Crítica | Sherlock – 4X02: The Lying Detective

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estrelas 4,5

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  • Spoilers!

Após os traumáticos eventos do final de The Six Thatchers, era natural que Sherlock ganharia um episódio focado no drama envolvendo a cisão entre o detetive e seu melhor (e único) amigo, Watson. Roteirizado pelo igualmente amado e odiado, Steven Moffat, o que ganhamos, contudo, vai muito além disso. Se trata, sim, de um capítulo de “recuperação”, mas ele é sabiamente delineado por um caso que muito nos lembra do que, possivelmente, se mantém como o melhor episódio da série, The Reichenbach Fall. Se espelhando, mas não copiando, The Lying Detective conta, sim, com seus defeitos, mas seus acertos são tão grandes que nos fazem facilmente esquecer de seus aspectos negativos.

O capítulo, de imediato, cria um paralelo com o primeiríssimo da série, A Study in Pink, com Watson tendo de lidar com seu trauma, agora a perda da esposa, chegando a se consultar com uma psicóloga, que não é mais a mesma que conhecemos anteriormente. Enquanto isso, Sherlock se encontra em uma situação lastimável em seu próprio apartamento – raramente sai de casa e se entregara novamente às drogas, ainda se culpando pela morte de Mary. Isso começa a mudar quando o detetive recebe o caso de uma misteriosa mulher, que diz que seu pai, o famoso Culverton Smith (Toby Jones), é, na verdade, um perigoso assassino em série. Aceitando investigar, Holmes vai atrás de Watson.

O roteiro de Moffat utiliza todo o episódio para fazer com que os dois retomem sua amizade, ao mesmo tempo que superam a morte de Mary, que não chega a se despedir plenamente, visto que ela aparece constantemente na mente de John, como se o texto estivesse, também, acostumando o espectador a não ver a personagem mais. De imediato já sabemos que ela atua como a consciência de Watson, o que funciona perfeitamente para demonstrar os pensamentos do doutor, evidenciando como ele se sente em relação a tudo aquilo sem ser necessário um monólogo shakespeariano. Além disso, a temporada novamente retoma a temática, mesmo que em segundo plano, do retorno daqueles que estão mortos, mesmo que não da maneira como esperamos.

Toda a investigação em cima de Smith funciona a fim de trabalhar os dois personagens principais, de forma similar ao que vimos em The Six Thatchers, onde o caso em si não era tão importante quanto suas consequências de fato. Ao trabalhar com um Holmes  drogado, porém, Moffat retoma aquela velha dúvida de The Reichenbach Fall, não sabemos se acreditamos no detetive ou se é tudo coisa de sua cabeça – não sabemos se ele construíra toda aquela situação a fim de se recuperar ou se está falando a verdade, dúvida essa que se estende para os outros personagens. O texto, porém, desliza ao tornar o resultado final óbvio demais – Culverton Smith é muito bem construído até certo ponto, mas depois disso, nossa surpresa é estragada por uma revelação prematura, algo que poderia ser contornado por uma abordagem maior das alucinações de Sherlock.

Felizmente, a maior surpresa do capítulo, que fora construída desde o início do episódio anterior, nos pega de surpresa, por mais que ela estivesse estampada em nossa cara. A narrativa vai nos oferecendo dicas após dicas para, no fim, revelar quem é o grande vilão da história, seguindo os moldes da apresentação inicial de Moriarty nos princípios do seriado. A revelação de que os Holmes tem uma irmã, naturalmente, soa como algo inserido somente nessa temporada, um ponto pensado posteriormente, mas, considerando as personalidades tanto de Sherlock, quanto de Mycroft, esse fator não é algo que foge tanto da realidade da série.

Não podemos deixar de lado, também, elogios à direção de Nick Hurran, que já trabalhara na série em His Last Vow e também dirigira o especial de 50 anos de Doctor WhoThe Day of the Doctor. Hurran dispensa grandes efeitos especiais (excetuando as nuvens de dedução no início do capítulo) a favor de uma narrativa mais tradicional. Através de precisos ângulos de câmera, aliado de uma fotografia que  faz um uso bastante pontual do foco para ilustrar o efeito das drogas, ele nos permite entrar na mente de Sherlock e, através disso, realiza espertas transições, mérito que também vai para um excelente trabalho de montagem, que faz tudo parecer como uma grande viagem, como se a noção de passagem de tempo estivesse ausente, tanto para nós, quanto para o protagonista.

Benedict Cumberbatch, é claro, torna tudo mais crível com uma de suas melhores atuações até então. Vemos um homem profundamente abalado e somente de olhar no seu rosto enxergamos que há algo de muito errado com o personagem. Claro que a caracterização ajuda, mas seu olhar é o maior revelador de sua atual condição. O mesmo pode ser dito de Watson, que parece mais ríspido que o de costume, ele foge das perguntas e soa como se estivesse sem paciência para tudo aquilo, uma atuação sutil, mas que tem muito a dizer. O mais interessante é enxergar sua gradual mudança conforme o episódio progride, assistimos em seu rosto que ele lentamente passa a creditar em seu amigo e a direção de Hurran não trata o espectador como estúpido e não se esforça para deixar isso óbvio – muitas vezes vemos tais detalhes em segundo plano, ajudando em uma construção bastante profunda das cenas, que pedem que nosso olhar caminhe por toda a tela.

São tais acertos que tornam The Lying Detective uma marca da qualidade de Sherlock. Mesmo com seus defeitos, saímos do capítulo com uma percepção mais que positiva, que somente nos faz apaixonar mais pela série. Através de um ótimo trabalho em cima de seus personagens e um cliffhanger mortal, terminamos a exibição estáticos, absorvendo tudo o que nos fora passado e fazendo a ligação dos inúmeros fatos em nossas mentes, ansiosos para assistir o problema final de Sherlock.

 Sherlock – 4X02: The Lying Detective — Reino Unido, 2017
Showrunner:
Mark Gatiss, Steven Moffat
Direção:
 Nick Hurran
Roteiro: Steven Moffat (baseado nas obras de Sir Arthur Conan Doyle)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Una Stubbs, Rupert Graves, Mark Gatiss, Louise Brealey, Amanda Abbington, Lindsay Duncan, Toby Jones
Duração: 88 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.