenta muito para o mistério do suposto retorno de Moriarty. Chega, enfim, The Six Thatchers, o esperado première da quarta temporada, um episódio que nos traz eventos certamente inesperados, mas não fora do que a série costuma fazer.

Mark Gatiss, também co-criador do seriado, é um homem tão maldoso quanto Steven Moffat. Ele sabe que, acima de tudo, os fãs querem saber como o nêmesis de Holmes retornara ou até mesmo se ele está verdadeiramente vivo (algo deixado no ar no especial de Natal). Eis que entra a crueldade: seu roteiro sabiamente se esquiva dessa questão, deixando o espectador no suspense, enquanto menções ao vilão são constantemente trazidas à tona. A todo e qualquer momento esperamos, junto de Sherlock (Benedict Cumberbatch), descobrir que Moriarty está por trás dos eventos do capítulo, mas isso jamais ocorre. Gatiss mantém essa brincadeira com a audiência até o fim, retomando o “did you miss me?” sempre que pode, sempre inserindo a questão de forma orgânica em sua narrativa.

Já se esse ponto funciona perfeitamente bem dentro de The Six Thatchers, alguns outros, mais pertinentes a sua linha narrativa principal, não fluem tão bem assim. O episódio começa com o caso envolvendo a morte de um jovem, que leva ao mistério dos bustos quebrados de Margaret Thatcher. A forma como esse caso acaba envolvendo, Mary (Amanda Abbington), contudo, soa conveniente demais – uma coincidência gigantesca para o detetive aceitar justamente essa investigação envolvendo a esposa de seu amigo Watson (Martin Freeman). O roteiro chega a brincar com nossas expectativas novamente, nos fazendo acreditar que dentro das estatuetas está a perdida pérola dos Borgias, mas isso jamais chega a ocorrer, para nossa surpresa e do protagonista.

A partir desse ponto, o capítulo acaba se perdendo em uma desnecessária confusão narrativa, envolvendo a fuga de Mary, que dos EUA vai para o Oriente Médio em uma sequência bastante apressada, algo que, pela resolução, facilmente poderia ter sido resolvida em Londres. Às vezes parece como se o sucesso da série não fez muito bem a ela, tirando um pouco da forma contida como seus textos progridem, do foco à capital inglesa (e arredores) partimos para algo mais global, o que foge um pouco à identidade do seriado – evidente que Conan Doyle, desde Um Estudo em Vermelho trabalhara com outros locais, mas jamais necessitou de um grande espetáculo, assim como a série, para nos fisgar, algo que o roteiro de Gatiss acaba perdendo em determinados momentos dessa première.

Felizmente, contornando esses percalços do texto, temos a excelente direção de Rachel Talalay, que, na nona temporada de Doctor Who, nos trouxera os magníficos (me recuso a poupar elogios para esses capítulos) Heaven SentHell Bent, além de Dark Water e Death in Heaven em 2014. Seus planos são dinâmicos e, apesar de esse ser seu primeiro trabalho em Sherlock, ela adota perfeitamente a identidade da série, especialmente  nas agitadas investigações de Holmes, que pedem por planos mais curtos a fim de transmitir o frenesi da mente do investigador. Além disso, ela sabe extrair o máximo do drama de cada sequência, uma marca disso é a reação de Watson após a morte de sua esposa, que alterna de um plano mais longo focado em John, em choque, para aqueles em sua volta, estáticos com a dor do homem.

Naturalmente que os trabalhos tanto de Cumberbatch quanto de Freeman não devem ser deixados de lado. Em sua crítica de The Abominable Bride, nosso editor, Luiz Santiago, de quem eu roubei essa série através de uma chantagem emocional disfarçada de ótima desculpa, aponta que ambos os atores, apesar da distância entre uma temporada e outra, conseguem retornam a seus papéis  totalmente à vontade, algo que enxergamos aqui com clareza. Conseguimos ver em ambos, até mesmo em Sherlock, o tamanho do afeto que um personagem tem pelo outro, algo que não é deixado sempre em palavras, muito mais através de olhares e linguagem corporal.

Por fim, a montagem de William Oswald, assim como Talalay, veterano de Doctor Who, sabe muito bem trabalhar as diferentes elipses do capítulo, especialmente nos trechos iniciais, com o detetive partindo de caso em caso a fim de esperar Moriarty iniciar seu jogo. A distinta dinâmica de Sherlock é facilmente percebida aqui, tornando uma série de investigação quase em um filme de ação, algo introduzido lá na primeira temporada e um dos pontos que nos fizera nos apaixonar por essa criação de Gatiss e Moffat. Infelizmente, perto do final, sua edição acaba ficando exageradamente veloz e nos perde por alguns instantes, quebrando nossa imersão, algo que somente é reconquistado na sequência do aquário.

The Six Thatchers está longe de ser o melhor episódio da série britânica sobre o detetive mais famoso do mundo, com problemas de roteiro e na montagem, ele acaba tendo sua fluidez prejudicada, pedindo muito do espectador, que deve ignorar a maneira apressada como o capítulo se desenvolve. Ainda assim, estamos falando de algo que está muito acima em termos de qualidade do que vemos na televisão e no cinema por aí, ainda é um bom episódio de Sherlock, o que não é dizer pouca coisa. Esperamos que os próximos dois contem com um desenvolvimento mais orgânico, capaz de nos manter presos a todo e qualquer instante.

Sherlock – 4X01: The Six Thatchers — Reino Unido, 2017
Showrunner:
Mark Gatiss, Steven Moffat
Direção:
Rachel Talalay
Roteiro: Mark Gatiss (baseado nas obras de Sir Arthur Conan Doyle)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Una Stubbs, Rupert Graves, Mark Gatiss, Louise Brealey, Amanda Abbington, Lindsay Duncan
Duração: 88 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.