Crítica | Silêncio (Chinmoku – 1971)

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estrelas 3,5

A primeira adaptação cinematográfica de Silêncio, romance inspirado em fatos históricos escrito por Shūsaku Endō, ficou ao encargo de Masahiro Shinoda, diretor da chamada Nouvelle Vague japonesa, responsável por obras como Flor Seca, Assassinato e Guerra de Espiões, que co-escreveu o roteiro juntamente com Endō, algo que por si só é curioso, considerando-se as diversas alterações do filme em relação à obra original. O resultado é um filme que fascina pela sua temática, mas que potencialmente causa estranhamento ao espectador em razão de algumas escolhas de fundo e também estilísticas.

Enquanto o famoso romance lida com a história de dois jesuítas portugueses no século XVII que partem para o Japão para investigar se seu antigo mentor, que fora para lá 20 anos antes, havia, como os rumores afirmavam, cometido apostasia, a fita de Shinoda suprime essa informação essencial até bem mais adiante na projeção, retirando a maior motivação para a longa jornada dos padres. Aliás, a jornada em si também é suprimida, com a obra começando com Sebastião Rodrigues (David Lampson) e Francisco Garrpe (Don Kenny) já em terras japonesas guiados por Kichijiro (Mako) até um vilarejo em que vivem cristãos escondidos, para que eles passem, então, a atuar como padres aos sedentos devotos de uma religião proibida em seu país (mais detalhes sobre a contextualização histórica do filme o leitor encontrará na crítica do romance ou na da adaptação feita por Martin Scorsese).

Com essas modificações fundamentais, a presença de Rodrigues e Garrpe parece bem menos crucial e interessante, ainda que o filme ganhe, com isso, outros ares, muito mais voltados para a denúncia da condição sub-humana a que os japoneses cristãos eram expostos durante e após o expurgo capitaneado pelo xogunato com receio da influência ocidental sobre seu país. A atmosfera da obra, graças a uma fotografia quase fúnebre de Kazuo Miyagawa (responsável pela direção de fotografia de Rashomon e Yojimbo) que denuncia o desespero daquelas vidas sendo basicamente desperdiçadas ao mesmo tempo que prenuncia o terrível destino reservado aos jesuítas. É esse trabalho de iluminação natural, posicionamentos de câmera sempre na altura do olhar dos personagens e uma paleta de cores opaca, entristecida, que realmente chama atenção da obra, quase que evocando a atmosfera de obras de terror japonesas. Esse aspecto, aliás, é amplificado por uma trilha sonora marcante e de certa forma intrusiva de Tôru Takemitsu (que compôs as hipnotizantes peças de A Mulher da Areia Harakiri), que tem como função primordial manter o espectador inquieto e desconfortável.

Não fosse por algumas escolhas equivocadas de Miyagawa na paleta de cores efusiva demais em sequências que não pediam todo esse choque (como na imagem que ilustra a presente crítica), o trablho fotográfico poderia ter sido irretocável, mas, mesmo assim, ele, sozinho, já é razão suficiente para se apreciar o filme. Não que fora desse lado técnico o filme não seja apreciável, pois ele o é, mas é que as escolhas do roteiro em suavizar o objetivo da missão dos padres e de retirar Garrpe sem cerimônia ou um mínimo de explicação da narrativa – ainda que ele volte brevemente mais adiante -, além de inserir um epílogo estranho e divorciado da construção – ou desconstrução – de Rodrigues até aquele momento, podem distanciar os menos investidos na história que é impressionante por si só.

David Lampson, no papel de Rodrigues, funciona muito mais pelo seu biotipo – esguio, esquálido e com grandes olhos perdidos e desesperados – do que por sua capacidade dramática. O ator exagera na teatralidade e sua constante transição entre o inglês (substituindo o português, claro) e o japonês acaba por atrapalhar qualquer chance de naturalidade em seu trabalho (algo que, por exemplo, Christoph Waltz tira de letra em Bastardos Inglórios). Por outro lado, Mako convence bem como Kichijiro, o Judas Iscariotes para o Jesus Cristo de Rodrigues. O ator passa sua malícia doentia com uma dubiedade que leva o espectador a realmente duvidar dele. O roteiro, infelizmente, porém, retira muito de sua força ao reduzir seu tempo em oposição ao personagem de Lampson, criando quase que uma pequena história paralela dele em um prostíbulo, que afasta o que poderia ter sido uma obra a partir de um ponto-de-vista único.

Há, finalmente, uma escolha curiosa feita por Shinoda. Para viver o padre Cristóvão Ferreira, aquele que teria renunciado à fé cristã, ele escalou Tetsurô Tamba, ou seja, um japonês para viver um português. Em um primeiro momento, é estranhíssimo ver um oriental vivendo um ocidental, mas, não demora, e é possível compreender a decisão. Ferreira mostra seu lado fortemente japonês nos diálogos que tem mais ao final com Rodrigues e a imagem dele como um oriental fortalece essa mensagem, ainda que em nenhum momento o espectador consiga de verdade acreditar que aquele ali é um padre português. Funciona metaforicamente, mas sua presença facilita a quebra inadvertida da quarta parede, tornando o espectador auto-consciente sobre o que está vendo, o que, aqui, depõe contra a experiência.

Por outro lado, há momentos memoráveis, como a longa e angustiante sequência de tortura com um ex-samurai enterrado com apenas a cabeça de fora e um cavaleiro passando a toda por ele ou o diálogo entre Rodrigues e Inoue (Eiji Okada),o líder da inquisição, comparando o Japão e o Cristianismo com um homem com quatro concubinas. A tensão entre a fé cega, a verdade absoluta (de qualquer religião, que fique bem claro) e questões práticas do dia-a-dia como o ato de fazer o que for necessário para sobreviver (sem prejudicar terceiros) estão no âmago de qualquer devoto de qualquer religião. O acreditar somente por acreditar é posto em xeque e nenhuma resposta fácil ou pronta é dada.

Silêncio, assim como o romance, faz pensar. Não há didatismo no texto e as escolhas dos personagens parecem lógicas, por mais duras que sejam. A estrutura da fé acima de tudo sofre rachaduras pelos golpes dados por Shinoda e Endō e o martírio – há um claro paralelo com a Via Crucis – de Rodrigues ganha contornos cada vez mais fortes e desesperantes, tornando impossível desviar o olhar antes da projeção acabar.

Silêncio (Chinmoku, Japão – 1971)
Direção: Masahiro Shinoda
Roteiro: Masahiro Shinoda, Shūsaku Endō (baseado em romance de Shūsaku Endō)
Elenco: David Lampson, Don Kenny, Tetsurô Tamba, Mako, Shima Iwashita, Eiji Okada, Yoshiko Mita, Rokkô Toura, Yoshi Katô, Taiji Tonoyama, Noboru Matsuhashi, Yasunori Irikawa
Duração: 129 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.