Crítica | Simplesmente Amor

O Natal já rendeu diversos estilos de narrativas cinematográficas. Filmes de ação, tais como Máquina Mortífera e Duro de Matar; os filmes de terror Natal Negro, Natal Sangrento e Natal Diabólico; as animações O Expresso Polar e O Estranho Mundo de Jack; as comédias Um Herói de Brinquedo e O Grinch; a franquia juvenil Esqueceram de Mim; os clássicos A Loja da Esquina e A Felicidade Não se Compra, dentre outros. Simplesmente Amor é um destes, direcionado aos amantes das comédias românticas.

Com 10 histórias que se conectam, o filme é todo passado na véspera do Natal. Estruturado com o estilo de humor comum aos britânicos, isto é, mais sofisticado e elegante, a produção retrata as vivências de pessoas apaixonadas envolvidas em situações inseguras e imprecisas quando o assunto é a intensidade de um relacionamento amoroso sério. É com esse direcionamento dramatúrgico e o apoio da condução musical de Craig Amstrong, da direção de fotografia de Michael Coulter e da montagem cuidadosa de Nick Moore que o filme se desenvolve.

Vamos aos personagens: Peter (Chiwetel Ejiofor) e Juliete (Keira Knightley) são recém-casados, mas ela não tira da cabeça o melhor amigo do marido, o doce e sedutor Mark (Andrew Lincoln); Sam (Thomas Sangster) é um menino bastante tímido que decide fazer-se percebido pela garota mais bonita da escola; Daniel (Liam Neeson) sofre a dor da perda, pois sua esposa faleceu bem recentemente; Harry (Alan Rickman) e Karen (Emma Thompson) formam um casal que já não se dá tão bem, principalmente porque ela desconfia que ele seja um marido infiel; Aurélia (Lucia Moniz) e Jamie (Colin Firth) são dois apaixonados que não entendem a língua um do outro, mas dialogam pelos códigos do amor; Bill Mack (Bill Nighy) é uma antiga estrela do rock que está prestes a lançar o seu mais novo sucesso no período natalino; Leonardo (Hugh Grant) é o Primeiro Ministro britânico, um cara desajeitado e tenso, apaixonado por Natalie (Martine McCutcheon); Sarah (Laura Linney) é uma mulher insegura que tem a chance de sair com Karl (Rodrigo Santoro), um jovem por quem ela desenvolveu uma paixão inquietante.

O que une tantas histórias? Como aponta Christian, do musical Moulin Rouge – Amor em Vermelho, “amar e ser amado em retribuição”. É o que todos querem em Simplesmente Amor. Somente por amor, tais personagens mudarão as suas existências. O político vai perceber que há outras possibilidades em seu cotidiano, o jovem casal prestes a assumir o compromisso formal terá aquecida a chama que os une, o casal mais maduro, com a esposa insegura diante da fidelidade do seu cônjuge, terá a oportunidade de reavaliar os seus sentimentos, bem como a silenciosamente apaixonada, mulher que mudará as suas manhãs ao acordar mais determinada e satisfeita, pensando em coisas que estejam além da rotina trabalho-casa. O que também une estas histórias é que as suas ações ocorrem justamente no período natalino, época que geralmente as pessoas buscam reavaliar os acontecimentos do ano e tentam colocar em prática os planos de ação para o ano seguinte.

Apesar de delicado e interessante, Simplesmente Amor poderia ser um pouco mais conciso. São 136 minutos desnecessários, mas que não atrapalham a condução da história que de alguma forma, nos envolve bastante. Os temas que geralmente se fazem presentes em “filmes natalinos” estão todos na produção: afeto, amor, companheirismo, a necessidade dos laços familiares, a solidão como marca do contemporâneo, etc. Com cores vibrantes e iluminação que nos remete ao período em questão, o filme aposta bastante na iconografia do Natal para acrescentar significado ao desenvolvimento dos personagens.

Simplesmente iluminado. Dentre tantas características, uma que se destaca neste filme é a presença de luzes em profusão, algo típico do período natalino. Conta-se que em 1880, Thomas Edison pendurou diversas lâmpadas incandescentes ao redor de seu laboratório no Parque Menlo, tendo em vista despertar ás atenções dos passageiros de uma ferrovia que passava próximo. Essa é apenas uma das histórias sobre a popularização da tradição de alinhar luzes elétricas em fios para decoração natalina. Alguns acreditam que a prática tenha começado nos Estados Unidos, mas desde o inverno de 1184, na Alemanha, há registros de iluminação de um tronco com velas, numa espécie de ritual para simbolizar o retorno do sol. São histórias imprecisas, mas que reforçam os primórdios desta prática sem intenções estéticas, algo que só ganhou tais contornos na posteridade. Em Simplesmente Amor, o uso de vermelho e verde se faz presente, as guirlandas e a neve são notáveis, mas nenhum elemento é mais vibrante que a sua iluminação, opção estética que diferente dos primórdios da prática, aqui ganha delineamento narrativo carregado de significação.

Sendo assim, ao assistir, estamos diante “da comédia romântica definitiva”. Foi com esse bordão que Simplesmente Amor, filme escrito e dirigido por Richard Curtis, circulou pelas mídias de divulgação quando lançado em 2003. Seguindo a onda de obras edificantes que encontraram ressonâncias com os filmes de Frank Capra, a produção aposta no estilo mosaico, tal como Anjo de Vidro, para nos mostrar o período natalino de uma série de pessoas que estão desesperadamente “loucas de amor”, ansiosas por atenção e sedentas de afeto. Uma continuação está agenda para breve. Vamos aguardar para conferir o resultado.

Simplesmente Amor (Love Actually) — Reino Unido, 2003.
Direção: Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Alan Rickman, Billy Bob Thornton, Chiwetel Ejiofor, Colin Firth, Denise Richards, Elisha Cuthbert, Emma Thompson, Hugh Grant, Keira Knightley, Laura Linney, Liam Neeson, Rodrigo Santoro
Duração: 134 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.