Crítica | Simplesmente Martha

Simplesmente Martha PLANO CRITICO

Há quem diga que “a gastronomia é uma aquisição”, pois “uma vez assimilada, a pessoa não consegue se livrar dela, passa a ficar mais exigente e a buscar o prazer que a comida proporciona”. Nos meandros do subgênero Cinema e Gastronomia, Simplesmente Martha é um dos exemplares que mais reforçam esta afirmação.

Com direção e roteiro de Sandra Nettelbeck, a produção de 109 minutos, lançada em 2007, nos apresenta a chef Martha (Martina Gedek), uma mulher introvertida que só vê satisfação no trabalho. Certo dia a sua irmã morre em um terrível acidente automobilístico, deixando a sua sobrinha de nove anos, Lina (Maxime Foerst). Como tutora da garota, Martha precisa mudar a sua rotina, algo bastante dificultoso, haja vista a estagnação de seu cotidiano.

A chegada do chef auxiliar italiano interpretado por Sergio Castellitto inicialmente incomoda, mas como todo bom romance adocicado, o personagem vai trazer uma pitada de alegria e emoção para a vida das duas, constantemente em conflito. Exemplar no que faz dentro de uma cozinha, Martha não consegue trazer a eficiência para organizar a sua vida pessoal. Ao passo que evolui como ser humano e começa a ceder gradativamente, a sua existência para por uma saudável reconfiguração.

São duas “invasões territoriais” que sacolejam sua vida sem perspectivas. A sobrinha comete os erros comuns da infância: mente, falta aula, faz greve de fome para irritá-la. Na vida real, a greve de fome é uma estratégia que irrita as mães preocupadas com a saúde de seus filhos, mas no filme, tal postura ganha maiores contornos, pois negar-se a saborear um belo prato para uma especialista em gastronomia soa como ofensa das grandes.

A outra invasão é o coração de Martha. A dona do restaurante, ciente do desgaste mental e físico da sua melhor funcionária, contrata um ajudante para que o peso seja equilibrado, algo que inicialmente é encarado como desafio e atrito, mas depois se torna um tórrido romance, como já esperávamos desde os primeiros minutos em que o personagem carismático e galanteador se faz presente. A fórmula da comédia romântica delineia a narrativa, com direito aos clichês básicos que já conhecemos, mas não é algo que atrapalha a condução do filme.

Orquestrado pela música acima da média de Manfred Eicher, Simplesmente Martha é um filme sobre as dificuldades nos relacionamentos cotidianos, bem como os obstáculos em manter uma carreira bem sucedida, tendo ainda que equilibrar problemas familiares. Entre pratos sofisticados e sabores difíceis de resistir, os personagens conduzem as suas vidas.

A gastronomia é o motivo para a compreensão das realizações dos personagens e quando não está esteticamente presente em cena, faz-se onipresente como pano de fundo. Martha, como chef austera e pouco receptiva para qualquer crítica, também engloba um feixe de representação da emancipação feminina que a transforma em uma mulher bem sucedida, mas infeliz. Tal questão, entretanto, como um bom caldo cozido além do tempo adequado, esparrama os limites da análise. Fica a dica reflexiva: e você, o que acha, caro leitor?

Simplesmente Martha (Bella Martha/Alemanha, 2001)
Direção: Sandra Nettelbeck
Roteiro: Sandra Nettelbeck
Elenco: Antonio Wannek, August Zirner, Diego Ribon, Idil Üner, Katja Studt, Martina Gedeck, Maxime Foerste, Oliver Broumis, Sergio Castellitto, Sibylle Canonica, Ulrich Thomsen
Duração: 103 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.