Crítica | Shimmer Lake

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estrelas 3

Aparecendo pontualmente ao longo da história do cinema, com inesquecíveis exemplares, como Cidadão KanePulp Fiction e Amnésiaa narrativa não-linear, de forma alguma, é exclusiva ao cinema moderno, tendo sido utilizada desde os seus primórdios. O grande problema da utilização de tal estrutura é que, ao mesmo tempo que ela precisa trazer certa confusão ao espectador, ela não pode deixá-lo muito perdido, possibilitando que ele vá encaixando os fatos em sua mente. Além disso, claro, ela precisa ser justificada, nem que seja como mero recurso estético. Shimmer Lake, longa-metragem original da Netflix é mais um exemplar de obra que utiliza tal recurso, mas que falha em ser mais ousado quando deve.

A trama gira em torno de um assalto a banco acontecido em uma cidadezinha dos Estados Unidos. Iniciamos a jornada na sexta-feira e vamos regredindo, dia após dia, até chegarmos ao momento do assalto em si, muito similarmente ao que vemos em Amnésia. Acompanhamos o policial Zeke (Benjamin Walker), encarregado da investigação, enquanto descobrimos mais sobre o que exatamente deu errado nesse roubo, que teve como um dos criminosos o próprio irmão do policial, Andy (Rainn Wilson). Conforme aprendemos sobre o passado recente da cidade, as peças começam a se encaixar.

À via de regra, a estrutura não-linear de Shimmer Lake é completamente desnecessária para a trama, que funcionaria em ambos os sentidos, tanto para frente, quanto para trás. Ao assistirmos o desfecho da obra, contudo, fica bastante clara a razão da escolha, que possibilita o grande plot-twist ocorrido nos momentos finais. O problema de fazer o filme inteiro girar em torno disso é que determinados personagens soam rasos demais, com motivações não tão bem explicadas, como é o caso do próprio policial ou de um dos criminosos envolvidos, Chris (Mark Rendall). Dito isso, grande parte dos indivíduos que acompanhamos em tela permanecem sem qualquer profundidade, não nos fisgando plenamente.

Além disso, é preciso enxergar a burocrática estrutura desenvolvida pelo diretor/ roteirista Oren Uziel. Chega a ser engraçado constatar que um filme pautado na não-linearidade se estabelece de forma tão linear dentro dos seus diversos trechos, todos divididos por cartelas nos dizendo em qual dia estamos e o que está acontecendo no momento, como se o roteirista não confiasse nem um pouco em seu espectador. Aliás, essa falta de confiança dá as caras com todas as forças nos minutos finais, os quais apresentam um desconfortável didatismo, que chega a parecer que o realizador nos diz: “olha, isso é o que está acontecendo, ok?”.

Não que a obra seja uma tragédia completa, longe disso. O texto consegue, sem grandes esforços, nos deixar ansiosos pelo que está por vir, utilizando o personagem Ed (Wyatt Russell) para compor o suspense da trama. Ouvimos, durante toda a projeção, que ele é o vilão, que ele acabou com todos os planos e passamos a nos perguntar o que exatamente ele fizera. Nesse sentido, Uziel não nos decepciona e a narrativa não-linear permite que enxerguemos, a cada peça encaixada, que algo está errado nesse quadro geral, só não sabemos exatamente o que.

Um aspecto que nos incomoda bastante nesse cenário, contudo, é a utilização pontual do humor negro. O que vemos em tela é uma fotografia mais amarelada, trazendo um ar de solidão e desolação à pequena cidade, que, na maior parte do tempo, parece deserta. Essa atmosfera que nos oprime não dialoga bem com as pinceladas de humor, que se fazem presentes muito raramente, sempre destoando do restante do tom do filme. A impressão passada é que Uziel não sabia se queria fazer um humor negro ou um thriller e se contentou com aquilo que está no meio.

Apesar de tais deslizes, Shimmer Lake há de entreter o espectador, principalmente em razão do suspense que consegue se estabelecer na narrativa. Com personagens rasos e uma trama que depende demais de seu plot-twist, esse representa um começo hesitante de Oren Uziel como diretor de cinema, mas, certamente, mostra que o realizador traz potencial, podendo melhorar essa fórmula em filmes vindouros. Por enquanto, o que temos aqui é uma forma descompromissada de entretenimento, que pode ser aproveitada, mas que, provavelmente, será esquecida pouco tempo depois de assistida.

Shimmer Lake — EUA/ Canadá, 2017
Direção:
 Oren Uziel
Roteiro: Oren Uziel
Elenco: Benjamin Walker, Ron Livingston, Wyatt Russell, Rainn Wilson, Stephanie Sigman, Adam Pally, John Michael Higgins, Rob Corddry
Duração: 83 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.