Crítica | Sindicato de Ladrões

estrelas 5,0

Quando filmou Sindicato de Ladrões, um dos grandes sucessos de sua carreira, Elia Kazan já tinha nas costas o peso de sua delação para a Comissão de Atividades Anti-Americanas, um feito que lhe custaria inúmeras amizades e geraria um rancor que lhe perseguiria até o final da vida, como vemos, em uma pequena demonstração, na entrega de seu Oscar Honorário, em 1999.

Em algumas leituras, entende-se a trama de Sindicato de Ladrões como uma visão pessoal do próprio diretor para o que é ser um delator e, como ele disse certa vez em entrevista e sustentaria muitos anos depois, o que é “fazer a coisa certa” quando que se pensa em justiça, leis, liberdade e política. Esse pensamento tende à polêmica porque encontra convicções pessoais em seu julgamento, mas, de maneira muito interessante, todos os lados e versões para a atitude de Kazan frente aos colegas comunistas se juntam quando o objeto é o trabalho diegeticamente político que o cineasta junto ao roteirista Budd Schulberg realiza em Sindicato de Ladrões. Sendo ou não uma forma do diretor racionalizar sobre sua atitude (para alguns, se desculpar), o filme é uma forte crítica do diretor às viciosas organizações sindicais e comitês políticos entregues à máfia e à corrupção.

A história de um ex-pugilista que se vê envolvido com os negócios sujos do sindicato dos portuários é um forte drama sobre a luta particular para se conseguir “fazer a coisa certa”, mesmo quando as condições externas e internas não são favoráveis. Embora leve em consideração as escolhas particulares, o roteiro tende à visão comunitária (ou social-democrata, em sua versão real) de uma unidade de trabalho a que todos possam ter acesso e que dela possam viver com dignidade. A luta nas docas acontece para que os estivadores recebam ordens de trabalho e a administração do sindicato não lucre com greves combinadas, desvio de arrecadação, cobranças indevidas e assassinato dos que ousassem questionar este modelo vigente.

A estética bastante próxima ao neorrealismo italiano tornou a história ainda mais forte. Quase a totalidade do filme se passa em cenários externos e os atores (em especial Marlon Brando e Lee J. Cobb, em excelentes interpretações) não fixam um padrão forçado para expressão de emoções fortes ou momentos mais leves de seus personagens. A naturalidade milimetricamente ensaiada é exposta de forma exemplar pela dupla e esse padrão é seguido pela maioria do elenco de apoio, havendo poucas presenças destoantes do todo, caso de Eva Marie Saint, em seu primeiro papel no cinema — apesar de já ter uma carreira de sete anos estabelecida na TV.

Marcado pela soberba música de Leonard Bernstein — louvável não só pelo perfeito papel na construção emotiva do filme mas também porque foi alternada com preciosos momentos de silêncio –, o filme possui uma linha madura e o tempo inteiro segura de si, conseguindo entrelaçar sem problemas a relação de Terry com o irmão e a máfia sindicalista de Johnny Friendly; os problemas morais e éticos envolvendo o trabalho de um homem e sua honra; o romance “proibido”, jamais tornado banal no decorrer da narrativa; e o senso de justiça e punição dos culpados junto ao teor político colocado como teto e chão da obra, aparecendo em todos os núcleos do roteiro, sempre em dose certa.

Kazan tinha em mãos um método de atuação, na pessoa de Marlon Brando, que caiu como uma luva a Sindicato de Ladrões e, como bom construtor de histórias sociais que era, o diretor fez bom uso desse método para tornar Terry Malloy um símbolo complexo de luta, resistência, erros e acertos de uma pessoa dentro de um contexto pessoal e social. Aliás, o roteiro do filme não deixa de lado o âmbito do julgamento das ações individuais, seja pela comunidade, seja pelas autoridades competentes. A culpa de todos é tocada e o símbolo de luta (também de todos, já que cada grupo luta por alguma coisa) se firma de maneira definitiva na sequência final, com a antológica cena de Brando caminhando em direção ao local de trabalho e Johnny Friendly tentando convencer os trabalhadores através de ameaças. A câmera cambaleante, os jogos de foco e a montagem experimental coroam a cena.

Sindicato de Ladrões é um poderoso exercício de crítica social e um instigante drama sobre o comportamento humano em seu ambiente de vida e trabalho, ambos em adversas situações de criminalidade. O filme recebeu 12 indicações ao Oscar, levando para casa 8 estatuetas, incluindo a de Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro. Mesmo depois de tantos anos, as duas leituras gerais que podemos dar à película fazem-na cada vez mais rica e curiosamente mais atual, daí a importância de ser revisitada de tempos em tempos, especialmente por aqueles que se dedicam, de alguma forma, ao engajamento político e se esquecem que por trás de qualquer bandeira, união ou grupo ideológico, existe homens e mulheres falíveis e sujeitos aos mais diversos crimes, paixões, traições e heroísmo.

Sindicato de Ladrões (On the Waterfront) – EUA, 1954
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Budd Schulberg, Malcolm Johnson
Elenco: Marlon Brando, Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger, Pat Henning, Leif Erickson, James Westerfield, Tony Galento, Tami Mauriello, John F. Hamilton
Duração: 108 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.