Crítica | Simplesmente Acontece

estrelas 3

Amor é igual a sexo. Vende. E muito! Não é à toa que a indústria cinematográfica investe tanto na temática. Quando o tema cai nas mãos de um bom roteirista, e, concomitantemente, é guiado por um bom diretor, o resultado tende a ser um primor. Em outros casos, a abordagem fica entre o açucarado e/ou o burlesco, com tramas que transitam do nobre sentimento ao riso e a piada. Em Simplesmente Acontece, o resultado é interessante, mesmo que a produção não seja um exemplar diferente do convencional: casal apaixonado separado pelas artimanhas da vida.

No filme, Rosie e Alex, interpretados respectivamente na medida certa por Lily Collins e Sam Claflin, são amigos inseparáveis, daqueles que confidenciam tudo entre si e tornam-se inseparáveis desde a infância. De bobagens cotidianas às desavenças amorosas e familiares, formam uma dupla de fazer os olhos alheios brilharem de ternura. Certo dia, a distância coloca a amizade de ambos à prova. Ele decide aceitar o convite para estudar em Harvard e mudar os rumos da sua vida intelectual e profissional. Separados geograficamente, mas unidos pelo sentimento que os nutrem, cada um começa a criar a sua rede de segredos e aventuras, principalmente na seara sentimental. Mas, como já esperamos dos filmes românticos, há um fio que os conecta: o amor. Mesmo com os namoradinhos e paixões passageiras, os jovens sentem que “o amor está no ar” e que algo precisa se encaixar para que a vida da dupla fique temporariamente organizada, socialmente… e amorosamente, claro.

Na arena discursiva das comédias românticas, Simplesmente Acontece ganha vantagem por não ser pretensioso demais. Cumpre o seu papel de tentar fazer as pessoas acreditarem na possibilidade de um mundo melhor, com mais amor e sentimentos, haja vista que a mídia cotidianamente nos mostra que as coisas parecem piorar a cada dia. Mas não é para pensar também que a produção é um elixir para superação das dificuldades da vida. Simplesmente Acontece também pode ser visto como uma radiografia da sociedade frenética cotidiana, onde as conquistas não são mais medidas de forma unitária, mas através de centenas e milhares de metas e desafios. Queremos muito e tudo ao mesmo tempo, uma das explicações para o panorama depressivo de muitas pessoas no contexto histórico presente que convencionamos chamar de contemporaneidade.

Contado através de um fio condutor que perdura por muitos anos, o filme nos mostra algo difícil de acreditar. Mesmo diante de tantas complicações, como uma gravidez, o inconveniente divórcio, os deslocamentos exorbitantes e outras dificuldades, eles parecem mesmo empenhados em nutrir um sentimento de longa data, bem orquestrado nas telas graças aos truques audiovisuais que permitem fluidez na narrativa, como as canções e os pequenos videoclipes, recursos que geralmente dinamizam o enredo.

O que também torna Simplesmente Acontece um filme acima da média é o trabalho de iluminação e a direção de arte, competentes, delírios visuais inesperados. Dentro dos padrões aristotélicos, os elementos “pícaros” estão presentes, em suma, o elenco coadjuvante, itens que funcionam como alívio cômico para uma história que deveria ser triste, afinal, exercer o amor abstrato em detrimento do amor físico e carnal deve ser dureza. Quem já passou por isso sabe exatamente do que estou falando.

O diretor Christian Ditter oferta uma trama redondinha, bastante calculada entre emoção e riso, com algumas falhas no roteiro e as mensagens positivas que geralmente todo espectador quer ver. Por que (e para que) arriscar em uma trama realista e complexa se estamos no bojo de um cinema industrial e o público precisa de uma mensagem?

Assim, a produção nos brinda com a meritocracia e a impossibilidade de se lutar contra o destino. Ah, e a necessidade de manter uma família unida, mesmo que infeliz, com uma esposa insatisfeita e um marido machista e arrogante. Nada contra. Afinal, é um ponto de vista e nós, espectadores, respeitamos, mesmo que sejamos menos conservadores. E ainda tem espaço para uma espécie de mensagem velada contrária ao aborto. Assista e tire as suas próprias conclusões.

Confesso que sinto falta de filmes de amor como as produções da primeira fase romântica da Sandra Bullock (Corações Roubados, Enquanto Você Dormia e Quando o Amor Acontece), ou das histórias clichês, mas contadas da melhor maneira possível, como Uma Linda Mulher e Um lugar Chamado Notting Hill. Mas ao mesmo tempo em que vivo nos meandros da nostalgia, penso que são filmes de uma geração específica: a minha. Com o aceleramento do processo de globalização e a democratização das possibilidades, a tendência não poderia ter sido outra. Mais destinos, mais oportunidades, questões que alcançam uma perspectiva mundial. Separados pelo destino, mas unidos pelo amor, pelos aplicativos e redes sociais. Bonitinho, apaixonante e indicado aos que, assim como eu, acreditam no amor. Resta saber se você, caro leitor, ainda acredita no amor. Acredita?

Simplesmente Acontece (Love, Rosie, Alemanha/Reino Unido – 2014)
Direção: Christian Ditter
Roteiro: Juliette Towhidi (baseado no romance de Cecelia Ahern)
Elenco: Lily Collins, Sam Claflin, Christian Cooke, Jaime Winstone, Tamsin Egerton, Art Parkinson, Lily Laight, Marion O’Dwyer
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.