Crítica | Sin City: A Cidade do Pecado

estrelas 4

Sin City não é baseado em quadrinhos. O filme está muito mais próximo de ser quadrinhos em movimento, um verdadeiro – e muito bom – motion comic, como chamam por aí as HQs (des)animadas que volta e meia povoam serviços de distribuição de filmes online. Robert Rodriguez, juntamente com Frank Miller, autor das histórias e co-diretor (pelo menos no papel) e Quentin Tarantino, como diretor convidado, fizeram o que pode ser chamado de verdadeiro triunfo da forma sobre a substância.

Quem não conhece o trabalho de Frank Miller nos quadrinhos, deve realmente se enfronhar no que ele produziu até o final da década de 90. São quadrinhos seminais como Ronin (1983), Batman – O Cavaleiro das Trevas, de 1986, Demolidor (1979-1983, 1986 e 1993/94), Elektra: Assassina (1986/87), Martha Washington (um épico que ele começou a escrever em 1990 e só acabou em 2007), Os 300 de Esparta (já adaptado para o cinema por Zack Snyder) e, finalmente, a série Sin City, composta de 7 volumes magníficos em preto e branco e mais algumas cores aqui e ali, usadas para máximo efeito gráfico e, também, claro, para diminuir os custos de impressão.

O material de Miller, em geral, é cinematográfico. Seus desenhos costumavam funcionar  (uso o tempo pretérito, pois, hoje, ele só tem feito coisa ruim) como verdadeiros story boards. A série Sin City, mais ainda do que qualquer outra obra do autor, é particularmente interessante para uma adaptação cinematográfica, pois, ao criar um universo neo-noir de alto contraste, ele cria oportunidades únicas para o cineasta.

E Robert Rodriguez caiu de cabeça no projeto, literalmente transpondo para as telas tudo que Miller escreveu em quatro séries da coleção Sin City: o conto O Cliente Tem Sempre Razão (The Customer is Always Right) e as graphic novels O Assassino Amarelo (That Yellow Bastard), A Cidade do Pecado (The Hard Goodbye) e A Grande Matança (The Big Fat Kill). A escolha de quatro séries foi extremamente acertada, pois, da maneira que Rodriguez fez, não haveria como expandir as linhas narrativas de uma ou duas histórias para formar um longa metragem.

E como foi que Rodriguez produziu o filme?

Sempre defendi que material fonte (seja uma peça de teatro, um livro ou quadrinhos) funciona de sua maneira própria e que, quando transposta para o cinema e/ou televisão, uma verdadeira adaptação tem que ser feita. Por isso normalmente tenho reticências em relação a filmes que, basicamente, simulam, com imagens, exatamente tudo o que lemos nos livros, forçando-nos a viver, no audiovisual, passagens que muito claramente não poderiam ser transpostas do material fonte. Mas, claro, toda regra tem uma exceção e, no meu livro, essa exceção é Sin City.

O filme tem como roteiro diretamente os balões de fala escritos por Frank Miller e não um roteiro propriamente dito. A fotografia é idêntica à dos quadrinhos: preto-e-branco de altíssimo contraste, com algumas cores chave em destaque (olhos verdes aqui, vestido vermelho ali, pele amarela acolá). A direção também segue exatamente os mesmos – e radicais – enquadramentos que os quadrinhos oferecem. A maquiagem transforma os atores nos personagens assim como criados por Miller.

Tudo isso só foi possível por um brilhante trabalho de chroma-key (aquela tela verde em que depois são superpostos os efeitos especiais) durante a integralidade das filmagens. Com exceção das roupas, armas, partes de automóveis e uma ou outra prop ou pequeno cenário do filme, todo o resto só existe nos computadores de Rodriguez. É um trabalho muito mais eficiente de chroma-key do que o resultado de videogame que é, por exemplo, Sucker Punch – O Mundo Surreal.

O elenco estelar também ajuda muito. Vemos Mickey Rourke maquiado como o monstruoso Marv, um invencível durão que deseja vingar a morte de Goldie (Jaime King) e, para isso, emprega o mais alto grau possível de violência contra o canibal Kevin (Elijah Wood – sim, o Frodo!). Vemos Bruce Willis transformar-se em Hartigan, aparentemente o único policial honesto da cidade, que, antes de morrer de ataque cardíaco, precisa salvar a pequena Nancy (Makenzie Vega) das garras do terrível estuprador e assassino Roark Jr. (Nick Stahl). Vemos Clive Owen encarnar o papel de Dwight, que, junto com a fantástica ninja Miho (Devon Aoki) corre contra o tempo para salvar as prostitutas da cidade, comandadas por Gail (Rosario Dawson). E isso porque eu nem falei ainda que o filme conta com Jessica Alba, Powers Boothe, Benicio Del Toro, Michael Clarke Duncan, Carla Gugino, Josh Harnett e Rutger Hauer.

Sim, as histórias são rasas como o proverbial pires. Sempre alguém morre ou está prestes a morrer e há sempre um salvador que pula para ajudar. São variações sobre o mesmo tema e não há muito espaço criativo nesse quesito. Pelo talvez exagerado respeito que Rodriguez teve com as obras originais e por tê-las incluído em um mesmo filme, vemos com mais clareza a fraqueza dos diálogos. São frases de efeito o tempo todo, algumas delas repetidas por personagens diferentes em intervalos de minutos, isso sem contar com palavras repetidas na mesma frase. Podem funcionar nos quadrinhos, mas, no filme, soam exageradamente caricatos, mesmo se considerarmos o já profundamente caricato contexto em que elas são ditas.

Mas não há como negar que o filme intriga e nos faz torcer pelos mocinhos e até pelos bandidos, por mais violentos e moralmente contorcidos que eles sejam. No trecho dirigido por Quentin Tarantino, por exemplo, vemos Dwight conversando com Jackie Boy (Benicio Del Toro) em um carro. Acontece que Jackie Boy está morto, com o cano de uma pistola cravado em sua testa e um corte no seu pescoço que o faz parecer um dispensador de balinhas Pez (como Dwight mesmo diz). O diálogo é surreal e mostra, de uma tacada só, que aquele que pensamos que era o herói infalível, na verdade, é completamente desequilibrado. Mesmo assim, adoramos o cara e também o morto.

Se você é daqueles que aguenta extrema violência – ainda que estilizada – Sin City é uma excelente experiência. É um dos poucos filmes baseados em quadrinhos que pode dizer, sem hesitar, que o trabalho originário não só foi respeitado, como idolatrado e transposto literalmente para as telonas.

Sin City: A Cidade do Pecado (Sin City, EUA – 2005)
Direção: Robert Rodriguez, Frank Miller, Quentin Tarantino
Roteiro: Frank Miller (quadrinhos)
Elenco: Mickey Rourke, Elijah Wood, Bruce Willis, Clive Owen, Rosario Dawson, Jessica Alba, Powers Boothe, Benicio Del Toro, Michael Clarke Duncan, Carla Gugino, Josh Harnett, Rutger Hauer, Jaime King, Nick Stahl, Devon Aoki, Makenzie Vega
Duração: 124 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.