Crítica | Silêncio, por Shūsaku Endō

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estrelas 5,0

Shūsaku Endō (1923-1996) foi um autor japonês que escrevia seus romances sob uma perspectiva única e curiosa, sendo considerado um dos grandes autores do país pós-Segunda Guerra Mundial. Diferente da maioria da população de seu país, ele foi batizado como católico aos 11 anos e o cristianismo foi a religião que ele acabou abraçando e que influenciaria seus mais importantes trabalhos. Silêncio, lançado em 1966 e normalmente considerado sua obra-prima, é um romance fictício inspirado por fatos históricos que aborda um período pouco estudado e conhecido da história japonesa, ainda que o mais famoso (no Ocidente) romance Xogum, de James Clavell, adaptado como minissérie, peça teatral e até para o cinema (uma verão encurtada da minissérie), se passe substancialmente na mesma época.

Mas, diferente de Xogum, mais focado na política do período e na ascensão do fictício Toranaga ao xogunato, Silêncio lida com a fé, abordando sua natureza, o que ela significa para quem acredita, o que é exatamente a apostasia e suas consequências e, talvez mais ainda, qual é o papel de Judas na história de Jesus Cristo. A narrativa lida com a viagem de dois jovens jesuítas portugueses (na verdade são três, mas um logo fica para trás) – Sebastião Rodrigues e Francisco Garrpe – ao Japão para investigar o que teria acontecido com o padre Cristóvão Ferreira, mentor deles que fora enviado para lá 20 anos antes e que rumores dizem que teria renunciado à religião católica. Rodrigues e Garrpe têm certeza que isso não aconteceu e lutam para conseguir autorização da Igreja para a perigosa e longuíssima viagem em um período conturbado para os cristãos no Japão.

O ano é 1639, ao final do expurgo cristão no País do Sol Nascente, já que as autoridades haviam identificado o relativamente rápido estabelecimento da Igreja Católica por lá como uma ameaça ao seu modo de vida e uma invasão do modo de vida europeu. No ponto alto da catequização iniciada por Franciso Xavier na primeira metade do século XVI, havia 300 mil convertidos por lá, um número considerável considerando a dificuldade da penetração da religião em outros países asiáticos. A partir do final do século XVI, portanto, padres e convertidos passaram a ser perseguidos em maior e menor escala, sendo torturados e mortos em uma verdadeira inquisição japonesa que quase que completamente acabou com o cristianismo por lá depois de 1620. O resquício da religião ficou adstrito a alguns poucos aldeões que mantinham a aparência externa de budistas, mas eram secretamente devotos aos ensinamentos da Bíblia.

Assim, quando os protagonistas da obra de Endō chegam clandestinamente ao país, depois de encontrarem um guia japonês chamada Kichijiro em Hong Kong, padres católicos inexistem por lá e eles são recebidos pelo vilarejo como grande alegria, mas também muita apreensão de serem descobertos pelas autoridades, especialmente pelo quase mítico Inoue, samurai responsável por ignomínias maléficas contra todos os que são devotos da religião proibida. A narrativa começa na forma de cartas enviadas por Rodrigues à sua diocese, relatando em detalhes sua jornada até o Japão e sua recepção. Vê-se esperança no que o padre escreve, em uma demonstração de humanidade que revela seu orgulho em achar-se importante para a vida dos aldeões, quase um pecaminoso húbris que ele não esconde em suas cartas. Ele e Garrpe têm que permanecer escondidos o dia todo em uma cabana nas montanhas, só saindo à noite para rezar missas, batizar crianças e ouvir confissões, em uma vida miserável, mas iluminada.

A partir da metade da obra, o ponto de vista é alterado – por necessidades narrativas – da primeira pessoa para a terceira pessoa, com Shūsaku Endō, então, usando um narrador padrão, frio e que apenas se limita a descrever os eventos. Aliás, é interessante notar como o autor é econômico no uso de palavras. Ele jamais se perde em longos detalhes descritivos sobre os arredores, sobre o que os personagens vêem, sobre a vida deles ali naquela região de beira-mar. Ele faz o suficiente para que o leitor possa capturar a essência do que Rodrigues vive: sua própria versão do sofrimento de Jesus Cristo. Isso jamais fica escondido ou mesmo nas entrelinhas do texto. Rodrigues é a versão, digamos, moderna de Cristo e ele até sente propósito justamente por isso. Seu martírio é justificado plenamente com base nos ensinamento de Deus. E Kichijiro, por outro lado, é literalmente enfocado como o segundo mais importante personagem da história, ocupando o lugar de Judas Iscariotes e mantido em plena e constante “oposição” a Rodrigues.

Reparem, porém, que as aspas são importantes, pois essa oposição – entre a fé e a renúncia da fé – pode e deve ser encarada como a força motriz para os acontecimentos de Silêncio e, de certa forma, dos eventos no Novo Testamento. Shūsaku Endō tenta nos passar sua própria leitura do flagelo de Cristo, colocando Judas como peça necessária para seu martírio e para suas lições. E o melhor é que seu texto, apesar de usar descrições fundamentalmente cristãs, funciona também fora dessa religião em específico, sendo aplicável também a outras que seguem fundamentalmente os mesmo preceitos. Qualquer leitor – da fé de Endō ou não – poderá, portanto, extrair lições das indagações colocadas pelo autor sobre o que é ter fé, o que é acreditar em uma entidade cuja única resposta é o silêncio, mesmo nas mais adversas situações.

A tradução da obra, feita pelo jesuíta irlandês William Johnston (que foi a versão que li para a presente crítica, já que a tradução brasileira de Mário Vilela não é diretamente do japonês, mas sim do inglês), é rica na manutenção das palavras latinas e na secura da descritividade do texto original. E não, não leio japonês, mas, pesquisando, li comentários que essa abordagem mais direta é característica de Endō, algo que é transposto com certa exatidão para a língua inglesa sem floreios de Johnston, resultando em uma obra de fácil leitura, mas de profunda reflexão.

Silêncio levanta muito mais perguntas do que responde. A obra máxima de Shūsaku Endō convida o leitor a mergulhar em um momento histórico raro de ser abordado e em uma discussão angustiante sobre o que é realmente acreditar em algo e o que a dialética pode representar para o impulsionamento do espírito humano. Ao narrar sua história profundamente religiosa, o autor nos presenteia com um olhar sobre nós mesmos.

Silêncio (Chinmoku, Japão – 1966)
Autor: Shūsaku Endō
Publicação no Brasil: Editora Planeta, 2017
Tradução (da versão britânica): Mário Vilela
Tradução para o inglês (diretamente do japonês): William Johnston, em 1969
Versão lida para a presente crítica: William Johnston, em inglês, publicado pela Taplinger Publishing Company
Páginas: 272

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.