Crítica | Silicon Valley – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Desde a 1ª Temporada de The Big Bang Theory percebeu-se que o mundo dos nerds e gênios não eram interessantes apenas para serem citados ou constarem como exibição curiosa em uma série qualquer. Eles também tinham potencial para ganharem tramas próprias e se tornarem objetos de um show. No caso da citada TBBT, tivemos um início genial para nos anos seguintes os produtores caírem no abismo do agrado ao público preguiçoso, com direito a descaracterização de personagens e o quase desaparecimento dos roteiros inteligentes para darem lugar a textos engraçadinhos e alienantes sobre ciência. Era uma vez uma boa comédia sobre o mundo da física.

Na esteira do que um dia foi o mundo se “Sheldon e Companhia”, o iconoclasta Mike Judge (de Idiocracia, Como Enlouquecer Seu Chefe, O Rei do Pedaço e Beavis and Butt-Head) criou Silicon Valley para a HBO, o que evidentemente traz uma grande diferença em relação a tudo o que já se fez sobre o mundo dos nerds em séries de TV.

A comédia é centrada na vida de Richard, um jovem de 26 anos que criou um programa chamado Pied Piper (você deve conhecê-lo melhor como o conto chamado O Flautista de Hamelin) e agora se vê no turbilhão que é fazer sucesso e estar à beira do insucesso no Vale do Silício. Ao lado de alguns amigos com personalidades completamente diferentes — mas todos igualmente nerds e socialmente reclusos e estranhos — Richard vende uma parte da “empresa” para um milionário que se propõe a ajudar o jovem a administrar a Pied Piper. Em troca, ele teria uma certa porcentagem dos lucros.

A parceria é firmada e já no início da série os problemas esperados nesse tipo de contrato começam a aparecer. Os roteiros de todos os episódios nos trazem uma linha geral de acontecimentos com sentido geral e particular. Há pouquíssimo de tramas fillers ao longo dessa curta temporada de estreia. Os impasses dramáticos aparecem tanto na vida pessoal dos protagonistas quanto em suas relações sociais, profissionais e afins, o que, num longo caminho de tentativas e erros, os leva acidentalmente para a Feira de Tecnologia ao final da temporada, com direito a reviravolta de eventos e um episódio finale simplesmente genial.

Há uma grande quantidade e variedade de referências ao mundo da tecnologia e economia contemporâneos, mas nada disso é posto como enigma insolúvel para o público noob. O foco central da série é a comédia a partir de uma situação simples: um grupo de jovens programadores, viciados em videogame e com sérios problemas de se expressar em público (bem, pelo menos a maior parte deles) postos diante de uma situação inusitada. De uma hora para outra eles se tornam milionários e têm que administrar uma empresa de tecnologia sendo que não conseguem sequer organizar a casa onde vivem.

O elenco jovem e bem entrosado tem um papel importante na construção da identidade geral do show. Como os roteiros não são forçados ou expressam algo impossível para indivíduos nessa situação, sobra para os atores (o elenco é predominantemente masculino) a tarefa de fazer comédia comedida e não apelativa, o que funciona muitíssimo bem, primeiro porque o texto aposta na situação para criar o riso e não inventa impossibilidades para forçá-lo; segundo, porque ver jovens antissociais expostos a um determinado tipo de pressão nos gera um tipo de hilário (e um tanto sadista) desconforto que invariavelmente termina em riso, haja visto o que se dá em Optimal Tip-To-Tip Efficiency, não só pela inusitada e inesquecível forma de abordar a masturbação masculina mas pela forma como um assunto tão comum se torna elemento científico-tecnológico e gera o núcleo da virada do jogo.

Com ótima trilha sonora, constante brincadeira com o figurino do elenco principal (excessos, modelos e cores; usos bizarros, antiquados e funcionais: contrastes e variedade que expressam bem o ambiente da série) e excelente fotografia de Jim Denault (Meninos Não Choram, A Sete Palmos e Maria Cheia de Graça), a 1ª Temporada de Silicon Valley nos mostra que é possível conseguir muita coisa através de um bom roteiro e que o recanto dos maiores gênios da tecnologia na América e no mundo é, na verdade, uma tenda de incertezas, indecisões, promessas, plágio e acidentes cotidianos. No final das contas, não é um universo assim tão diferente do nosso.

Silicon Valley – 1ª Temporada (EUA, 2014)
Criador: Mike Judge
Direção: Mike Judge, Tricia Brock, Maggie Carey, Alec Berg
Roteiro: Mike Judge e equipe
Elenco: Thomas Middleditch, T.J. Miller, Josh Brener, Martin Starr, Kumail Nanjiani, Christopher Evan Welch, Amanda Crew, Zach Woods, Matt Ross, Aly Mawji, Jill E. Alexander
Duração: 30 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.