Crítica | Sicario: Terra de Ninguém

Toda guerra é composta por pessoas. Cada tiro disparado afeta uma vida, gerando uma cadeia de consequências irreparáveis. Em 1971, o presidente estadunidense Richard Nixon iniciou a Guerra contra as drogas, declarando, em uma convenção da ONU, ser o “inimigo público número um”. Já na década de 80, o presidente Ronald Reagan tomou medidas mais combativas, investindo cerca de US$ 1,7 bilhão no combate às drogas. De lá para cá, milhares de vidas foram perdidas, famílias destruídas, de ambos os lados, e o poder dos traficantes permaneceu exatamente o mesmo. Essa guerra continua até hoje e não há previsão para acabar, pelo menos, enquanto os governos continuarem tratando a droga como um problema policial e não de saúde pública.

Em Sicario: Terra de Ninguém, o diretor Denis Villeneuve, através do roteiro escrito por Taylor Sheridan, utiliza esse ambiente de guerra às drogas e explora justamente aquilo que a mídia e os próprios governos preferem ignorar, as vidas em meio ao caos, aproveitando sua obra para tecer críticas ao grande responsável por essa guerra: o sistema.

O filme apresenta Kate Macer (Emily Blunt), uma agente idealista do FBI que está inscrita em uma força-tarefa de elite do governo para ajudar na crescente guerra contra as drogas, focalizada na região da fronteira com o México. Essa equipe é liderada por Matt Graver (Josh Brolin), um agente enigmático com um passado questionável. Além disso, para traçar estratégias contra um poderoso cartel mexicano, Matt pede auxílio para outro homem com história dúbia, seu consultor Alejandro (Benício del Toro). Assim, a força-tarefa sai em uma jornada clandestina, forçando Kate a questionar tudo o que ela acredita a fim de sobreviver.

De maneira inteligente, o roteiro coloca-nos em uma situação tão desconcertante quanto a da protagonista, uma vez que, assim como ela, não sabemos os objetivos da força-tarefa liderada por Matt e tampouco os limites de seus métodos. Esse elemento torna-se um prato cheio para o diretor Denis Villeneuve, utilizando o suspense para fazer o espectador questionar-se o tempo todo. Inclusive, os ambientes repletos de poeira dão a sensação de uma tensão latente.

No primeiro ato, em uma brilhante sequência filmada dentro de um carro, Sicario apresenta o brutal impacto da guerra às drogas em Juárez, uma pequena cidade mexicana, com direito a corpos decepados expostos a luz do dia, destacando como a vida real das pessoas é influenciada. Ademais, é brilhante a ideia do roteiro de mostrar, durante poucos minutos, a rotina de um policial mexicano, ressaltando justamente o que foi dito no início, uma guerra é composta por vidas reais e, no fim, ninguém sai ileso.

Quando vemos as condições de Juárez em meio ao tráfico, Villeneuve nos faz refletir como Kate: vale a pena ultrapassar barreiras legais para tentar acabar com tamanho terror? Felizmente, o roteirista Taylor Sheridan escapa do completo ufanismo que a obra poderia ter ao colocar os Estados Unidos no papel de polícia do planeta. Pelo contrário, Sicario escancara como o objetivo dos estadunidenses nunca foi erradicar a droga, afinal de contas, essa já é uma batalha perdida; o real objetivo dos americanos é ter o controle sobre o tráfico de drogas. Se é necessária a existência de um narcotraficante, que ele seja colaborador dos Estados Unidos e mate apenas pessoas do outro lado da fronteira, deixando os americanos em paz.

Aliás, no primoroso clímax da obra, o roteiro traz um traficante mexicano dizendo: “Você acha que as pessoas que o enviaram aqui, são diferentes? De quem acha que aprendemos?”. Portanto, Sicario bate em cheio no real responsável pelo caos gerado com a guerra contra as drogas, o já citado sistema.

Além disso, quando se trata dos personagens, o roteiro acerta ao desenvolver ótimos arcos para Kate e Alejandro, ao passo que Matt permanece com seu ar misterioso e debochado até o final da obra, quase como uma representação do sistema que defende. Kate inicia o longa como uma agente convicta e pronta para acatar ordens de seus superiores, porém, ela se desgasta a cada informação nova que recebe sobre a operação, como o desrespeito a jurisdições internacionais, até que, no fim, encontra-se totalmente descrente com aquilo que um dia acreditou. Seu arco é duro, pessimista, mas construído com primor, também graças a grande atuação de Emily Blunt, que demonstra a mudança de Kate com perfeição.

Contudo, apesar de Kate ser a protagonista, é interessante a maneira como o roteiro explora Alejandro. O personagem parte de um homem misterioso que, praticamente, assume o protagonismo no terceiro ato, quando finalmente conhecemos seus objetivos pessoais na operação. Aliás, Benício del Toro tem aqui uma das grandes interpretações de sua carreira, apresentando uma composição contida, mas que evidencia toda a dor de Alejandro em cada pequeno gesto ou na voz mansa.

Sobre o trabalho do diretor, a estratégia de Villeneuve para destacar o aumento do pessimismo da protagonista com os métodos da força-tarefa é escurecer a paleta de cores gradativamente. Perceba como, na primeira reunião de Kate com Matt, o ambiente é envidraçado e iluminado; já na reunião seguinte, com a equipe do novo líder, eles reúnem-se em um local escuro e com pequenas faixas de luz saindo pela janela, destacando a natureza clandestina daquilo. Seguindo nessa linha, no clímax, o diretor mergulha o espectador no completo breu, recorrendo a câmeras noturnas e de calor, dando ares realmente obscuros para o filme.

Já para criar a atmosfera latente de dúvida e suspense, Villeneuve intercalada planos gerais com close-ups, ressaltando o isolamento da protagonista, mas também sua tensão estampada no rosto. Falando na fotografia, o fotógrafo Roger Deakins enquadra o céu e as paisagens como poucos, dando cores que ressaltam bem o estado de espírito dos personagens, como o azul, bege ou vermelho. Aliás, os planos em contraluz evocam o lado sombrio da operação. Ademais, o compositor Jóhann Jóhannsson é impecável ao criar tensão e um certo senso de urgência com sua trilha sonora repleta de batidas repetidas. Vale destacar também o figurino, que destaca o aumento do desgaste de Kate com o escurecimento de suas vestimentas.

Na obra de maior escala até então em sua carreira, Denis Villeneuve mostra em Sicario que é talentoso mesmo fora de sua zona de conforto, construindo uma obra madura e contundente em suas críticas, além de apresentar bons arcos para os protagonistas. O nome de Villeneuve veio, definitivamente, para ficar.

Sicario: Terra de Ninguém – EUA, 2015
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Emily Blunt, Benicio del Toro, Josh Brolin, Daniel Kaluuya, Maximiliano Hernández, Victor Garber, Jon Bernthal, Jeffrey Donovan, Jaoul Trujillo, Julio Cedillo, Hank Rogerson, Bernardo P. Saracino
Duração: 121 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.