Crítica | Sicario – Terra de Ninguém

sicario terra de ninguém

estrelas 4

Denis Villeneuve pode muito bem ter sido um dos primeiros diretores estrangeiros a experimentar a receptividade de Hollywood para os cineastas independentes da vanguarda atual que demonstraram talento e potencial econômico. Dessa lista, também temos Gareth Edwards que ficou com Godzilla e Colin Trevorrow com Jurassic World. E, claro, Josh Trank que afundou sua carreira com Quarteto Fantástico.

Porém, ao contrário desses diretores da nova leva, Villeneuve já demonstra mais tino cinematográfico, uma alta dose de trabalho autoral – este, concentrado no suspense com requintes estilísticos visuais e sonoros. Com apenas três longas nessa fase hollywoodiana, o canadense já pode aparecer do lado de nomes como Hitchcock e David Fincher em algumas listinhas como um verdadeiro mestre do gênero.

Aqui em Sicario, Villeneuve trabalha em cima do roteiro do estreante Taylor Sheridan – ator do seriado Sons of Anarchy, que traz uma história normal sobre um tema que já foi amplamente explorado por filmes e seriados: os cartéis mexicanos que comandam o tráfico de drogas.

O filme apresenta a história de Kate Mancer, uma agente do FBI que trabalha em conjunto ao esquadrão antissequestro da SWAT. Graças à sua competência e ao resultado inesperado de uma missão, a agente é chamada para trabalhar em uma divisão nova da CIA que está concentrada em derrubar o mais temido e violento chefão do narcotráfico do cartel da cidade de Juárez, próxima à fronteira México-EUA. Nessa divisão, ela terá que aprender a trabalhar com os agentes Alejandro e Matt que utilizam métodos nada ortodoxos

Apesar do setting ser sempre interessante e generoso para novas ideias – exemplo disso é Breaking Bad, Sheridan, seja por inexperiência – é seu primeiro roteiro, ou por quaisquer outros motivos, é um roteirista falho. A forma que ele opta por contar a história é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que a trama cresce em sua cabeça, aumentando sua expectativa, ela vai se tornando mais frágil em sua lógica e sacrifica muito de seu desenvolvimento para dar lugar a uma conclusão média, uma apresentação razoável do antagonista, uma reviravolta padrão e nada impactante. Ou seja, ao meu ver, a texto mais perde do que ganha.

Isso acontece por uma escolha muito simples: o espectador só tem ciência dos fatos na medida que a personagem de Emily Blunt vai mendigando informações para Josh Brolin e Benicio Del Toro. E, acredite, isso acontece durante o filme todo. Aqui não temos a revelação pelo visual, mas sempre pela exposição que é jogada para Kate em meio a um diálogo morno que acaba não surpreendendo ninguém – bom, fora a protagonista. Além disso, seu parceiro do FBI, Reggie é tão mal elaborado  que nem chega a ter um desfecho satisfatório. Simplesmente desaparece no fim do longa.

Com essa escolha, ela vira uma personagem de uma nota só. Existem diversas cenas para exibir o descontentamento de Kate com os rumos duvidosos que a operação vai tomando. Isso é constante, porém o arco da personagem é estruturado corretamente. Há a catarse, de modo contido, mas já vimos casos semelhantes com diversos tipos de personagens em inúmeros outros filmes que passam pela mesmíssima fórmula de roteiro realizadas de maneiras muito superiores. Aqui, simplesmente não há o impacto esperado – é manjado demais. Está mais para um tapinha nas costas.

Infelizmente, não é somente a personagem de Blunt que sofre na mão do texto. Esse formato conseguiu detonar a complexidade de praticamente todos os personagens que carecem muito de desenvolvimento. Se não fossem as atuações excelentes de Emily Blunt, Josh Brolin e Benicio Del Toro, eles mal conseguiriam cativar, não haveria empatia e você pouco se lixaria para o destino deles.

Felizmente, Blunt adiciona camadas para Kate, apesar do texto terrorista. Blunt demonstra coragem e medo. Força e fragilidade. Segurança e vulnerabilidade. É uma atuação que reforça a luta interna e a desconstrução da crença da personagem. Pena que o desfecho de seu arco seja fraquíssimo.

Já Josh Brolin acaba funcionando mais como um alívio cômico classe A. O ator é refinadíssimo na canalhice de Matt. Extremamente funcional, Brolin consegue distrair a tal ponto que nem percebemos como diversos dos diálogos entre ele e Blunt são parecidos – Blunt pede informações sobre a missão, Brolin faz piada e desconversa, Blunt fica irritada e faz uma ameaça, Brolin mente com outra piada, pede para ela aprender e a deixa falando sozinha.

O destaque mesmo fica por conta de Benicio Del Toro que reforça a imagem do ator formidável que ele é. Seu personagem, o mais desenvolvido, é um enigma. Fala pouco, tem olhar cansado, pavio curto, extremamente ameaçador e genial. Arrisco-me a dizer que ele pode tirar uma indicação ao Oscar como ator coadjuvante. O trabalho é muito rico e a trama que envolve seu arco te mantém acordado, mas também não espere algo grandioso. Mesmo com ele, o texto é clichê, mas a reviravolta agrada e faz alusão direta ao título do filme.

Além dos personagens razoáveis, poucos plot twists e a previsibilidade aguda que o texto sofre, Sheridan ainda investe tempo em uma subtrama paralela completamente inútil. Ela acompanha um policial mexicano e sua família. A mensagem que ele tenta transmitir aqui também é fraca, mal alocada e clichê – lembrando que não acho resoluções clichês um demérito desde que sejam bem desenvolvidas e tenham um bom propósito. Esse arco é tão fraco que pode ser facilmente esquecido após o termino da sessão. É simplesmente ineficaz porque, novamente, não criamos vínculo algum com estes personagens.

Com uma história fraca dessas, já daria para imaginar que se trata de apenas um filme razoável sobre tráfico de drogas e do fracasso das instituições. Entretanto, temos o fator X que vira o jogo e torna esse texto medíocre em um filme muito bom. Esse fator é Denis Villeneuve, o diretor mais promissor da nova leva.

Após sair de dois excelentes longas, Incêndios e Os Suspeitos – filme que considero o melhor de 2013, Villeneuve consolida de vez sua posição autoral na direção cinematográfica de Sicario. Para quem não conhece, o canadense adora trabalhar com thrillers de suspense, com tramas densas e complexas. Mesmo que esse filme falhe no texto, o diretor lhe conferiu uma estética elegante e aprimorou ainda mais a sua impecável construção de atmosfera.

Como autor, Villeneuve opta por alguns planos gerais abertos distantes dos personagens, algo que já havia trabalhado em Os Suspeitos. Como de costume, suas composições são ricas, visualmente simétricas e equilibradas. Oras, em termos plásticos, Villeneuve é tão bom quanto David Fincher. Assistir à um filme deles é se deliciar com planos fantásticos do início ao fim.

Não somente pela indubitável competência e apuro estético do diretor que Sicario é belo. Villeneuve trabalha mais uma vez com um dos maiores diretores de fotografia da atualidade – Roger Deakins. Infelizmente, conferi o filme em uma projeção bem aquém da média o que prejudicou com toda a certeza a análise da cinematografia. Porém, conferindo clipes e trailers com a união do que julguei adequado pela projeção, é possível afirmar que novamente Deakins surpreende e que deve ganhar sua 13 indicação – e, provavelmente, perder, de novo, para Lubezki por O Regresso.

Aparentemente, o DF diminuiu a intensidade da correção cromática que ele tanto se dedicava na pós-produção de seus trabalhos. É  interessante notar como as cores são dessaturadas nas cenas diurnas enquanto nas noturnas, o amarelo predomina se tornando mais vívido e potente. Aqui, Deakins trabalha intensamente com um estilo naturalista que predomina nas cenas externas. Ele aproveita de tudo: pôr do Sol, lusco-fusco, Sol a pino e o Sol menos agressivo da tarde. A locação colabora muito – o filme se passa no Arizona e sua zona árida, mas lembro que fotografar em local de deserto, seja de areia ou neve, é sempre sinônimo de dor de cabeça. Mas estamos falando de Deakins aqui. O domínio sobre a câmera é avassalador e o resultado, espetacular. Não temos imagens estouradas de céu ou areia. Tudo sempre na exposição correta sem prejudicar um pingo da key light para os atores. Existem momentos que, mesmo na contraluz, Deakins ajusta o diafragma da câmera de tal modo, que a luz principal para os atores não é comprometida – lembrando que isso só é possível em alguns horários muito específicos do dia.

Falando em contraluzes, novamente, assim como em Skyfall, Bravura Indômita e Os Suspeitos, Deakins refina ainda mais sua principal técnica autoral. As silhuetas moldadas por ele, seja no pôr do Sol ou no lusco-fusco, são extremamente belas. Aqui, em um dos diversos momentos que ele utiliza a técnica, transmite o negro que preenche os soldados que marcham antes da operação final. Sombrio, poético, maravilhoso. Além disso, três nuvens esguias preenchem o teto da composição sendo impossível não assemelhar seus formatos com carreirinhas de cocaína. É algo simplesmente divino que só o cinema pode proporcionar.

Nas internas, Deakins trata a luz com ainda mais delicadeza. A predominância é sempre da soft light, difusa, clean. Assim como em Os Suspeitos, o cinematografista dá preferência para um posicionamento único da key light para gerar um tom sombrio no rosto dos atores. Há uma sutil queda proposital da luz de preenchimento para isso. Somente para iluminar o ator Daniel Kaluuya que Deakins não agrada tanto – seja proposital ou não. Falta luz de preenchimento para o rosto do ator que muitas vezes acaba quase com um dos olhos totalmente ocultado pelas sombras.

Villeneuve também usa Deakins para algumas novidades, umas bem-vindas, outras nem tanto. Uma das boas novidades é o uso constante de diversos planos aéreos que mostram a vastidão dos subúrbios e das paisagens naturais. Alguns, azimutais, que não ficam chapados apesar da inclinação total da câmera em noventa graus – quase um estudo da topografia do Arizona e do Texas. As outras duas novidades, por mais justificadas que sejam, considero falhas, pois sacrificam um ótimo trabalho de silhuetas que poderia ser gerado nessas cenas. No caso, Villeneuve faz Deakins utilizar câmeras de visão térmica e noturna. O resultado é interessante, mas no caso da noturna, resulta em uma imagem com ruído alto detonando a foto belíssima construída até aqui.

Para criar a tensão crescente característica de seus filmes, Villeneuve sempre movimenta a câmera com notável cuidado – travellings laterais e panorâmicas lentas, sucintas e suaves, enquanto sustenta o plano por um bom tempo – o corte, na teoria, alivia a tensão para o espectador. Outra marca autoral presente é a decupagem sempre muito equilibrada para as muitas cenas que acontecem em interiores de veículos. Acredite, Villeneuve domina o ritmo e a linguagem como ninguém durante essas cenas. Isso chega ao ápice quando nos deparamos com a melhor sequência do filme todo: a extração de um prisioneiro na cidade de Juárez.

O diretor cria uma atmosfera tão aterradora que a cidade infernal vira um personagem vivo e muito ameaçador. Só que não é apenas pelo visual estonteante do caos, da decupagem bem planejada e do ritmo perfeito da cena, mas sim pelo âmbito sonoro. Villeneuve é um verdadeiro diretor de cinema no sentido mais clássico do termo. Ele se preocupa muito além da plasticidade visual.

O som é um dos instrumentos pensados com tanto cuidado que assim como Os Suspeitos, Sicario termina com o ótimo uso do som para agregar à linguagem. Um final tão agridoce quanto. Em outras cenas, é possível perceber como ele utiliza para resolver algumas deficiências do roteiro – isso acontece na cena do jatinho enquanto Alejandro tirar uma soneca, repare.

Além da edição de som quebrar a mesmice, Villeneuve tem o auxílio da trilha musical esplendida de Jóhann Jóhannsson para fortalecer a atmosfera e lhe deixar na beira da poltrona. A música aqui tem base em ritmos constantes de percussão, no caso, no uso do som abafado e onipotente dos surdos e tímpanos. Obviamente, Jóhannsson não se limita apenas com membranofones e sintetizadores bem utilizados. As composições são constituídas de ritmos cíclicos, viciosos e padronizados que crescem e crescem e crescem e crescem até não poder mais. É como se o espectador se defrontasse com uma ameaça perigosíssima, cruel, sanguinária e gigantesca. Não é por menos que a música reflete o temor que há com a figura emblemática dos cartéis mexicanos.

Para realizar esse efeito, Jóhannsson usa com muita racionalidade seus ritmos certeiros na percussão, no choro melancólico dos violinos que lutam para existir na música enquanto são interrompidos pela violência súbita dos violoncelos que por sua vez são engolidos pelo sopro grave dos sousafones e das tubas. A estrutura de sua partitura é fantástica. Digamos que é possível “ouvir” a matemática por trás dos temas aterrorizantes.

Sicario – Terra de Ninguém é um filme muito acima da média e certamente um dos melhores do ano. Taylor Sheridan teve uma sorte enorme ao ter Denis Villeneuve para dirigir logo seu primeiro roteiro. Com tamanho domínio da técnica e do senso artístico, é difícil reparar na fragilidade do texto decepcionante. Temos aqui o clássico caso da forma que supera o conteúdo. Não somente a direção salva, mas também o elenco afiadíssimo contando com o excepcional Benicio Del Toro, além da cinematografia sempre espetacular de Roger Deakins e da trilha musical perfeita de Jóhann Jóhannsson. O que te recomendo, é que vá sem grandes expectativas para a história de Sicario. Na verdade, nem ligue para ela, pois se não fossem os atores, você pouco se importaria pelos personagens – isso também é discutível, pois mesmo com as atuações, eu não senti empatia por nenhum deles.

Apenas faça como Matt diversas vezes diz para Kate: “Olhe e aprenda”. De fato, Sicario é uma das melhores aulas de cinema que se pode conseguir hoje.

Sicario – Terra de Ninguém (Sicario, EUA, 2015)
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro:
Taylor Sheridan
Elenco:
Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan, Julio Cedillo, Raoul Trujillo
Duração:
121 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.