Crítica | Silverado

estrelas 3,5

Como fazer para que um filme com uma história clichê, ou melhor, várias histórias clichês quase desconectadas, personagens clichês, uma fotografia boa, mas pouco inventiva, uma trilha sonora óbvia em uma época em que westerns estavam quase que proscritos das telonas funcionasse e se mantivesse funcionando ao menos na memória afetiva daqueles que viveram seu lançamento até hoje? Essa é a pergunta com que me deparo sempre ao rever Silverado.

Mas acho que a resposta talvez seja bem simples: diversão. Silverado, dirigido por Lawrence Kasdan, que também escreveu o roteiro junto com seu irmão Mark, é um baú de referências de faroestes clássicos misturado com aquilo que, ao longo das décadas, o gênero ofereceu em quantidades generosas à Sétima Arte, ou seja, heróis invencíveis e cativantes, atmosfera excitante e muita aventura. Claro que estou falando dos exemplares que tinham mesmo esse objetivo, apresentando os vaqueiros e pistoleiros como personagens (quase) unidimensionais, normalmente com roupa estranhamente limpa para o ambiente poeirento ao redor e cheios de habilidade com armas de fogo e instrumentos cortantes. Silverado é uma volta a esse passado simplista desse tipo de western que, por mais que tenha defeitos – e que abordarei em breve – não passa despercebido e é difícil desgostar por completo.

A apreciação mais correta de Silverado, porém, exige um pouco de conhecimento dos clássicos que o antecederam. Afinal, Lawrence Kasdan, talvez mais conhecido como o brilhante roteirista de O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi (e também do vindouro Episódio VII), além de Caçadores da Arca Perdida, mas que também dirigira Corpos Ardentes e O Reencontro, faz um filme para agradar toda a família, mas que também funciona como uma deliciosa homenagem ao gênero. E isso fica evidente logo com a sequência de abertura, antes dos créditos, em que somos apresentados a Emmett (Scott Glenn), pistoleiro silencioso que mistura muito bem as características do Homem Sem Nome da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone com Shane, de Os Brutos Também Amam não só em atitude como também em figurino. Além disso, depois que ele heroicamente e sem nem suar ou se despentear, acaba com os pistoleiros que o atacam, Kasdan faz questão de emoldurá-lo no alisar da porta de seu barraco, focando-o de costas e com a paisagem ao fundo, com foco profundo. A referência é imediata: as tomadas de abertura e encerramento de Rastros de Ódio. E esse trabalho referencial é sabiamente salpicado por toda a duração de Silverado, com Kasdan claramente tirando seu chapéu para os gigantes que vieram antes.

Mesmo que esse momentos passem despercebidos pelo espectador, há muito que admirar no esforço do diretor. E o que logo salta aos olhos é o elenco, que vai muito além do citado Scott Glenn, à época já um veterano da Sétima Arte. Kevin Kline faz o pistoleiro aposentado Paden, que é encontrado só com ceroulas no deserto por Emmett. Seu futuro parceiro em Um Peixe Chamado Wanda, John Cleese, faz o improvável papel do xerife da cidadezinha para aonde Emmett e Paden se dirigem para que o primeiro reencontre seu irmão acelerado – e, diria, um pouco autista – Jake, vivido por ninguém menos do que Kevin Costner, ainda em começo de carreira (ele só viria a estourar de verdade em Os Intocáveis, de 1987). E isso sem falar em Mal, vivido por Danny Glover, que literalmente pode ser visto como um precursor (bem) mais light de Django, no faroeste tarantinesco Django Livre. E isso sem falar no sempre sinistramente simpático Brian Dennehy, como Cobb, outro xerife (claro, pois o ator passou sua carreira toda só vivendo policiais dos mais variados) da mesma antiga gangue de Paden, além de Rosanna Arquette em uma inexplicável e subutilizada ponta como Hannah, fazendeira que chega para tomar posse de suas terras em território dominado por criadores de gado e da sempre bem-vinda Linda Hunt como Stella, gerente do saloon de propriedade de Cobb.

Há outros atores ainda, como Jeff Goldblum, Lynn Whitfield, Ray Baker e Jeff Fahey, em personagens introduzidos de maneira um tanto atabalhoada e desnecessária na já alongada trama, pois Silverado tem, em seu nascedouro, um problema: como equilibrar tantos personagens que precisam ser introduzidos, explicados e reunidos com um objetivo em comum? Com isso, temos 40 minutos só de preparação do terreno, quando finalmente Emmett, Jake, Paden e Mal trabalham em uníssono pela primeira vez. Até esse momento, a trama é episódica – divertida sempre, claro – e, por isso mesmo, entrecortada e um tanto desconexa. Mesmo depois da reunião dos quatro, que é efêmera, não temos exata noção do caminho que o roteiro tomará e só finalmente descobrimos que se trata, na verdade, de uma ranch story (conflito entre colonos fazendeiros e antigos desbravadores que querem manter a terra livre ou open range) com pitadas de revenge story, ou história de vingança. Em suma, é um pouco de tudo que há de mais icônico no gênero faroeste, o que termina por estender a fita por longos 133 minutos e recortar demais a narrativa.

Além disso, a trilha sonora, composta por Bruce Broughton (e que chegou a concorrer ao Oscar), tenta emular as notas heroicas de trilhas clássicas do gênero, como as de Duelo de Titãs e Sete Homens e um Destino, mas acaba, com isso, ditando os sentimentos dos espectadores, sempre surgindo segundos antes de momentos chave, justamente para já preparar o terreno. É perfeitamente possível entender as boas intenções de Broughton, mas o fato é que o resultado é genérico e desinteressante.

Mesmo com seus vários problemas, Silverado, porém, é um filme cativante. O elenco principal – os quatro pistoleiros – além de John Cleese (que só aparece no primeiro terço), Bill Dennehy e Linda Hunt têm ótima e irresistível química, mesmo que seus personagens seja rasos. É claro que a crítica social encapsulada pela presença de Mal, um negro que sofre preconceito racial de todos (menos dos heróis, lógico), tem sua relevância, mas esse subtexto (que não é nem tão “sub” assim) só é abordado quando o personagem surge pela primeira vez, sendo, posteriormente, enterrado debaixo das diversas outras tramas.

Ajuda também a fotografia de John Bailey que, esse sim, consegue fazer a mímica da grandiosidade expansiva de obras anteriores, além de utilizar alguns curiosos ângulos baixos, provavelmente com o objetivo de agigantar ameaças. Filmado quase que integralmente no Novo México, Bailey pode se beneficiar de tomadas em locações desérticas, além da construção da cidade fictícia de Silverado, o que permitiu o uso ideal de câmeras em gruas e travellings dramáticos, especialmente no duelo final.

Silverado é crivado de problemas, mas, no final das contas, consegue sobreviver ao teste do tempo por reunir o que tem de melhor no gênero sob a esperta batuta de Kasdan, que comanda um elenco de primeira. É diversão garantida.

Silverado (Idem, EUA – 1985)
Direção: Lawrence Kasdan
Roteiro: Lawrence Kasdan, Mark Kasdan
Elenco: Kevin Kline, Scott Glenn, Kevin Costner, Danny Glover, Rosanna Arquette, Brian Dennehy, Linda Hunt, Jeff Goldblum, Ray Baker, Lynn Whitfield, Jeff Fahey, Joe Seneca, Thomas Wilson Brown
Duração: 133 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.