Crítica | Sin City: Vol. 2 – A Dama Fatal

estrelas 5,0

Deadly little Miho. A falling leaf would make more noise.

Com o sucesso de Sin City (publicada originalmente apenas com esse nome, ganhando, depois, o sub-título A Hard Goodbye), não havia dúvidas que Frank Miller voltaria para mais. E, quase um ano e meio depois do final da publicação original, o autor partiu para o segundo volume do que viria a ser uma franquia – A Dama Fatal – publicada em seis edições que, juntas, ficam do mesmo tamanho que o primeiro.

Miller volta para sua cidade corrupta e decadente em um novo thriller neo-noir em preto e branco puros, sem tons de cinza, gerando o já famoso fortíssimo contraste que seus leitores aprenderam a apreciar. E o melhor é que, mesmo cronologicamente se passando antes – e, em parte, simultaneamente – ao primeiro volume, Miller não simplesmente volta a Marv. Ele cria outro personagem tão intrigante quanto seu protagonista anterior e, ainda por cima, nos apresenta a uma história mais complexa que não se fia apenas na linha reta da vingança. Não que Dwight, seu novo protagonista seja muito diferente de Marv. Ele não é. Trata-se de um durão, ex-criminoso e extremamente violento personagem, daqueles que, para matar, é necessário uma explosão nuclear. Mas Dwight tem uma diferença fundamental: ele é um homem que, no começo da narrativa, vem tentando mudar, adaptando-se o máximo possível a uma vida normal. E o normal, para ele, é ser o empregado de um detetive particular de  15ª categoria, tirando fotos de casos extraconjugais.

Sem perder muito tempo, porém, Miller vai nos envolvendo, por intermédio de bons diálogos internos do personagem, em sua vida pregressa. Ele está visivelmente insatisfeito com o que faz, mas não vê escolhas, até que reentra em sua vida a “dama fatal” do título, seu ex-amor por quem ainda é apaixonado e que o trocou por um milionário. Dwight se contorce por ela, mesmo tentando ser o mais virulento que pode com a moça. Mas, quando ela conta o que vem sofrendo pelas mãos de seu marido, ele decide interferir e sua vida relativamente pacata é virada de cabeça para baixo em uma tormenta de emoções, traições, sangue e mortes, muitas mortes.

mosaico sin city 2

Reparem só nos detalhes, na violência e, claro, na ninja.

Mas Miller não é bobo e, para não arriscar completamente, já que os fãs adoraram Marv, ele traz de volta seu primeiro protagonista, em uma espécie de ponta (bem, um pouco mais que isso, na verdade), além de salpicar, por toda a narrativa, easter eggs com referências ao primeiro volume. Esses artifícios são bem vindos e não soam artificiais. Afinal, é perfeitamente aceitável que Dwight e Marv se conheçam “de outros carnavais” e que venham a se juntar em volta de uma causa comum. E isso cria unidade ao trabalho de Miller, tornando evidente que seus personagens e suas histórias se passam dentro de um mesmo universo.

Ainda com o objetivo de tornar a narrativa ainda mais segura e consumível para seu público, o autor nos apresenta a outros personagens inesquecíveis, como a prostituta “sado-masô” e ex-amante de Dwight, Gail e a ninja Miho (estamos falando de Frank Miller e, portanto, você sabe que ninjas aparecerão alguma hora, não é mesmo?), além do gigante Manute. Apesar da profusão de personagens com certa relevância – algo bem diferente do primeiro volume – a trama se desenrola naturalmente, sem soluços ou a necessidade de muitos textos expositivos. Miller sabe que seu foco é em Dwight e ele não perde isso de vista, usando os coadjuvantes e a “dama fatal” sempre para impulsionar a narrativa, nunca para atravancá-la.

Em termos gráficos, apesar de manter o estilo básico da primeira graphic novel, algo completamente esperado e essencial, claro, Frank Miller talvez consiga ir um passo além. Há menos ângulos retos, mais detalhamento de rostos e um trabalho de imersão atmosférica maior, valendo especial destaque para o primeiro encontro de Dwight com sua “dama fatal” em uma espelunca no submundo de Sin City, em que Miller usa o contraste do cores para criar uma camada de fumaça de cigarro que é tão ou mais eficiente para evocar sentimentos que a chuva que Marv enfrenta no terço final do primeiro volume.

A Dama Fatal é, até certo ponto, mais do mesmo, mas isso é exatamente o que esperamos depois do furor ocasionado pelo lançamento de Sin City, em 1991. Nesse caso, mais do mesmo é bom e o autor não perde a oportunidade para arriscar, elevando o jogo a outro nível que não só expande a mitologia da série, como nos apresenta uma história mais complexa e, de certa forma, melhor que a original.

Sin City: Vol. 2 – A Dama Fatal (Sin City: Vol. 2 – A Dame to Kill For, EUA)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Editora: Dark Horse Comics (publicada originalmente em 6 números, de novembro de 1993 a maio de 1994, republicado diversas vezes depois como uma graphic novel)
Páginas: 211

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.