Crítica | Sin City: Vol. 3 – A Grande Matança

estrelas 4,5

You gotta stand up for your friends. Sometimes that means dying. Sometimes it means killing a whole lot of people.

A Grande Matança é, junto com a história do primeiro volume e O Assassino Amarelo (o quarto volume), parte integral da adaptação cinematográfica de Sin City feita por Robert Rodriguez em 2005. E, dentre essas, é a que tem menos conteúdo e mais violência, o que, considerando a vertente seguida por Frank Miller nesses trabalhos, não é algo necessariamente ruim.

Dwight está de volta, de rosto novo, depois dos eventos de A Dama Fatal e, quando o ex-namorado de Shellie, seu atual caso (um revival, na verdade), volta para infernizar a vida dela junto com seus capangas, Dwight expulsa o bandido do apartamento, fazendo com que ele beba de sua própria urina no vaso sanitário (sim, isso mesmo). Mas Dwight fica com a pulga atrás da orelha e sai ao encalço de Jack, para evitar que ele faça alguma besteira. No entanto, em seu afã heroico, ele não houve um desesperado aviso de Shellie, que é abafado pelo som do trovão e parte para a Cidade Velha, local comandado pelas belicosas prostitutas de Sin City. Lá, as regras são outras. Não há polícia e elas se defendem com espadas, metralhadoras e pistolas. A única regra é que não podem matar policiais (podem metralhar seus carros e espancá-los, mas matar vai além do limite) e, por isso, elas têm o “privilégio” de não serem escravizadas pela máfia da cidade, que tem sana para colocar as mãos (literal e figurativamente) nas moças.

sin city 3

Reparem na ninja com uma Uzi na mão… Não deve haver nada mais letal que isso…

Não é preciso ser muito brilhante para descobrir quem Jack é de verdade, o que acontece com ele e o que Dwight e as mulheres têm que fazer depois. Mas Miller sabe contar uma história e vai revelando cada peça do simples quebra-cabeça vagarosamente, cinematograficamente. Há muito suspense e um senso de inevitabilidade permeando toda a narrativa até o ponto em que os protagonistas ultrapassam o momento em que não dá mais para voltar atrás. A partir daí, o rio de violência e mortes corre solto, caudaloso e impiedoso.

Mas Miller sabe cuidar do passo da narrativa. Ao trabalhar Dwight conversando com ele mesmo por intermédio de um “revivido” corpo ao seu lado, o autor empresta aspectos surreais à sua obra neo-noir que agradam pelo macabro e também pelo ineditismo. Não é só violência descerebrada que vemos, mas sim um thriller sanguinolento, mas com questões psicológicas que dão um sabor todo especial à graphic novel, ainda que, claro, elas não seja abordadas com profundidade. Afinal, Dwight tem uma vida nova, uma identidade nova, um rosto novo. Mas será que ele mudou? Será que ele consegue mudar? Na verdade, a pergunta mais relevante é: será que ele quer mudar? Quando o vemos no começo de A Dama Fatal ele é um ser perturbado que está fazendo um esforço sobre-humano para mudar. Os acontecimentos lá o fazem voltar para seu estado de barbárie, primal, provavelmente sua verdadeira natureza. E o que vemos em A Grande Matança – e o título não engana – é Dwight sem amarras morais. Se ele um dia foi um membro da raça humana, ele provavelmente não é mais (ou talvez essa seja a verdadeira natureza humana, diriam os pessimistas). É um debate que está escondido debaixo de muito sangue branco de absoluto contraste com o fundo preto (ou vice-versa), mas ele está lá, permeando todo o trabalho de Miller.

mosaico sin city 3

(1) Ação ninja; (2) Ação Rambo e (3) Ação espartana.

E, curiosamente, é em A Grande Matança que vemos o embrião da ideia do autor de adaptar a história do Rei Leônidas de Esparta e seus 300 soldados contra o gigantesco exército persa no desfiladeiro das Termópilas, na Grécia. Há uma página inteira que explica a lenda e nos fornece a primeira imagem de um guerreiro espartano correndo, em traços muito parecidos com o que o próprio Miller usaria em Os 300 de Esparta, de 1998 (também adaptado para o cinema, como 300). O autor usa essa ideia e a transpõe para o curtíssimo clímax, que chega a causar estranheza de tão rápido que é, além da maneira repentina que acaba. Mas não se enganem: Miller cumpre a função de contar uma história completa, com começo, meio e fim, apenas escolhendo não oferecer ao leitor qualquer tipo de dénouement. Ela acaba e pronto.

No quesito arte, Miller mantém o estilo mais ousado e menos anguloso que vimos em A Dama Fatal, além de, claro, se utilizar, sempre, do contraste absoluto entre o preto e o branco, sem fazer exceções de cores intermediárias. E, em A Grande Matança, ele ainda consegue testar ângulos diferentes, extremos, como a visão de cima dos prédios que a ninja Miho tem e o passeio automobilístico que Dwight faz com corpos no porta-malas e no banco do passageiro. Há um ar mais cinematográfico, cartunesco até, por toda a obra, o que acaba tornando-a quase um desenho animado na imaginação do leitor.

Mesmo com um roteiro simplificado, sem muitas firulas, o resultado do trabalho de Miller é envolvente e extremamente divertido se o leitor apreciar doses generosas de violência estilizada. Ganha meia estrela a menos, apenas por não nos oferecer nada verdadeiramente novo em termos de história, mas nada que realmente prejudique o todo.

Sin City: Vol. 3 – A Grande Matança (Sin City: Vol. 3 – The Big Fat Kill, EUA)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Editora: Dark Horse Comics (publicada originalmente em 5 números, de novembro de 1994 a março de 1995, republicado diversas vezes depois como uma graphic novel)
Páginas: 172

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.