Crítica | Sin City: Vol. 5 – A Noite da Vingança

estrelas 2,5

One false move by the cop – any hint that, even for an instant, I might be in any danger at all – and Miho will come down on her like an executioner’s ax.

Depois de estabelecer todo um estilo gráfico chocante nos três primeiros volumes de Sin City, com profundo contraste entre preto e branco, Frank Miller utilizou cores no quarto volume – O Assassino Amarelo – que também introduziu seu primeiro personagem 100% honesto e com compasso moral perfeito, resultando em, talvez, seu melhor trabalho dentro da série. A Noite da Vingança, seu volume seguinte, não continua a tendência, pois Miller volta ao preto e branco puros (ou quase – falarei mais sobre isso adiante), a Dwight McCarthy, o mesmo personagem central que usa em A Dama Fatal e A Grande Matança e ao roteiro simples, direto, sem desvios, que lembra muito o do primeiro volume, A Cidade do Pecado.

O “grande” diferencial de A Noite da Vingança, porém, está na forma de publicação. Enquanto os outros volumes eram publicados em cinco ou seis edições mensais, o quinto foi publicado direto em formato graphic novel, já encadernado, formando a menor história única da série de Miller (sem contar com os contos, claro).

sin city 5 in post

Dwight partindo para a ação em um fusquinha arrebentado.

O roteiro, como o título em português deixa entrever (o título em inglês – Family Values – é bem mais discreto), é literalmente uma missão de vingança ordenada por Gail e encabeçada por Dwight contra a gangue de Don Magliozzi, o chefe local da Máfia. A seu lado, mas sempre nas sombras, está Miho, a ninja silenciosa que vimos pela primeira vez em A Dama Fatal e que catalisa a ação de A Grande Matança. Miller tenta manter o segredo sobre a exata natureza da ação durante o maior tempo possível, começando devagar, quase sem ação, mas sempre na iminência dela. Quando a matança começa, ela fica toda ao encargo de Miho, em um festival de katanas atravessando crânios e torsos, golpes potentes que arrancam cabeças e muitos shurikens arremessados. Dwight é, apenas, o mentor e essa relação dele com Miho chega a ser cômica, mesmo durante as mais intensas cenas de pancadaria.

Mas acontece que a história parece algo feito às pressas, sem muito cuidado. Mesmo quando Frank Miller abordou uma narrativa de vingança em seu volume original, ele procurou emprestar contornos mais sofisticados à trama, apresentando-nos ao perturbado Marv e ao mais perturbado ainda Kevin, além de nos situar em um universo com maior riqueza de personagens e mais camadas. Em A Noite da Vingança, muito ao contrário, só temos mortes das maneiras mais exageradas possíveis em uma sucessão divertida, mas, em última análise, vazia. Parece que Miller não tinha muito tempo e reutilizou Dwight e Miho, dois de seus mais famosos personagens dentro da mitologia de Sin City e usou o fiapo de história unicamente para nos presentear com um banho de sangue ninja. Não que isso não seja algo que os fãs da série possam apreciar – afinal, “ação ninja” está lá em cima na lista de coisas que todos os fãs de quadrinhos e filmes de ação adoram – mas Miller bem que podia ter trabalhado um pouquinho mais o roteiro, para não esfregar em nossas caras justamente a falta de roteiro.

mosaico sin city 5 final

Um pouco da ação ninja para seu deleite visual.

Em termos de arte, apesar de Miller ter voltado ao preto e branco, sem experimentar cores novamente (até porque, não haveria função para uma cor aqui, diferentemente de O Assassino Amarelo), seus traços, assim como o roteiro, parecem desleixados. Há enormes desproporções corporais – pés enormes, cabeças pequenas, relação entre torso e pernas estranha e por aí vai – que lembram muito o trabalho dele no odioso O Cavaleiro das Trevas 2, além de traços (rabiscos, na verdade) em diversos desenhos que não só emprestam uma aura de inacabado ao trabalho, como imprimem a impressão de “tons de cinza” por toda a obra, algo que fere mortalmente o espírito da série, que é o contraste profundo entre o preto puro e o branco puro. Seu grande acerto, porém, é na forma de caracterizar Miho. A pequena e extremamente mortal ninja é desenhada quase que como um fantasma, sempre “flutuando” em seus patins e com traços finos e com o uso de muito branco. Ela literalmente é o fantasma da morte surgindo quando é necessário, sempre para infligir dor nos vilões.

 Longe de ser ruim, A Noite da Vingança é, porém, decididamente um trabalho menor de Miller dentro da série Sin City. Para quem se satisfizer com um espetáculo ninja de mortes absurdas, porém, a graphic novel é uma grande pedida. Quem quiser um pouco mais, porém, estará mais bem servido lendo algum dos volumes anteriores.

Sin City: Vol. 5 – A Noite da Vingança (Sin City: Vol. 5 – Family Values, EUA)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Editora: Dark Horse Comics (publicada originalmente diretamente como graphic novel, em um volume só, em outubro de 1997)
Páginas: 122

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.