Crítica | Sicario: Terra de Ninguém

estrelas 4

Através de Os Suspeitos, Denis Villeneuve já deu indícios de que seria capaz de trabalhar com diversos gêneros cinematográficos, tudo enquanto mantém a sua visível identidade narrativa, independente do quão diferentes sejam as histórias de seus filmes. É em Sicario: Terra de Ninguém, no entanto, que o diretor prova o quanto consegue sair, habilmente, de sua zona de conforto, entregando-nos seu filme mais hollywoodiano até então, por mais que o costumeiro foco no psicológico de seus personagens seja mantido nessa sua obra de 2015. Em todo caso, é impressionante como do subjetivo O Homem Duplicado, partimos para um longa sobre a guerra às drogas.

Essencialmente, porém, Sicario não é um filme sobre o narcotráfico em si e sim sobre os efeitos que esse eterno conflito entre as autoridades e os traficantes causam na agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt). Especializada em casos de sequestro em território americano, a agente é chamada para fazer parte de uma equipe cujo objetivo é cortar a cabeça da cobra, causando o caos que, espera-se, desestabilizará o tráfico no México, impactando, claro, a criminalidade nos EUA, principalmente nos estados do Sul. Durante as operações, contudo, Kate percebe que os métodos utilizados por essa misteriosa equipe, supostamente encabeçada por um agente da CIA, não são nada convencionais, colocando-os em uma posição não muito distante do próprio mal combatido por eles.

Desde cedo, Sicario prova ser uma obra extremamente claustrofóbica. Com planos mais fechados, que, em geral, seguem a protagonista, nos vemos em sua posição, sem saber se, a cada esquina, haverá alguém apontando uma arma para ela. Mais importante que essa tensão, porém, é como as emoções da personagem central são explicitadas e Emily Blunt certamente mostra a que veio, expressando no olhar todo o abalo psicológico passado por sua personagem ao longo da projeção. A própria retomada de seu hábito de fumar representa com bastante clareza sua crescente instabilidade emocional (perfeitamente justificada, é claro), algo que o texto de Taylor Sheridan chega a tornar expositivo demais, incluindo uma desnecessária fala do parceiro da protagonista sobre isso.

Villeneuve, porém, não deixa a nossa vida fácil e transmite ao espectador o dilema moral da personagem, que se traduz como principal questão dentro de sua narrativa: o que essa equipe formada pela CIA e FBI estão fazendo é correto? Analisando friamente, evidente que a resposta é negativa, visto que mais de uma vez eles ultrapassam qualquer jurisdição possível. Mas, mais de uma vez também, somos lembrados das ações dos cartéis mexicanos, que destroem vidas não somente no México, como nos Estados Unidos, abrindo, portanto, a velha dúvida: será que os fins justificam os meios? Da mesma forma que a protagonista, somos mantidos nesse dilema, sem jamais chegar a uma conclusão, visto que, mesmo após as ações dessa equipe, a violência continua como algo natural na região.

Mas, como já mencionado, o resultado não é o que está em jogo aqui e sim o desenvolvimento de Kate, cuja própria aparência vai se transformando ao longo da obra. Não muito diferente, temos o personagem interpretado por Benicio del Toro. O que muda nele, porém, é a nossa percepção em relação a ele e não sua atitude ou visual – dessa forma, o enxergamos primeiro como alguém misterioso, depois uma presença reconfortante, para terminarmos o filme vendo-o como uma figura implacável e violenta, ponto salientado tanto pelas múltiplas execuções próximas ao fim quanto pela impactante cena entre ele e Kate.

Essencial para a formação de toda essa tensão, temos a fotografia de Roger Deakins, que cria a tão necessária atmosfera de isolamento e opressão sentida durante todo o filme. Deakins, em diversos trechos, nos faz sentir como se estivéssemos no meio de uma guerra, com a expectativa sendo criada de maneira exemplar, com Villeneuve mantendo certos planos por mais tempo, de tal maneira que chegamos a ansiar pelo corte, sem saber exatamente o que acontecerá. Esse ponto é, ainda, amplificado pelo pouco uso de luzes não-naturais, com poucas fontes artificiais sendo utilizadas de maneira mais cirúrgica – a intenção não era tornar tudo o mais visível possível e sim transmitir o naturalismo tão evidente nas imagens do longa, aspecto que dialoga com a própria carreira de Deakins, iniciada nos documentários.

Com tudo isso em mente, fica bastante fácil enxergar o que há fora do lugar em Sicario. Refiro-me ao ocasional foco no policial mexicano, clara tentativa de mostrar o “outro lado” da guerra às drogas e como ela acaba afetando diretamente a população mexicana, esteja o indivíduo envolvido com o tráfico ou não. Enquanto que a premissa prova ser interessante, a execução soa como um elemento fora de contexto, que nos distancia da protagonista, proporcionando pontuais rupturas no ritmo da narrativa – nada gritante, mas que incomoda, especialmente no fim, quando a “recompensa” do espectador não é a esperada, possuindo muito menos impacto que o desfecho do arco de Macer.

Esse deslize, porém, é apenas um detalhe dentro do opressor naturalismo de Sicario: Terra de Ninguém, que prova, de uma vez por todas, que Denis Villeneuve é capaz de sair de sua zona de conforto, abordando temáticas muito distintas daquelas que marcaram os primórdios de sua carreira cinematográfica. Com fortes atuações, magistral trabalho fotográfico e direção impecável, o longa somente peca, muito raramente, em trechos de seu roteiro e, mesmo com esses problemas, somos deixados impactados ao término da projeção.

Sicario: Terra de Ninguém (Sicario) — EUA, 2015
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro:
Taylor Sheridan
Elenco:
Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan, Julio Cedillo, Raoul Trujillo
Duração:
121 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.