Crítica | Shit Year

estrelas 4

Sabe o que me ocorreu? Que todos os papéis que desempenhei… todas aquelas personagens nunca experimentaram a felicidade. Eles eram infelizes. Então comecei a me perguntar, se eu tinha experimentado a felicidade. E eu, tenho momentos de felicidade, mas nunca fui capaz de me ater a eles. Você acha que sou infeliz?

Colleen West

Tendo estudado teatro durante a adolescência e vindo de uma educação cinéfila que vê com muito carinho o experimentalismo no cinema (e todo o tipo de filme menos popular, seja lá o que isso queria dizer), não tinha como eu não gostar de Shit Year (2010), o segundo longa-metragem de Cam Archer. O filme é um drama intimista cheio de experimentos imagéticos e sonoros capazes de fazer boa parte dos jovens dormir já nos primeiros dez minutos de projeção, porque não se trata de um filme comum, sob nenhum aspecto.

O texto, que também é assinado por Cam Archer, aborda o envelhecimento de estrela de cinema, Colleen West (incrivelmente interpretada por Ellen Barkin), que se vê perdida em sua própria solidão e riqueza após a aposentadoria. A atriz teve, em sua última peça, um caso com um ator de 22 anos, e como era de se esperar, ele seguiu a onda do casual sex e partiu para outra, deixando-a com a lembrança do que se foi. Colleen mergulha em um estado de crescente depressão, e o filme é produto dessa falta, desse vazio deixado pelo belo rapaz, interpretado com eficiência por Luke Grimes.

Ao longo da fita, viajamos nos muitos truques fotográficos, truques quase hipnóticos, levando-nos para a perturbada busca interna de Colleen, que além de desamparada como mulher, se vê defronte a velhice, e não sabe o que fazer diante das forças que vão desaparecendo. As ilusões românticas, eventualmente, trazem a ela apenas uma forma de memória que acaba por massacrá-la ainda mais. A atriz Ellen Barkin consegue segurar essa personalidade sensível e rude ao mesmo tempo, um exemplo seguro e louvável de atuação.

Colleen se muda para uma cabana em algum lugar ao norte de Los Angeles, mas em vez de serenidade, ela encontra o barulho constante de tratores e escavadeiras que constroem casas, uma espécie de tardia “marcha do desenvolvimento”, enquanto ela, como pessoa, involui. “Tudo o que ouço são máquinas”, diz ela, consolidando uma realidade clara: não haverá paz ao longo deste Shit Year. Nesse sentido, o filme é praticamente a versão experimental das Leis de Murphy: quando uma coisa dá errado, todas as outras também darão.

O filme não se propõe a discutir o conflito de gerações e o romance entre pessoas com idades muito diferentes. Há maturidade em toda a história, e em nenhum momento percebemos o adoçar de uma situação, como acontecem na maioria dos romances Hollywoodianos. Shit Year revela as formas degenerativas de Colleen, mostrando como a atriz usa suas experiências com Harvey, o jovem affair, como último esforço para encontrar significado em um mundo caindo aos pedaços – sim, porque tudo em torno dela parece não funcionar completamente, há sempre a presença de “algo errado”.

Para acentuar ainda mais a fluidez da história, Cam Archer inclui cenas que parecem representar uma visão sci-fi do futuro (ou talvez purgatório), onde Harvey pode ser uma simulação do subconsciente torturado Colleen. Seja este o caso ou não, Shit Year traz poesia e horror, às vezes simultaneamente, para a vida de uma mulher que chega ao final de sua carreira. Os resultados imagéticos e dentro da própria história são quase sempre fascinantes.

Shit Year é um gêmeo fora do tempo de Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, ambos os filmes, fábulas sobre a lenta desintegração de uma atriz aposentada que se torna cada vez mais introvertida e perturbada. Para completar esse pesadelo, o diretor filma em preto-e-branco, usando película experimental e técnicas de projeção de som sobrepostas aos saltos não lineares do enredo, a fim de atualizar uma forma muito clássica do sofrimento melodramático. Para Colleen, tudo acontece sem glamour algum (diferente da decadência de Norma Desmond), e como um verdadeiro espetáculo de circo, comparação que ela mesma usa para explicar a sua “antiga profissão” para uma vizinha.

Como uma embarcação à deriva no oceano no cinema, Shit Year é um mix de sonhos e vontades inconscientes impossíveis de serem realizados. Cada ruga, cada lágrima, beijo e sorriso ganham seu lugar na tela, todos muito bem fotografados por Aaron Platt. Colleen diz que “é o fim de tudo e o começo de nada”. Seria esta uma nota de suicídio, de desistência de si mesma? Bem, através do olhar assombrado Colleen, só podemos arriscar um palpite. Por outro lado, podemos admirar o estudo de Cam Archer sobre essa personagem maravilhosamente ambígua, que cogita a esperança de que tudo possa ser apenas uma primeira ponte para a realização de algo digno de uma vida futura.

* Caro leitor, peço que releve as inconstâncias do meu texto e me desculpe o pequeno número de argumentos. É a primeira vez que escrevo sobre cinema, e fora as centenas de exemplos dados pelo meu cicerone familiar, Luiz Santiago, eu só havia escrito algo mais analítico sobre quadrinhos, logo, tudo isso é muito novo para mim, e espero ir melhorando aos poucos. Quero agradecer a Luiz Santiago, Lucas Thulin, e Ritter Fan pela força! Até a próxima.

Por Guilherme Santiago

Shit Year (EUA, 2010)
Direção: Cam Archer
Roteiro: Cam Archer
Elenco: Ellen Barkin, Luke Grimes, Bob Einstein, Theresa Randle, Melora Walters, Josh Blaylock
Duração: 95min.

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