Crítica | Sherlock – 4X03: The Final Problem

estrelas 4

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  • Spoilers!

Steven Moffat, embora seja injustamente odiado por muitos whovians (fãs de Doctor Who) foi um dos principais responsáveis pela revitalização dessa série cinquentenária, transformando-a nesse sucesso internacional que vemos nos dias atuais. Ao longo de seus anos como showrunner do seriado sobre o Senhor do Tempo, contudo, já ficou mais que claro que, na tentativa de realizar coisas grandiosas dentro de seus roteiros, ele acaba errando a mão, exagerando em seus plot-twists e nos entregando season finales que deixam a desejar. Isso, felizmente, não é regra e para cada erro do roteirista, ele nos traz grandes acertos, como o especial de 50 anos da série, The Day of the Doctor.

Mas estamos falando de Sherlock e não Doctor Who, seriado criado por ele e Mark Gatiss, mas quando o autor diz que escrevera possivelmente o seu melhor texto até então, imediatamente recebemos altas doses de preocupação, especialmente após a misteriosa irmã dos Holmes, de quem nunca havíamos ouvido falar, aparecer no capítulo anterior, The Lying Detective. Aliado disso, naturalmente, temos o título The Final Problem, que, nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, nos trouxera o fatídico evento da “morte” de Sherlock (que fora revivido posteriormente pelo próprio autor em outras obras). De fato, o livro já fora adaptado em The Reichenbach Fall, mas ter o nome do romance estampado no episódio definitivamente nos deixara com um certo receio de vermos o fim da amada série.

Deixemos esse medo de lado, porém, e vamos ao que interessa. Após a surpreendente revelação do capítulo anterior, Sherlock, Watson e Mycroft entram em alerta máximo e o detetive particular força seu irmão mais velho a contar sobre a sua irmã de quem não tem qualquer lembrança. Ao descobrir sobre seu passado esquecido, os três viajam para um prisão secreta, que guarda os criminosos mais perigosos da Inglaterra, casos irrecuperáveis, dentre eles, Eurus (Sian Brooke). Lá eles são pegos de surpresa pela antagonista, que os força a resolver uma série de enigmas a fim de poderem salvar uma menina presa em um avião onde todos foram colocados para dormir.

The Final Problem começa a revelar o complexo de grandiosidade de Moffat (que acabara passando para Gatiss) logo em seus minutos iniciais, com direito a drones, sequestro de barcos e pulos de helicópteros que simplesmente soam como algo estranho ao que estamos acostumados a ver na série. O incômodo vem da possibilidade que o roteiro tinha de realizar tudo isso de forma mais simples – um carteiro, por exemplo, poderia entregar uma caixa contendo o explosivo para o apartamento em Baker Street e o trio poderia ter entrado no pequeno barco de forma menos dramática, um típico caso de quando menos é mais.

Isso acaba piorando com o fato de que Eurus foi muito convenientemente inserida na trama sem mais nem menos: “parabéns, Sherlock, agora você tem uma irmã!”. Sim, o texto justifica sua não aparição até este ponto diversas vezes, o que minimiza essa revelação, mas ainda somos deixados com aquela pulga atrás da orelha. Felizmente, Moffat e Gatiss tem um porquê por trás da utilização de uma ovelha negra dentro da família e este é a construção de Sherlock como um personagem.

Se pudemos observar algo desde a primeira temporada da série é como o protagonista, ano após ano, foi reencontrando sua humanidade. Mais que um seriado sobre a solução de crimes ou enigmas, essa é uma obra sobre os laços formados ao longo de suas narrativas, como a amizade entre o detetive e o médico os fez superar seus traumas passados. Aqui, enfim, entendemos qual o trauma que tornou Sherlock o que ele é e o roteiro sabiamente deixa essa revelação para os minutos finais, atuando como o grande clímax desse problema final: a morte do melhor amigo do pequeno Holmes. É criado um vínculo óbvio e imediato com todas as situações nas quais Sherlock demonstrou sua afeição por John, especialmente agora que ele estava em mais perigo que nunca.

Claro que, para isso tudo dar certo, seria preciso um esforço além do comum de todo o elenco e ouso dizer que aqui enxergamos o melhor trabalho dos três principais. Cumberbatch nos entrega uma interpretação digna de palmas, um homem que lentamente vai abraçando seu lado emocional, que oscila entre a raiva, a tristeza, o desamparo, sendo forçado a alterar seu tom de voz constantemente para falar com a menina no avião, a fim de não assustá-la. Sentimos o peso de sua atuação em inúmeros momentos do episódio, o que nos envolve totalmente, nos fazendo até esquecer dos deslizes cometidos pelo roteiro anteriormente. Gatiss, como Mycroft, por sua vez, exala o medo, sabemos que ele está aterrorizado a todos os momentos pelo fato de sua irmã estar livre e seu desespero diante da morte (mis dos outros que dele próprio) chega a ser desconcertante, ao ponto de deixar lágrimas escorrerem quando ele se recusa a olhar, aflito para um homem que deve ser morto. Watson, por sua vez, funciona como o pilar de sustentação dos dois, ele que mantém o jogo rolando, oferecendo qualquer possibilidade de vitória através de “hoje nós somos soldados” – em apenas um capítulo entendemos o porquê dele ser tão essencial para seu melhor amigo.

Sian Brooke, no papel da irmã maligna, Eurus, dá outro show, criando uma personagem verdadeiramente assustadora com seu tom de voz mais calmo. Em momento algum entendemos completamente a loucura da vilã e isso é maravilhoso, cria um mistério em volta da antagonista a tal ponto que sentimos um medo imediato e constante, a tal ponto que a presença de Moriarty em cena se faz totalmente desnecessária, atuando como um puro fan-service. Evidente que o did you miss me ganha outra conotação através da irmã malvada, mas colocá-lo em tela através de gravações ao longo do episódio chega a ser um exagero que não acrescenta em nada, visto que a ameaça de Eurus já é perfeitamente concretizada pelo excelente trabalho de Brooke.

 É gratificante enxergar que o diretor, Benjamin Caron, sabe exatamente com qual equipe está lidando. Sua direção dispensa maiores efeitos ou peripécias quando a narrativa chega ao seu momento mais dramático – temos menos efeitos de câmera, à favor de uma linguagem mais clássica, que permite que o elenco todo brilhe. Ele oscila entre os planos mais curtos, transitando o foco de personagem em personagem e os mais longos, a fim de construir a tensão em cena. Seus planos não se abrem muito a fim de causar a sensação de claustrofobia no espectador e de manter o enigma daquele lugar intacto. Sentimo-nos tão presos quanto os personagens principais e angustiados com todas as interrupções que a vilã causa ao longo da narrativa. Mais do que nunca torcemos para que Sherlock vença, mas aqui sentimos, de fato, como se ele pudesse perder, especialmente com a morte pairando sobre a cabeça dos personagens a todo e qualquer instante.

Aqui entramos em outro grande deslize da obra: o seu desfecho. Do momento que Sherlock descobre que está de volta em sua antiga casa, tudo transcorre de forma apressada, como se tivessem de correr para finalizar o episódio no tempo máximo de noventa minutos. Isso acaba prejudicando o encontro do detetive com sua irmã mais velha, nos oferecendo a solução do enigma de maneira exageradamente veloz, algo que, definitivamente, poderia ter sido melhor trabalhado. Felizmente, o epílogo, com a voz em off de Mary, garante o necessário tempo em tela entre Sherlock e Eurus, com uma bela sequência que faz menção direta a O Problema Final de Sir Arthur Conan Doyle, com a mulher de Watson dizendo que a dupla é formada pelos melhores e mais sábios homens que ela já conhecera.

Steven Moffat e Mark Gatiss, portanto, conseguiram nos trazer um episódio que consegue ser grandioso sem perder sua qualidade. Evidente que muitos dos problemas aqui encontrados poderiam ser facilmente contornados, mas, como um todo, The Final Problem é um excelente capítulo de Sherlock, ainda que esteja longe de ser o melhor roteiro escrito por Moffat – esse ainda é, em minha humilde opinião, Heaven Sent, sem dúvidas. Finalizada a temporada, o que ganhamos é um Sherlock que recuperara seu lado humano de vez, justamente o que o torna mais formidável que seu irmão mais velho, que se julga mais inteligente que ele. Será esse o episódio final do seriado? Não há como dizer, Sherlock sempre permanecera em um limbo entre suas temporadas, o que sabemos é que a equipe não deseja abandonar o personagem ainda, mas, como sempre, teremos de esperar mais alguns anos antes de voltarmos a Baker Street.

Sherlock – 4X03: The Final Problem — Reino Unido, 2017
Showrunner:
Mark Gatiss, Steven Moffat
Direção:
Benjamin Caron
Roteiro: Mark Gatiss, Steven Moffat (baseado nas obras de Sir Arthur Conan Doyle)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Una Stubbs, Rupert Graves, Mark Gatiss, Louise Brealey, Amanda Abbington, Lindsay Duncan, Sian Brooke, Andrew Scott
Duração: 88 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.