Crítica | Simão do Deserto

estrelas 4,5

Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada, Na meia-noite já sem esperanças de repouso: É como a hera em torno de uma torre já arruinada, Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza onoso.

Byron

Com Simão do Deserto (1965), Luis Buñuel finaliza o seu triplo ataque cáustico a tudo o que é demasiado, exercício iniciado em Viridiana, seguido por O Anjo Exterminador e terminado aqui. O filme é uma comédia cínica e desconcertante sobre o fanatismo, a idolatria e a suposta santidade de algumas pessoas e objetos. Ao contrário de Viridiana, Simão não é desvirtuado pelo pecado e pelos pecadores que o cerca. Por ser considerado um santo, ele é tentado por algo “mais forte”: o próprio diabo (Silvia Pinal).

Simão Stilites é um evangelista penitente, ou um santo milagreiro que resolveu não mais pisar em terra firme, passando a viver no alto de uma coluna no meio do deserto. Para suas pregações, aparecem pessoas de todos os lugares. Embora não seja, ou não demonstre ser presunçoso, Simão tem consciência de que suas orações são milagrosas e não se recusa a fazê-las (há um contraponto religioso-ideológico ferrenho com Nazarin). Do alto de sua coluna, essa espécie de João Batista sem o batismo segue a mesma premissa da “voz que clama no deserto”, lidando com a inveja de alguns de seus visitantes religiosos e com as tentações do diabo, que chega a se disfarçar de Jesus Cristo para convencê-lo a descer de seu posto e “mudar de vida”.

A recusa de Simão em viver junto aos homens, sua privação de limento e água e o desapego a toda e qualquer pessoa dão a ele um caráter divino, intensificado após os milagres que faz. O mundo ao seu redor, no entanto, rui em tentação e pecado. Um padre é possuído pelo diabo e tenta caluniá-lo. Um abade passa a ouvir a voz do diabo no deserto, assim como o anão que o acompanha. Tudo parece ser tomado por uma aura espiritual e estar em constante disputa por espaço e crentes.

Entretanto, as constantes “tentações do maligno” quebram as defesas do santo Simão. Um avião sobrevoa o céu e os leva – a Simão e ao Diabo – para um “Clube X”, onde a dança da “Carne Radioativa”, a “última dança”, deve ser suportada por ele até o final (dos tempos?). O preço de sua apostasia e desvirtude é ver jovens alucinados dançarem ao ritmo efusivo de uma música.

Aqui, Buñuel brinca com o Apocalipse e coloca toda a humanidade no deserto mexicano e no Brooklin, às portas da perdição, ou seja, do seu próprio desejo. Não se ouve mais o Hino dos Peregrinos ou os tambores de Calanda, como no começo do filme. Na desvirtude de Simão, que está sentado à mesa de um bar bebendo e fumando, o que se ouve é rock’n roll. Buñuel escarnece de todo e qualquer fanatismo e mostra que por detrás de atitudes pias e penitentes, há um profundo desejo de perder-se.

Do longa-metragem Viridiana ao média-metragem Simão do Deserto, temos a desconstrução das “posturas oficiais” das personagens religiosas para um outro tipo de pessoa. Luis Buñuel termina a sua carreira no México com obras que dissecam o comportamento humano (social ou religioso) de seu fingimento, expondo o desejo que se esconde por trás de cada máscara. É por isso que as personagens dessa trilogia terminam, de certa forma, envergonhadas: porque são obrigadas a mostrar-se para o espectador depois do processo que as levou a serem elas mesmas. Albert Camus estava certo quando disse que “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que ele é”.

Simão do Deserto (Simón del Desierto) – México, 1965
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Buñuel, Julio Alejandro
Elenco: Claudio Brook, Silvia Pinal, Enrique Álvarez Félix, Hortensia Santoveña, Francisco Reiguera, Luis Aceves Castañeda, Enrique García Álvarez, Antonio Bravo, Enrique del Castillo
Duração: 45 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.