Crítica | Sid Meier’s Civilization VI

estrelas 4,5

Iniciada em 1991, a franquia Civilization definiu os games de estratégia em turnos 4X, que basicamente leva para as telas dos computadores os velhos jogos de tabuleiro (com um escopo, em geral, muito maior, é claro). Não posso sequer chutar a quantidade de horas que gastei nas três últimas entradas da franquia, Civilization IVV e Beyond Earth, que conta com a mesma engine de seu antecessor. Não é preciso dizer, portanto, que a ansiedade para conferir o lançamento, Civilization VI tomou conta de mim. Com grandes expectativas mergulhei horas e horas, experimentando cada um dos líderes e diferentes tipos de vitória para escrever essa crítica e já adianto que as expectativas foram superadas.

O game teve sua engine construída do zero, com a promessa de nos entregar um jogo que enxerguemos como diferente desde os primeiros minutos. Definitivamente esse sentimento é imediato. O menu inicial já evidencia o zelo da Firaxis com a interface da obra. Tudo é exibido com bastante clareza, mas isso não quer dizer que estejamos diante de um game simples. Civilization VI conta com uma curva de aprendizado muito maior que seu antecessor e é preciso, ao menos, boas dez horas dentro desse mundo para que nos habituemos com todos os seus recursos. Para quem, como eu, é veterano da série esse aprendizado vem mais rapidamente, mas ainda assim exige um certo esforço por parte do jogador.

E isso não é algo ruim – acima de tudo, Civilization é um game para se pensar e é justamente o que ele nos pede. Embora as formas de se vencer cada partida permaneçam semelhantes, muito mais detalhes foram inseridos no tabuleiro. Mas antes irei explicar o objetivo do jogo para os iniciantes da franquia. O objetivo é superar as outras civilizações através de um foco específico: ciência, cultura, religião, dominação ou pontos. Para isso, escolhemos um líder histórico específico, que vai desde Gilgamesh, da Suméria (que o jogo deixa claro sobre a sua duvidável existência), até a Rainha Vitória da Inglaterra. Cada uma dessas personalidades, representando um determinado país ou império, conta com habilidades e unidades específicas, que facilitam um determinado tipo de vitória – Pedro II, do Brasil, por exemplo, favorece a vitória cultural, enquanto Trajano, de Roma, pode ser uma boa para atingir a dominação global.

É importante ressaltar, porém, que, embora seja mais hardcore, que a entrada anterior da série, Civilization VI permite uma liberdade maior nos tipos de vitória – certo líder não precisa necessariamente seguir um tipo específico de vitória. É um jogo de estratégia, afinal e tudo vale, contanto que os seus planos funcionem. Portanto, se sua vitória cultural não parece uma realidade tão próxima assim, nada o impede de partir para os avanços científicos ou de simplesmente acabar com as civilizações mais avançadas culturalmente que você. Desses modos de se vencer, apenas a religiosa soa rasa demais, se limitando a conversão manual das cidades de outras civilizações, o que pode ser uma tarefa um tanto quanto enfadonha – felizmente, temos a possibilidade de iniciar uma guerra religiosa, nos oferecendo mais usos para os inquisidores, missionários e apóstolos que podemos adquirir. E já que entramos na guerra, o jogo, felizmente, não prejudica tanto os jogadores que pretendem seguir por esse caminho – o problema de se entrar em guerra é que isso pode acabar com suas relações diplomáticas com terceiros, visto que o mundo irá enxergá-lo como um mal a ser combatido.

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Dito isso, a interação com os npcs do jogo melhorou consideravelmente – é preciso estudar seu oponente antes de realizar qualquer ação em seu império, especialmente se você quer que todos gostem de sua civilização. Um ato como fundar uma cidade muito próximo de um deles pode provocar um conflito de interesses, que, por sua vez, pode escalar para uma guerra. Da mesma forma, um investimento pesado na militarização pode deixar os outros receosos. Estamos diante de um game que preza o equilíbrio e este é tão instável quanto na vida real – a qualquer momento algo pode dar muito errado, desde o ataque surpresa de outro líder, até uma invasão de bárbaros, que, aqui, estão muito mais agressivos que no jogo anterior, forçando o jogador a planejar suas defesas contra esses indivíduos.

Com esse aspecto em mente, se seus turnos estão durando pouco tempo nas partidas mais avançadas de Civilization VI, então certamente você está deixando algo de lado. É preciso estar atento não somente ao funcionamento interno de seu império, como sua política externa. Dificuldades mais avançadas pedem um cuidado maior com o quadro de vitórias, que mostra o quão perto está cada civilização de alcançar seu objetivo. Ignorar isso pode provocar uma repentina mudança da sua tela para a animação de derrota, o que certamente fará você cuspir na tela depois de ter desperdiçado horas e mais horas de sua vida. Nesse quesito, o game não é diferente de seus antecessores: cada partida, mesmo nas maiores velocidades, costuma durar, no mínimo, quatro horas – felizmente podemos salvar e continuar o jogo em um momento posterior.

O interessante do game é a forma como a gestão de cada cidade foi reinventada. Agora podemos construir distritos dentro de nosso território e cada um confere um bônus específico para as cidades. O mesmo vale para as maravilhas do mundo, que não mais se limitam ao único hexágono da cidade em si e sim às telhas que envolvem o local. É preciso, portanto, analisar cautelosamente onde você deve construir suas novas cidades, tendo sempre em mente o foco do seu jogo. A vitória pode muito bem ser jogada fora pelo mau posicionamento de um distrito. Não há nada mais recompensante, porém, quando todo seu planejamento dá certo e você consegue exatamente o que quer.

Uma das mecânicas mais alteradas do jogo foi a forma como progredimos culturalmente. Agora contamos com uma árvore de avanços culturais e devemos escolher qual o próximo item a ser desenvolvido, da mesma forma que a ciência. Isso permite um controle maior da progressão de nosso império e oferece toneladas de novas possibilidades a serem exploradas. Ao mesmo tempo, um paralelo maior com a realidade é desenvolvido – uma civilização com um foco maior na ciência poderá construir unidades mais avançadas e estabelecimentos científicos mais rapidamente, enquanto que uma com um foco maior na cultura terá mais teatros, museus e pontos turísticos.

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Mas não foram somente as mecânicas que passaram por mudanças em Civilization VI, os gráficos foram totalmente remodelados, lembrando muito o que víamos no quarto game da franquia.  Todo o cenário soa como um grande mapa tridimensional, com as bordas não exploradas emulando a antiga cartografia. A simplicidade que percorre os menus está aqui presente, especialmente na mudança do estilo visual para um mais cartunesco, uma jogada certeira da Firaxis, que certamente visava uma abrangência maior de seu jogo, possibilitando que máquinas menos poderosos pudessem rodá-lo sem comprometer a beleza desse mundo. Para quem partiu de Civilization V a mudança será drástica e requer um tempo maior nessa transição do realismo para o estilo mais desenhado, mas nada que não seja possível superar.

Somado a isso, temos a fantástica narração de Sean Bean por trás dos avanços tecnológicos, telas de loading e construção de maravilhas do mundo. O ator, assim como William Morgan Sheppard e Leonard Nimoy, que o precederam nos games anteriores, não deixa a desejar e transmite todo o tom épico necessário à atmosfera do jogo, ao mesmo tempo que garante uma maior imersão do jogador, que passa a querer ouvir cada uma das explicações e flavor texts presentes durante as partidas. Aliado a essa narração, temos uma fantástica trilha sonora, que puxa diferentes estilos que condizem com a civilização que escolhemos e aquelas que estão presentes no mundo, tornando cada partida algo fácil e prazeroso de se desbravar.

A Firaxis novamente acertou em Sid Meier’s Civilization VI, um jogo com tantos recursos que chega a parecer como se inúmeros DLCs já tivessem sido lançados para ele. Definitivamente ele faz jus ao nome que a série estabelecera ao longo desses vinte e seis anos, nos entregando um game de estratégia 4X profundo, complexo e repleto de novas possibilidades, que irão cativar o novo público e reforçar a paixão dos veteranos da franquia. Se você é apreciador do gênero, prepare-se para gastar horas e horas de sua vida nessa experiência divertida e viciante.

Sid Meier’s Civilization VI
Desenvolvedor: Firaxis
Lançamento: 21 de outubro de 2016
Gênero: Estratégia
Disponível para: PC

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.