Crítica | Shovel Knight

estrelas 5,0

Inspirado em games do saudoso Nintendinho, Shovel Knight é um dos melhores exemplos de quando este tom nostálgico toma corpo em um game que vai além do objetivo mais óbvio. Aqui, não basta retomar mecânicas, homenagens e o espírito de um passado clássico. Criando um universo imersivo e fazendo seu o estilo tomado de grandes obras, Shovel agradará tanto gamers antigos quanto aos novos que saibam apreciar o que faz de um jogo um game memorável.

E o que faz?

A trinca jogabilidade, gráficos e história resume bem um senso comum sobre um game em uma era onde os mais conceituados jogos repousam exatamente em algum destes fatores. Evidentemente, nas entrelinhas destes alicerces há mais a se considerar: ambientação, imersão, ritmo, recompensa, desafio…tudo, em suma, presente no jogo aqui analisado. E ressalto isso porque os jogos independentes, mesmo os mais conceituados e revolucionários como Braid, Journey, Limbo entre outros, normalmente tendem a ignorar um ou dois destes fatores, resgatando o tom retrô mas modernizando-o, até para gerar ideias diferentes na indústria em detrimento da prioridade dada para a diversão da mesma época retrô. Shovel Knight não comete estes desvios.

Controlando o personagem que dá nome ao jogo, pulando, andando e atacando, você é colocado em cenário pseudo medieval como o típico cavaleiro honrado, em busca da chamada Shield Knight, companheira de sempre, sequestrada pela vilã The Enchantress. É possível citar uma série de games que são homenageados aqui, mas lembrarei apenas de Duck Tales, Castlevania e Mario como os mais óbvios, seja no estilo de jogabilidade, seja no mapa não linear apresentado.

É neste contexto que você enfrentará vilões com “cara” de clássicos, compostos por diversos Knights de uma ordem vilanesca com diversas habilidades, desafios e design extremamente bem-feitos, sendo quase todos inesquecíveis. É nesse sentido que os NPCs, como o bardo que toca as músicas que se pede, e também os viajantes que o desafiam para lutas, conseguem deixar o game imersivo e desafiador por todas as oito horas, em média, que toma do tempo jogador. Trata-se de um conjunto bem realizado em sua totalidade, já que o level design, além de clássico – com as fases da água, do fogo, da floresta… – sempre traz novidades em paralelo com os incríveis upgrades que são possíveis de serem comprados por itens coletados durante as fases. Além de ganhar habilidades, o game te obriga a usá-las com ritmo que beira a perfeição, ditando uma aventura tradicional como conteúdo e como forma sem cansar o controlador. As próprias lutas de chefão abrem um ótimo leque de estratégias necessárias, ora usando magias, ora, desviando agilmente, ora força bruta.

shovelknight

Os gráficos de 8-bits não diminuem em nada a criatividade demonstrada nos chefões e nos -sub-chefes – falo aqui dos dragões, esfinges e esqueletos que vira e mexe aparecem. Ainda que os vilões básicos de cada fase tenham o modelo de personagem repetido, a distinta habilidade de cada um é capaz de gerar um desafio difícil na medida certa, como é, inclusive, todo o game. O manejo das mecânicas é que torna o jogador como principal fato diferencial, como todo game de plataforma e de ação deve provocar. Isso fica claro nos encontros contra Black Knight.

Um dos pontos cruciais do sucesso de Shovel há alguns anos foi sua ambientação. Entretenimento e clima medieval, com linhas de roteiro bem colocadas, ainda que estas não sejam o foco, e pontuais cenas pós-chefão envolvendo sonhos do cavaleiro com a Shield Knight conseguiram, em geral, trazer um aspecto emocional sem tirar o brilho da diversão, este sim, alicerce do jogo inteiro. A diversão que digo é no sentido mais velho possível do termo quando se fala de videogame: algo que continuamente absorve sua total atenção com fluidez e uma história interessante, tipicamente de um Super Mario ou de Indiana Jones.

Não poderia deixar de citar, certamente, a trilha sonora do game, uma das melhores dos últimos tempos e que prova um ponto que venho discutindo comigo mesmo há uns anos: se o tema da fase de água de um game é inesquecível, acredite, o jogo inteiro também será. A Thousand Leagues Below (Iron Whale) é uma amostra dos brilhantes e incansáveis temas criados para este jogo por Jake Kaufman e Manami Matsumae, seguindo um estilo variado que acorda bem com cada fase. Nada muito triste nem alegre demais nas melodias, demonstradas em 8 bits que certamente tornar-se-iam clássicos caso o próprio jogo tivesse sido lançado há mais de vinte anos atrás.

Barato, além de tudo, com versões e novidades distintas dependendo da plataforma – esta crítica é baseada na versão de PC – e com um fator de replay louvável, Shovel Knight é um daqueles clássicos que figurarão entre tops 10 de jogos indie por um bom tempo. Nada mais merecido do que uma posição fantástica para este fantástico game, em todos os seus aspectos.

Obs.: Essa singela crítica vai em homenagem ao nosso Handerson, que recomendou o game faz meses e esperou pacientemente! Fica claro, novamente, que suas recomendações não vêm a esmo, tanto musicalmente quanto ludicamente.

Shovel Knight
Desenvolvedor: Yacht Club Games
Lançamento: 26 de junho de 2014
Gênero: Ação/Plataforma
Disponível para: PC, Ps3, Ps4, Xbox One, Nintendo 3Ds, Nintendo WiiU

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.