Crítica | Sin City: Vol. 1 – A Cidade do Pecado

estrelas 5,0

[Is] that the best you can do, you pansies?

O primeiro volume de Sin City, publicado originalmente em 13 revistas serializadas de pouco mais de 15 páginas cada uma recebeu o subtítulo The Hard Goodbye somente depois que sua versão encadernada, como uma graphic novel, foi lançada. E Frank Miller, autor do roteiro e dos desenhos, realmente fez, em essência, uma graphic novel, já que a história é única e contínua, além de cada capítulo começar exatamente onde o anterior acabou.

Miller, à época no auge de sua fama, surfando na glória colacionada ao longo da década anterior com seus trabalhos com o Demolidor, Wolverine e com as graphic novels Ronin e as revolucionárias O Cavaleiro das Trevas e Ano Um, que retiraram Batman do marasmo editorial, partiu para um projeto mais experimental, na editora independente Dark Horse, onde também publicou sua saga de Martha Washington. O resultado foi Sin City que, com o sucesso estrondoso, gerou outros seis volumes publicados nos anos seguintes, além, claro, de uma adaptação cinematográfica.

sin city 2

O preto nunca foi tão preto e o branco tão branco…

Em termos de história, a GN pouco oferece além de uma simples narrativa de vingança. Marv é um valentão de rosto disforme e com sérios problemas psicológicos que passa uma noite com a deslumbrante Goldie somente para descobrir, na manhã seguinte, que, enquanto ele dormia, ela foi assassinada por alguém que entrou no quarto silenciosamente e a matou sem deixar marcas. Imediatamente, a polícia chega, o que deixa evidente para Marv que ele caiu em uma cilada. Jurando vingar a morte de Goldie, o anti-herói causa o maior número de mortes em (Ba)Sin City, das mais diversas e criativas maneiras, para descobrir o assassino e começa a perceber que a coisa não é tão simples como parece.

Cheio de monólogos internos que são muito mais chavões e clichês do que qualquer outra coisa, mas que divertem e combinam perfeitamente com o clima neo-noir que Miller estabelece, a fluidez do roteiro do autor torna a leitura muito fácil, com apenas um ou dois soluços no meio da obra, em que ele exagera um pouco nos textos expositivos. Mas é apenas um momento dentro de uma história maior que é, literalmente, como os americanos classificam, um page-turner.

mosaico sin city

Algumas páginas que resumem bem o que é Sin City.

Mas todos os monólogos e diálogos, além da premissa rasa, gerando personagens rasos (falar no plural é até um engodo, pois só há verdadeiramente um personagem: Marv) é meramente uma desculpa para Miller fazer aquilo que realmente torna Sin City uma GN diferente: os traços e as cores do autor. Ou a ausência de cores, na verdade, pois Sin City é um trabalho completamente em preto e branco. Preto e branco, vejam bem, não tons de cinza. O contraste absoluto entre a ausência completa de cores e a fusão de todas as cores primárias gera um resultado fenomenal nas mãos hábeis de Miller, que sabe perfeitamente trabalhar a quantidade de cada cor em cada quadro e em cada splash page.

O efeito gráfico de Sin City é extasiante, daqueles que literalmente nos fazem quase esquecer da pouca história que a publicação tem e focar justamente onde Miller quer que foquemos: na violência gráfica extrema, na monstruosidade física e psicológica de Marv, nas curvas femininas e na artificial, mas extremamente acolhedora atmosfera que consegue criar com artifícios simples, como o da chuva já no terço final do trabalho ou a inserção cirúrgica de onomatopeias dos mais variados tamanhos e com as mais diferentes funções, algo que Miller sempre fez muito bem. É como passear por clichês belamente repaginados para consumo rápido e muitas releituras posteriores.

Sin City é uma experiência gráfica muito mais do que uma HQ ou uma graphic novel. Consegue muito facilmente emular a atmosfera de filmes noir e dos romances pulp dos anos 40 e 50, trazendo tudo para um mundo muito mais cínico, muito mais violento e muito menos enternecedor, um mundo sem verdadeiros heróis, mas cheio de personagens que, assim como o contraste de cores representa, ou são mocinhos ou são vilões, por mais que a noção de “mocinho”, debaixo da visão bastante psicótica (só pode ser!) do autor, seja extremamente ampliada para abarcar gente como Marv, que não hesita em despedaçar quem quer que seja para conseguir o que quer.

Sin City: Vol. 1 – A Cidade do Pecado (Sin City: Vol. 1 – The Hard Goodbye, EUA)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Editora: Dark Horse Comics (publicada originalmente em 13 números, de abril de 1991 a maio de 1992, republicado diversas vezes depois como uma graphic novel)
Páginas: 207

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.