Crítica | Sierra Burgess é uma Loser

Contém spoilers! 
O que não significa nada, pois todo mundo sabe como uma obra dessa termina.

As comédias românticas da Netflix definitivamente viraram um grande conjunto de fanfics feitas por adolescentes, escrevendo os maiores contos fantásticos, em uma espécie de fetichismo extremamente ingênuo, assimilando relacionamentos “impossíveis” com os grandes malabarismos da vida. A fanfic da vez, contudo, está muito longe de ser, na base, uma fanfic, porque a inspiração é no espetáculo “Cyrano de Bergerac”, de 1897. Como o longa-metragem, redefinindo completamente a peça para o contemporâneo, tornou-se uma espécie de fanfic é justamente o grande ponto a ser criticado. A proposta de Sierra Burgess é uma Loser, antes de chegar a essa categorização, é interessante, assim como a obra teatral, obviamente. Ao notarmos o nosso mundo como um conjunto de convenções, entendemos, mas devemos criticar, as imposições feitas não apenas aos outros, mas a nós mesmos. Sierra Burgess (Shannon Purser), pensando por esse lado, é uma perdedora. A personagem não é socialmente vista como bonita, apesar de, frente ao espelho, no início da obra, enxergamos nos seus olhos uma beleza ímpar. A personagem não é magra, algo que contrasta muito com a sua mãe, que não entende os percalços passados por sua filha. A personagem, aparentemente, por outro lado, é legal – só que ela não é.

“E um pouco de mandarim”, diz Sierra, comentando sobre as línguas que fala. A conselheira da escola, porém, com nenhum atributo de conselheira, julga que as habilidades de Sierra não são o suficiente para a aluna ganhar espaço no âmbito acadêmico. A personagem tem que estar envolvida nas mídias, aparecer para o mundo, como se não existisse outra forma, até mesmo mais difícil, de vencer esses obstáculos. Sierra Burgess é uma obra, de certa forma, pessimista, pois acredita no impossível, quando deveria, no entanto, acreditar na desconstrução do impossível. O enredo do longa-metragem, afinal, trabalha o relacionamento da protagonista com um garoto, que acredita, no entanto, que a pessoa do outro lado do celular, em um tipo de interação extremamente simbólica da sociedade pós-moderna, é Veronica (Kristine Froseth), patricinha bastante popular da escola e por quem ele verdadeiramente tem uma queda, das mais inofensivas desta época de adolescência. O filme mantém a mesma estrutura o longa-metragem inteiro, sem quebrar, previsivelmente, a ideia e criar o conflito na metade dela. A descoberta vem no clímax, seguida de um convencimento completamente bocó por parte do protagonista. O amor impossível é possível. O mais curioso é que as batidas clássicas seriam imensamente mais vantajosas para a história que o amor abrupto.

A grande carta na manga de Lindsey Beer, roteirista do filme – Ian Samuels, o diretor, aparenta ser um cineasta robô nessa produção, trabalhando mecanicamente -, é conseguir desconstruir todo o escopo atribuído alopradamente por fãs da celebridade à atriz Shannon Purser, amada em Stranger Things em decorrência do carinho dos espectadores pela sua personagem Barb, extremamente simpática. O roteiro do indivíduo, portanto, precisa ser realmente muito atroz para conseguir destruir uma construção de personalidade tão forte quanto a que foi, não muito tempo atrás, criada. Lindsey Beer faz o impossível. Sierra Burgess é uma personagem desconstruída, de uma mulher com inseguranças a uma mulher com inseguranças, mas que, em razão disso, ataca os outros. O problema não é o conflito de personalidades, pois humanos possuem defeitos e isso não os moldam integralmente, mas a nota estabelecida em última instância pelo longa-metragem, encerrando com a redescoberta do amor, justamente no momento em que ele deveria ser questionado. A maior questão deixada, dessa maneira, não é nem a moral vaga, mas a redefinição do sentimento do público pela personagem, que passará de uma leve aceitação, suficiente para seguirmos em frente, para um considerável desprezo, não apenas pela atitude, mas por todo o contexto dela.

Com a sagacidade sendo contrastada por uma completa improbidade, Sierra Burgess é uma Loser, no final das contas, tem aqueles mesmos clichês maniqueístas de outras produções similares, recentes e não recentes. Os personagens, bem menores, são nojentos. A obra tenta, todavia, quebrar as unidimensionalidades, mesmo sem entender nada sobre nada. A única grande decisão do longa é transformar Veronica, antipática garota popular, em amiga de Sierra, numa relação que surge do nada, com o roteiro forçando a barra para Veronica realmente precisar de Sierra, justamente ela, humilhada tantas vezes antes. O contrário, porém, funciona, pois Veronica passa a ajudar Sierra na relação dela com Jamey (Noah Centineo), ponto necessário para o desenrolar narrativo. A amizade, entretanto, é realmente funcional, crível, mas, justamente por ela ser assim, a queda, na reviravolta da trama, torna-se ainda mais vertiginosa. Quando a protagonista flagra Jamey beijando Veronica, o roteiro dá uma aula em como afastar um personagem do público, permitindo Sierra, abruptamente, expor uma “vergonha” da sua amiga para todos os alunos da escola. Sierra, mais do que ninguém, sabe o que é ser exposto. Uma atitude inadmissível para uma pessoa que, dias antes, permitiu a protagonista beijar Jamey – em outra fantasia fetichista.

A obra ainda tem a capacidade de ofender vários movimentos sociais, mesmo querendo bancar-se como o lançamento empoderado do momento, militante ou algo do tipo. Jamey, por exemplo, tem um irmão surdo. Sierra, por exemplo, tem um amigo negro e homossexual. O primeiro caso, ao menos, tem alguma vertente interessada em tornar Jamey uma figura mais simpática, consideravelmente próxima do seu eu de Para Todos os Garotos que Já Amei, mas, ao mesmo tempo, consideravelmente distante, tornando-se um genérico modelo de si mesmo. O segundo caso, todavia, exprime uma figura rasa, tão antipática quanto Veronica, parecendo ser um interminável exagero do ator RJ Cyler. A desonestidade com o espectador é gigantesca. O relacionamento amoroso é desinteressado em quebrar os padrões. Quem recupera Sierra é a sua voz, mais uma característica “inatingível” para muitos. Como fica o futuro da personagem? O mandarim ajudará em algo? Lindsey Beer parece ter-se esquecido disso e decide contar história através de texto, reiterando a completa perdição do seu próprio roteiro. Ninguém se importa. Uma fanfic, majoritariamente, é isso: uma tentativa de uma pessoa amadora escrever sobre algo, mesmo não tendo capacidade de inventar nada a não ser uma fantasia.

Sierra Burgess é uma Loser (Sierra Burgess is a Loser) – EUA, 07 de setembro de 2018
Direção: Ian Samuels
Roteiro: Lindsey Beer
Elenco: Shannon Purser, RJ Cyler, Noah Centineo, Kristine Froseth, Will Peltz, Lea Thompson, Alan Ruck, Loretta Devine, Chrissy Metz, Alice Lee, Giorgia Whigham, Mary Pat Gleason, Joey Morgan
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.