Crítica | Sicario: Dia do Soldado

Sicario Terra de Ninguém surgiu pelas mãos de Dennis Villeneuve (já tão cheio de projetos bem-sucedidos até ali) e do roteirista Taylor Sheridan em sua estreia como um dos herdeiros do ainda estranhamente influente Traffic, do versátil Steven Soderbergh. Nas mãos da dupla Villeneuve e Sheridan, entretanto, a temática do tráfico internacional de drogas abandonou os exageros estilísticos de um Soderbergh e assumiu uma roupagem de crueza e dubiedade que enriquecia uma experiência, por si só e pelo esgotamento de seu tema, fadada a não nos apresentar novidade nenhuma.

E por mais bem sucedido que tenha sido entre a recepção da crítica e a aceitação do público, foi com estranhamento que uma sequência de Sicario foi anunciada, visto que nem mesmo a bilheteria havia sido das mais estimulantes (nada comparado a amargura posterior com Blade Runner 2049, por exemplo), assim como o próprio ciclo dos personagens já havia se encerrado em si mesmos, ou ao menos era o que parecia. E sem o dedo autoral de um Villeneuve por trás, que expectativa criar sobre uma sequência que claramente não se fazia necessária?

Sicario: Dia do Soldado é o reflexo de uma continuidade que até carrega muito mais estofo do que aparenta inicialmente, mas que carece do cuidado de alguém mais cadenciado atrás das câmeras e com maior preocupação pelo poder devastador das imagens (como esquecer a sequência da rodovia no primeiro filme?). Sheridan retorna novamente para o roteiro, o que garante coerência na expansão dos personagens dentro daquele mundo, que agora se vêem meio a uma guerra de cartéis no México e conflitos diplomáticos com os EUA. Josh Brolin (num momento explosivo de sua carreira com Guerra InfinitaDeadpool 2) e Benicio Del Toro (vencedor de um oscar justamente por… Traffic) reprisam seus papéis com a mesma intensidade furiosa da primeira vez, algo que o diretor italiano Stefano Sollima (oriundo da TV em produções como Gomorra) parece ter dificuldade em acompanhar com o mesmo talento contrastante de Villeneuve: se a construção absurdamente cadenciada da misé-èn-scene permitia com que as explosões dos protagonistas se tornassem ainda mais poderosas, Sollima acelera sua continuação de tal forma que Dia do Soldado se atrapalha nas pernas de uma narrativa sem muita conexão sensorial com o público, por mais que a identidade estética tenha sido mantida na fotografia do experiente Dariusz Wolski.

Dia do Soldado, entretanto, pouco ultrapassa o senso de uma mera exploração mais rasa dos mesmos temas que atravessaram o original de Villeneuve, e para Sollima, infelizmente, é quase impossível não retornar sempre a ele. Mas se tentarmos apontar méritos próprios, Sollima tem olho e tato para momentos competentes de tensão e filma com a perícia de alguém absorto na movimentação das cenas e no impacto das mesmas, como a sequência das explosões no supermercado. Mas fica nisso. O diretor ainda segue sendo sabotado quando o roteiro de Sheridan, inexplicavelmente, se equivoca na ligação entre os minutos iniciais e o que é plantado no filme à partir daí, uma vez que fica a impressão de que há dois segmentos que não se conectam e dificultam a aceitação do que se segue ao longo das duas horas de projeção. A edição de Matthew Newman também controla mal o tempo entre as cenas, o que condena o filme a uma estranha pressa nos acontecimentos, sobrando pouco para o espectador absorver os sentimentos da narrativa.

E nisso, fica essa impressão de que falta cuidado para Dia do Soldado, não é um projeto bem pensado seja enquanto sequência ou enquanto uma nova história dentro daquele universo, mas que explora as mesmas ideias com menos afinco. Brolin, Del Toro e a pequena Isabela Moner se colocam muito acima do projeto e são os grandes responsáveis pelo que há de mais competente dentro de um filme sem estofo e disfuncional no conjunto.

Sicario: Dia do Soldado (Sicario: Day of the Soldado) – EUA/México, 2018
Direção: Stefano Mollima
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Josh Brolin, Benicio Del Toro, Isabela Moner, Catherine Keener, Matthew Modine
Duração: 122 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.