Crítica | Sin City: Vol. 6 – Balas, Garotas & Bebidas

estrelas 3,5

I see a crazy calm. You’re sick of running. You’re ready to face what you have to face. But you don’t want to face it alone.

Balas, Garotas & Bebidas é uma HQ cuja crítica é difícil fazer. Afinal de contas, o sexto volume na série neo-noir Sin City, de Frank Miller, nada mais é do que uma compilação de todos os “contos” publicados entre 1994 e 1997, ou seja, histórias curtas, salpicadas aqui e ali em publicações esparsas ao longo dos anos.

Havia duas opções: escrever sobre cada uma delas, dando notas separadas ou escrever sobre o conjunto da obra. Preferi seguir o segundo caminho, não exatamente por conveniência, mas pelo fato de alguns contos serem extremamente curtos, com três ou quatro páginas, tornando a mera sinopse mais longa do que o trabalho de Miller.

As histórias de Sin City nunca fora difíceis de ler. Na verdade, lê-las é um exercício muito simples, pois Miller é econômico em palavras, focando de verdade do deslumbramento visual do forte contraste do preto puro com o branco puro em todas as suas páginas, com raras pitadas de cor – com excelente efeito – como em O Assassino Amarelo. Em Balas, Garotas & Bebidas, o processo de leitura é ainda mais dinâmico, dado o tamanho das histórias e isso transforma essa HQ em um divertimento que, se por um lado agradará aqueles que querem conhecer um pouco mais de (Ba)Sin City, deixará uma pontinha de frustração naqueles que esperam algo com bom desenvolvimento.

Vemos duas histórias protagonizadas por Marv, o brutamontes do volume original, A Cidade do Pecado, (Just Another Saturday Night/Apenas Outra Noite de Sábado e Silent Night/Noite de Paz) uma história com Dwight, o herói de A Dama Fatal, A Grande Matança e A Noite da Vingança (The Baby Wore Red/A Dama de Vermelho), o que nos deixa já em território “amigo”, sabendo o que esperar. Enquanto que Apenas Outra Noite de Sábado é só uma desculpa para Marv matar alguns facínoras da maneira mais violenta possível, ela não é terrivelmente original e perfeitamente esquecível, Noite de Paz, trabalha quadros quase que completamente sem diálogos que funcionam perfeitamente do começo ao fim. Já A Dama de Vermelho é mais uma história de Dwight se envolvendo com a mulher errada, na hora errada, como pano de fundo para mortes e  mais mortes. Novamente, não é algo particularmente brilhante.

As histórias protagonizadas por fêmeas fatais, porém, são muito interessantes e elas são várias. Há um trio de curtas narrativas que contam a origem e as primeiras missões de Delia – codinome Blue Eyes – que transa com seus alvos antes de matá-los (Blue Eyes/Olhos Azuis, Wrong Turn/Curva Errada e Wrong Track/Trilho Errado). Particularmente sua origem (em Blue Eyes/Olhos Azuis) é de cortar o coração, mas não pelas razões que o leitor imagina, criando uma assassina sexy e letal, com roupas em um azul-bebê inocente, exatamente o oposto da personalidade dela. Não choca tanto quanto o amarelo que vemos em O Assassino Amarelo, mas funciona. Daddy’s Little Girl/A Garotinha do Papai é outra história que novamente usa cor e novamente nos apresenta a uma fêmea fatal, em um asqueroso triângulo de violência e incesto. O rosa bebê nunca mais será visto da mesma forma depois dessa história.

Há, ainda, uma história protagonizada por Gail e as “garotas da Cidade Velha” resolvendo um probleminha delas com um assassino de prostitutas (And Behind Door Number Three?/ E Atrás da Porta Número Três?). Novamente, algo bastante esquecível.

Frank Miller, porém, não se esquece do que parece ser seus vilões favoritos: Douglas Klump e Burt Shlubb. Os dois formam a dupla de assassinos que falam de maneira empolada, um deles enorme e gordo e outro baixinho e magro e ganham uma micro-história de três páginas intitulada Fat Man and Little Boy. Engraçadinha, mas ordinária.

Mas há uma outra história bem curta que é memorável, com o sugestivo título Rats/Ratos, que nos introduz a personagens novos sem nomes: um velho que, não demora muito, percebemos que é um refugiado nazista e, o outro, um gigantesco vingador. A história é de uma simplicidade ímpar, mas ela impacta qualquer leitor. É o Holocausto sobre as lentes do autor.

Finalmente, há The Customer is Always Right/O Cliente Tem Sempre Razão, conhecida por todos por ser a narrativa de abertura do filme Sin City, de 2005, com o “assassino conquistador”. É outro momento poderoso de Miller, que marcará os leitores.

Independentemente da gangorra qualitativa desses 11 contos, um aspecto é constante: a arte de Miller. Apesar do uso da cor, nos exemplos que mencionei acima, não ser sensacional como em O Assassino Amarelo, o fato é que suas experimentações com o contraste do claro com o escuro sempre impressionam, especialmente quando ele trabalha seus personagens na chuva, como em Noite de Paz e Curva Errada.

Balas, Garotas & Bebidas é uma divertida, ainda que oscilante leitura dentro do universo de Sin City.

Sin City: Vol. 6 – Balas, Garotas & Bebidas (Sin City: Vol. 6 – Booze, Broads & Bullets, EUA)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Editora: Dark Horse Comics (11 histórias contidas originalmente em diversas publicações entre 1994 e 1997 e publicada como volume único pela primeira vez em 1998)
Páginas: 159

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.